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Um presente de Natal

Apesar do nome, Baltazar odeia o Natal e nunca acreditou em Papai Noel. A mãe morreu cedo e o pai nunca se deu ao trabalho de lhe dar amor, muito menos um presente, fosse no natal ou em qualquer outra época do ano. O pouco que ganhava ia tudo em bebida, e Baltazar desde cedo aprendeu a se virar, fazendo biscastes pela vizinhança em troca de um prato de comida. Para não passar fome.
 
O tempo passou, o mundo deu voltas. Baltazar estudou e conquistou uma vida estável, sem problemas financeiros. Mas por dentro, o adulto Baltazar é ainda o menino infeliz e revoltado contra a sorte. Amores teve alguns, que nada trouxeram e nada deixaram,além da solidão de sempre. Solidão que se amplia no final do ano – Baltazar continua odiando os muitos natais que passaram por sua vida.
 
Natal não é sinônimo de milagre. Baltazar nunca teve a quem dar ou de quem receber um presente. Nas festas de Amigo Oculto no trabalho sempre se esquiva. Não faz sentido participar de um troca-troca de coisas inúteis com valor estipulado e obrigatório – nada ali vem do coração.  E quando algum colega gentilmente pergunta onde vai passar o Natal, responde com um vago: ‘Com a família”. Embora nunca tenha tido uma família.
 
Nesse Natal algo mudou nos 40 natais da vida de Baltazar. Maria apareceu assim do nada, justo o nome da mãe de Jesus, e não falta nada para ser mais santa – até um filho ela sustenta sozinha. A  moça é caixa das Lojas Americanas onde Baltazar é o gerente, e chamou sua atenção justamente por ser tão diferente das outras funcionárias – sempre sorrindo, nunca falta nem descuida das tarefas do trabalho e nunca briga com as colegas, como é comum entre as funcionárias.
 
Apesar da vida difícil, do trabalho árduo e mal pago, dos dois ônibus que pega todo dia, do dinheiro que com certeza não é suficiente para cobrir as despesas, Maria é gentil e atenciosa com todos, seja um  freguês mais exigente ou os colegas da empresa; seja a faxineira ou o gerente geral.  E pelas conversas que ouve no refeitório, sabe que leva uma vida caseira, sem festas e namoros.
 
Natal pode ser sinônimo de milagre. Embora ela tenha aceito seu convite para um cineminha no fim de semana, o relacionamento não passou de um beijo na face e um aperto de mão. E assim, não mais que de repente, ela o convida para a ceia. Quer que ele conheça o filho e os pais! É a primeira vez na vida que Baltazar participa de uma ceia de natal… com sorte, talvez até ganhe o presente que sempre desejou na vida – uma família!

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