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Um tango na vitrola???

Mais Gardel, impossível.  Depois de uma longa e enfadonha carreira de arquivista da prefeitura,  uma vida inteira lidando com papéis  mofados e salpicados de furinhos redondamente corretos (Ah, as traças… se pelo menos destruíssem todos os arquivos!),   Adelita finalmente se aposenta.  Sonho antigo, embarca num ônibus para Mi Buenos Aires querido.  Como na busca ao Santo Graal, a viagem longamente planejada é para conhecer Gardel
 
Quem mais se lembra?  A voz, o chapéu, o charme… tal e qual o piano alemão,  Gardel era também francês. Mas disse,  “Nasci em Buenos Aires, aos dois anos e meio”.  Se ele disse, tá dito e sacramentado.  A moderna capital da Argentina recebe Adelita com tangos – Por una cabeça, tudo se olvida,  cantado por um velho asmático nos fundos de um restaurante decadente onde outrora, diz a lenda, Piazzolla comida empanadas. 
 
Lá vai Adelita pelas ruas portenhas, guia turístico na mão, um sorriso de felicidade nos lábios. Desprezou os programas das agências de viagens, as dicas da Internet, as sugestões dos amigos que foram antes, do que gostaram ou não recomendam… Um amigo lhe contou que o único som que ouviu na cidade foi a voz da Gal Costa. Não acreditou. Seu programa é uma volta ao passado, achar a sombra de Gardel ainda parada na calçada do Teatro Colón, desvendar a alma dos tangos que já não cantam mais.   
 
Lá vai Adelita conhecer a Boca, a Avenida Caliente 348…  Na noite fria um velho ondula um velho bandoneon num cabaré enfumaçado, enquanto nas boates da moda bailarinos profissionais dançam tangos estilizados…  E tome tango – O último tango em Paris, El dia em que me quieras, O Tango da velha guarda,  Mano a mano, Tango de Carlos Saura, Quase um tango argentino,  Tem tanga no tango.  Viva el tango! Assim como o próprio Gardel, também existem controvérsias sobre as origens do tango. Argentino dos pampas, dos cabarés,  das prostitutas, da Boca? 
 
Que nada! Dizem que nasceu foi no Uruguai, onde foi morrer Gardel.  A Argentina sequestrou o ritmo e por certo o aprimorou.  Adelita quer tirar a limpo essas disparidades, descobrir a verdade por trás das lendas, desbaratar mais essa intriga internacional. Complôs e informações dúbias não faltam na história da humanidade, sempre movida por  interesses escusos.  As mortes de Kennedy e Marilyn…onde no mundo enterraram a Evita Peron…  No túmulo do Cemitério da Ricoleta só tem seu nome. 
 
Adelita adentra o Caminito como um crente chegando pela primeira vez na Caaba. Coberto de cravos ou de cardos, a hoje rua-museu virou mais um dos muitos pontos comerciais que a necessidade de atrair turistas faz brotar aqui e acolá. Perdeu a graça.  Próxima parada, o velho Teatro Colón, onde pela primeira vez ele cantou  Mi noche triste.  E tudo vale a pena… essa velha Buenos Aires onde pisa com reverência foi palco de uma vida fabulosa – aqui ele passou e viveu, foi feliz ou triste, amou pouco e foi muito amado. 
 
Mas o tempo passa e até os mitos vão morrendo também, numa perda ainda maior que a morte física. Adelita senta num barzinho da Boca e pede uma empanada, servida por um garçom muito jovem. “Brasileña?” ele pergunta, todo sorrisos. Adelita retribui com um breve sorriso e toma coragem para fazer a pergunta crucial, “Quem é o argentino mais famoso do mundo?” O rapaz nem pensa pra responder, “El Diego, claro….” “E Carlos Gardel?” “Quem?”  

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