As estocadas do ex-presidente da Assembleia Legislativa, Teodorico de Assis Ferraço (DEM), em cima do governador Paulo Hartung (PMDB), é pinto para os propósitos dele de ir para um confronto de reais proporções, pois aspira chegar a uma disputa para o governo do Estado, caso realmente o governador opte por uma reeleição.
Este propósito de Ferração não é simplesmente o de uma mera candidatura despretensiosa. Ela virá carregada com uma tonalidade principal de acerto de contas que vem lá de trás, quando o próprio Ferração salvou a carreira política de PH. Não diria que vem carregada de ódio, já que o ódio nunca fez o gênero de Ferração. É estratégica, já que o momento político permite este ajuste de contas com o atual governador.
Quando falo de acerto de contas, refiro-me ao momento da disputa entre PH e José Ignácio Ferreira, dentro do PSBD, pela candidatura ao governo do Estado nos idos dos anos 1990. À ocasião, PH foi fragorosamente derrotado. Ferração, que estava junto de PH nesta época, interveio no resultado da convenção para o Senado, trocando o escolhido, Motinha, por PH, numa atitude de absoluta ilegalidade, inclusive, com a conivência do próprio candidatado ao governo do Estado, José Ignácio, ressuscitando PH para a política capixaba.
Daí em diante Ferração e PH estiveram juntos. Essa aliança foi quebrada quando Hartung virou governador e Ferração estava à frente da prefeitura de Cachoeiro do Itapemirim. A partir deste momento, diferentemente da expectativa de Ferração, PH não passou a tratá-lo de maneira diferenciada em relação aos demais políticos. Ao contrário, PH deu veneno para ele, como para vários outros, para consolidar seu poder político no Espírito Santo, o que resultou nos seus três mandatos de governador.
Em outro momento mais recente, PH praticamente interrompeu uma permanência de Ferração na presidência da Assembleia, que tinha começado no governo de Renato Casagrande e permanecia no atual governo. Um período em que Ferração consolidava sua posição no alto da política capixaba. PH, porém, seguiu com sua neurose de poder despejar Ferração da presidência da Assembleia, justamente no momento em que ele contribuía com a consolidação do próprio governo do peemedebista.
O estopim desta relação foi quando PH exigiu dele que não colocasse em julgamento as contas de Renato Casagrande (PSB), que já haviam sido aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Ciente que os deputados, em sua maioria, não aceitariam reprovar as contas do ex-governador, PH exigia que Ferração simplesmente as ignorasse. Essa estratégia permitiria que a Assembleia não validasse a posição do TCE. A suspeição seria usada a favor de PH para ele continuar martelando que Casagrande havia quebrado o Estado.
Ferração, entretanto, não frequentou a arena dos intimidados por Hartung e prosseguiu com sua vida política, buscando chegar novamente à presidência da Assembleia Legislativa. Uma trajetória de mais de meio século no andar de cima da política capixaba. O velho Ferração segue vivo politicamente desde 1963, dando as cartas com seus quatro mandatos de prefeito de Cachoeiro do Itapemirim e com a passagem pela Câmera dos Deputados.
Em certa oportunidade, fiz uma imagem desta longevidade política do Ferração analógica ao mundo dos bichos, o comparei a um instintivo predador: a águia. A ave de rapina mantém sua longevidade mudando o bico: sua arma mais letal. A águia, quando sente o efeito do envelhecimento, bate com o bico em uma pedra até ele cair, para que nasça outro e ele possa continuar pondo em prática seu instinto predador de as presas que se oferecem no seu caminho.
O desejo manifesto do Ferração de ajuste de contas independe da sua relação com seu filho, Ricardo Ferraço (PSDB), que está aí esforçando-se para criar condições políticas eleitorais de reeleger-se senador da República. Não que Teodorico não contribuirá para o feito do filho. Em qualquer circunstância, Ricardo será o candidato de Ferração ao Senado.
Ao longo de suas vidas políticas, pai e filho seguiram caminhos distintos, próprios, razão, inclusive, do sucesso de ambos, além de terem com isso mais liberdade de se mexerem na arena política. A questão entre os dois é de pai e filho, regada por uma afetividade consanguínea.
Ferração está disposto a tudo para alcançar este objetivo de ajuste de contas em um amplo e iluminado palco político que são as eleições ao governo do Estado. Pode ficar no DEM se lhe for endereçada a candidatura ao governo ou até buscar outro partido, o que realmente não lhe faltará para enfrentar um confronto que idealiza para ser o último capítulo de sua história política. Já de bico renovado, não lhe faltam disposição e munição.

