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Uma história quase real

Eillis, uma jovem irlandesa, imigra para Nova York em 1951, e não veio sozinha. Uma grande leva de jovens irlandesas fizeram a mesma rota nos anos 50, em busca de melhores condições de vida.  Falo do filme Brooklyn, e a história me toca porque tenho uma amiga cuja mãe viveu essa mesma experiência – uma entre tantas outras jovens irlandesas que vieram sozinhas para um país estranho, sem conhecer ninguém. Vamos chamá-la Eileen.
 
Diferente da jovem Eillis, do filme, que veio para uma pensão para moças, Eileen ficou numa casa de família, uma situação também arranjada pela igreja de sua cidade natal. Aqui a esperava um emprego na cadeia de lojas Macy’s, até hoje funcionando a todo vapor, em todos os shoppings da moda. A Macy’s foi meu primeiro emprego no país, vendendo roupas íntimas femininas.  Eileen nunca voltou à terra natal e se casou com um imigrante irlandês.
 
A primeira leva de imigrantes irlandeses na América ocorreu na época da chamada Fome da Batata, em 1847. Milhões embarcaram para os Estados Unidos, então o país das oportunidades. Na década de 50, a Irlanda enfrentou outra crise  – não tendo participado da Segunda Guerra Mundial, que arrasou a Europa, ficou fora do Plano Marshal. Cerca de 50 mil irlandeses invadiram novamente a América. A grande maioria eram mulheres trazidas pela Igreja Católica, que funcionava como uma agência de empregos.
 
Faz sentido, portanto, que Eillis tenha encontrado um namorado italiano, também católico, pois a Igreja organizava eventos populares onde as garotas poderiam se entrosar socialmente e conhecer jovens solteiros, sempre sob a supervisão protetora dos padres. Sem bebidas alcoólicas. No filme Eillis faz uma viagem à terra natal, o que não aconteceu na vida real. As viagens de navio, longas e caras, eram pagas pela Igreja, que recebia então comissão das lojas onde as moças trabalhavam. Muitos imigrantes mandavam dinheiro para ajudar as famílias, mas raramente qualquer deles pôde retornar ao país assolado pela fome e desemprego.
 
Embora com um enredo minucioso, o filme escorrega aqui e ali.  Como a citação do filme “Depois do Vendaval”, com John Wayne e Maureen O’Hara, que só foi lançado em 1952. Objetos que aparecem no filme e não existiam na época: um duto de ar condicionado; um carro Buick lançado em 1955; um sinal de trânsito que surgiu muitos anos depois.
 
No filme Eillis se divide entre dois amores – o imigrante italiano que deixou no Brooklyn e o rico pretendente irlandês. Naturalmente as opiniões se dividem – se ela deixou o país por falta de recursos, por que não ficar com o milionário, que agora pode lhe dar uma vida confortável? Quero dizer, a vasta colônia irlandesa na América torceu pelo namorado irlandês e as velhas raízes da terra, enquanto a ala americana torceu pelo italiano, que representa a América e o futuro.

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