segunda-feira, março 30, 2026
26.9 C
Vitória
segunda-feira, março 30, 2026
segunda-feira, março 30, 2026

Leia Também:

Uma lenda moderna

Uma menina correndo para defender a bola atirada em gol, para para recolher uma pequena flor que brotou entre as traves feitas com cabos de vassoura.  Gol do time adversário, mas a menina não se importa. Põe a flor no bolso da bermuda e explica, “Vou levar pra minha mãe”.   Os parceiros do time reclamam – mais meninos que meninas – e o jogo prossegue, com as faltas e brigas de sempre. Tempo regulamentar expirado, a turminha suada se despede e  cada um segue para sua casa.
 
Um final de tarde como outro qualquer. Jantar em família sem direito a televisão ligada, dever de casa, banho. A bermuda com a flor no bolso jaz esquecida no chão do banheiro, e depois é  jogada no cesto de  plástico, de onde seguirá o inexorável trajeto de todas as roupas sujas:  o tanque ou a máquina de lavar, o varal, e depois a gaveta da menina. Até o próximo jogo e talvez a próxima flor.
 
A rotina da menina também não varia muito, pelo menos no meio da semana.  Com os deveres prontos, tem direito a uma hora de televisão, depois cama. Vídeogame não pode, porque os jogos  tiram o sono.  Já na cama, quase dormindo, a menina lembra da flor. Olha no cesto de roupa suja e acha a bermuda, olha no bolso e acha a flor – ou o que restou dela, murcha e amassada, que qualquer flor acaba mesmo desse jeito, e elas nunca choram.  A menina, porém…
 
A mãe ouve o choro e corre pra ver o que está acontecendo.  A garota explica. Era uma vez, uma flor, que embora pequena e simples, tinha um grande significado… A mãe entende e abraça a filha e diz que tudo bem, a  intenção vale mais que o próprio presente. “Mas por causa dela meu time perdeu um gol, portanto o jogo, e todos ficaram bravos comigo”, explica. A mãe a leva de volta para a cama, “Vou contar uma história…”
 
Era uma vez  uma flor, cuja função social era guardar a vida de um príncipe, que uma bruxa má transformou num monstro. Se a flor morresse, o príncipe seria monstro para sempre… “Eu sei essa história”, interrompe a menina, “é a Bela e a Fera”. A mãe concorda, “Mas tem uma parte que pouca gente sabe…” E conta que no jardim tinha um pé da mesma flor, e sem a bruxa má saber, a bruxa boa trocava a flor todos os dias. Até Bela chegar e se apaixonar pelo monstro.
 
“Legal, gostei. Mas o que tem isso a ver com a minha flor?” A mãe abraça a filha e explica. Tem tudo a ver, porque, por mais complicada que seja a missão de uma flor, e por mais curta que sua vida seja, tem sempre outra flor brotando para cumprir a tarefa no lugar dela. “Entendeu?” A menina não responde, já está no sono REM, e sonha com príncipes que lhe mandam flores. A mãe também nem repara que a filha não respondeu, já dormiu também.
 
Assegura-se, portanto, a essa singela lenda moderna, um final feliz. No dia seguinte o time da menina ganha o jogo, e ela leva outra flor para a mãe. E assim, por muitos e muitos anos, ela nunca deixou de dar uma flor para a mãe, mesmo virtualmente. Mesmo quando cresceu e no terreno baldio onde jogava futebol brotou um edifício de muitos andares e muitas crianças, que já não jogam futebol, só videogames. Mas as flores sempre estarão brotando por perto, esperando para serem colhidas e presenteadas.

Mais Lidas