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Uma pedra no sapato

Arilda  e Ecila eram amigas de infância, inseparáveis, onde uma ia a outra ia junto, sem nunca uma briga ou uma desavença no currículo. Até que um par de sapatos…  Na verdade um belíssimo par de sapatos, salto equilibrista, bico mata-barata, sola vermelha, couro preto com bolinha amarelinha que nem aquele biquíni – antigamente se dizia poás, aportuguesado do francês à pois: com bolas. Doado por uma amiga comum que comprou e nunca usou por colossais problemas de coluna.
 
Havia uma festa no meio do caminho, e as duas queriam usar o sapato, e sem que a outra soubesse, compraram vestidos amarelos para combinar. Ao perceberem a dupla, embora recíproca traição, pela primeira vez se desentenderam. O sapato é meu, a Éria me deu, diz Arilda;  Ela disse? Tem como provar? rebate Ecila.  E como o sapato está nas mãos da  Ecila, que não parece disposta a confraternizar, Arilda manda mensagem de texto pra Éria: Manda a Ecila me entregar o sapato.
 
Éria não entende o motivo do pedido, afinal elas são amigas eternas e um sapato não se parece em nada com o pomo da discórdia. Pomo da discórdia, como sabem, foi  a maçã  que provocou a Guerra de Troia. Mais uma vez a pobre maçã leva a fama pelos pecados humanos ou divinos. Tivesse a malvada Éris, a deusa da discórdia,  usado uma banana de ouro, Troia seria hoje uma aprazível praia turística no Mediterrâneo. Mas se uma simples maçã provocou tal guerra, por que não um sapato de bolinhas, no preço que andam os sapatos ultimamente?
 
Mais amiga da Arilda que da Ecila, Éria envia enigmática mensagem de volta, autorizando a mais amiga a ficar com o cobiçado sapato de bolinhas: esse texto garante a cessão dos direitos do meu ex-sapato a quem dele tem posse e guarda  no momento. Feliz com sua vitória, Arilda corre a mostrar o texto para Ecila, a usurpadora, explicando que foi tudo um mal-entendido; o sapato é dela e ponto final. Amigas, amigas, sapato à parte.
 
Mais ilustrada que a outra, Ecila  fica mais feliz ainda, Então fica confirmado que o sapato é meu. Éria diz aí que cede os direitos ao uso do sapato a quem os tem, portanto, eu. Menos ilustrada que a outra, Arilda fica menos gentil, Nada disto, cessão dos direitos significa que você parou de ter direito ao sapato, portanto, ele é meu. Arilda  joga no ar sua risada irônica, Cessão é conceder, querida. Você perdeu. Se ela tivesse dito  cessação dos direitos, o sapato seria seu.
 
Existe essa palavra no dicionário? espanta-se Arilda, tentando em vão argumentar que o que se discutia ali era a intenção da doadora, e  não seus bons conhecimentos ortográficos ou sapatográficos.  Ecila faz  ouvidos moucos, ou seja, finge-se de surda para ouvir melhor. Sem tempo para contactar a semeadora da discórdia, Ecila vai ao baile com o sapato de bolinha amarelinha, pondo um inglório fim a uma amizade de 28 anos. E nem perdeu um pé do sapato, para que talvez um príncipe…

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