Uma viagem pode mudar uma vida, ou muitas. Foi o que pensou Sumara, quando viu Jonas no aeroporto, onde as viagens começam ou terminam. Viajavam em assentos separados, e tudo teria ficado apenas na intensa troca de olhares – decolagem abortada – não fosse pelo atraso de muitas horas, comum em tempo de férias e voos superlotados.
Coincidentemente, foram passar o tempo no mesmo restaurante, e quando ouviram a chamada para embarque já estavam definitivamente comprometidos. Quem duvida de amor à primeira vista precisa de óculos. Sumara e Jonas viajaram juntos, ficaram juntos no destino e na viagem de volta já faziam planos para casamento e casa própria. Mas o destino, esse insensato…
Por confusas conjunções astrais, eram ambos vendedores externos, ou profissionais de vendas, mas para empresas rivais, o que veio complicar a sempre frágil paz doméstica. Mais coincidências, o pai de Jonas exercia o mesmo ofício, então chamado de caixeiro-viajante, e o avô de Sumara exercia o mesmo ofício, então chamado de mascate. Ou “turco da prestação”, nome dado aos imigrantes sírios e libaneses, genericamente cognominados de turcos.
Mascate, no entanto, vem do árabe el-matrac, e era o nome dado aos portugueses que, auxiliados pelos libaneses cristãos, tomaram a cidade de Mascate, no atual Omã, levando mercadorias para trocar por especiarias. No Brasil, o termo passou a designar os comerciantes árabes. O ofício era exercido apenas por homens, e o meio de transporte era o burro, a carroça; depois o trem, depois o ônibus.
A melhoria das estradas de rodagem e o carro próprio tornaram a vida dos caixeiros viajantes uma festa, até que… A facilidade de locomoção criou o efeito oposto – levou o comerciante aos grandes centros, onde podia comprar sem intermediários. O velho mascate conseguiu sobreviver, mudando de nome e se adaptando aos novos tempos. Hoje sua principal função é aumentar a carteira de clientes – as vendas geralmente são feitas por telefone ou online.
Sumara e Jonas vendem os mesmos produtos e ganham comissão pelos clientes conquistados. E embora sejam leais e éticos no relacionamento amoroso, o mesmo não se pode garantir no relacionamento profissional. É comum ver-se um cliente de Sumara de repente mudar de fornecedor, coincidentemente a empresa de Jonas. E vice-versa. Para a paz familiar, talvez a solução fosse trabalharem ambos na mesma empresa, mas aí qual a graça?

