O Newton e o Rubem estavam sempre lá
Meu pai era oficial de Justiça, primeiro em Muniz Freire, onde nasci, e depois transferido para Alegre. Seu sonho era escrever um livro sobre suas experiências no fórum, mas nunca escreveu uma só linha, apesar dos incentivos da família – Se eu contar tudo o que sei, vão me prender. Que segredos revelaria, nunca revelou, e hoje fico imaginando quantas coisas mais importantes deveria ter perguntado e se perderam nos escaninhos do tempo.
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Menino pobre em Cachoeiro do Itapemirim, hoje nos morde o mosquito da curiosidade: como obteve esse cargo sem apadrinhamentos e apesar do pouco estudo – tinha um grande conhecimento de leis e procedimentos jurídicos que lhe renderam o apelido de desembargador, usado até pelos juízes que passavam por Alegre. Quase diariamente havia advogados e outros necessitados de esclarecer dúvidas ou resolver situações complicadas com Dona Justa, batendo à nossa porta.
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Seu primeiro emprego foi no jornal Correio do Sul, em Cachoeiro, onde exercia o ofício de faz-tudo. Tinha que chegar cedo para varrer as salas antes do expediente começar. No mais, tarefas de rua, leva e traz recados, passar um cafezinho, constantes visitas ao banco – devia ter um, apenas, na cidade. Para quem por acaso não está familiarizado, o Correio do Sul era de propriedade dos irmãos Braga mais velhos, e os dois mais jovens, Nilton e Rubem, escreviam para o jornal. “O Newton e o Rubem estavam sempre lá.”
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Essa história não foi contada por ele; veio de outras fontes familiares, e nenhum deles está aqui para confirmar ou negar. Certo é que nasceu em Cachoeiro e era oficial de Justiça na jurisdição de Muniz Freire quando se casou. Para as funções do ofício, usava um terno de linho branco e cavalgava um cavalo chamado Moreno. Não sei por que motivo torcia pelo Bangu, um time de pouca monta em um tempo em que os “quatro grandes” dominavam o cenário futebolístico nacional: Fla, Flu, Botafogo e Vasco da Gama. Uma musiquinha de Carnaval desses tempos dizia: E tourada nós já temos no Fla-Flu.
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Aposentado, mudou para Vitória, e como não sabia ficar parado, arranjou um emprego de porteiro em um cinema da cidade. Sua função de agente da lei dizia que menores não podiam entrar em filmes proibidos para menores. Na porta do cinema, porém, a lei era outra: “Não pergunte a idade…” No dia seguinte, largou o emprego.

