Intervenção militar dos Estados Unidos é ataque frontal ao direito internacional
Por José Carlos Pigatti
Na primeira semana de 2026, a América Latina despertou diante de um fato que fere a consciência democrática dos povos e marcará profundamente a história da nossa região: a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura forçada do presidente de facto Nicolás Maduro e de sua esposa, sob a justificativa unilateral de acusações penais formuladas em território norte-americano. Sem declaração formal de guerra, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU e à revelia de qualquer mandato internacional legítimo, essa ação representa um ataque frontal ao direito internacional, um precedente perigoso e uma afronta direta à soberania dos povos.
Para o povo que vive do seu trabalho, que historicamente conhece o peso da exploração e da dependência, esse ato não é um desvio ocasional da política externa dos Estados Unidos. Trata-se da continuidade de um projeto imperialista secular, construído para garantir a dominação econômica, política e militar sobre países periféricos. Da Doutrina Monroe às sucessivas intervenções na América Latina — Cuba, Chile, Nicarágua, Panamá, entre tantas outras —, Washington sempre se arrogou o direito de intervir onde seus interesses fossem contrariados.
Não é possível dissociar essa ação das imensas riquezas naturais da Venezuela, em especial suas reservas de petróleo, estratégicas para o capitalismo global. Não por acaso, o discurso oficial norte-americano ignora princípios democráticos e direitos humanos, priorizando uma linguagem crua de controle geopolítico e energético. O que está em jogo não é a democracia, mas o poder.
Organizações populares e anticapitalistas ao redor do mundo foram claras: trata-se de uma agressão imperialista aberta, uma violação explícita da soberania venezuelana e um recado ameaçador a toda a América Latina. Um aviso de que nenhum país está a salvo quando ousa desafiar os interesses do império.
A esquerda consequente não fecha os olhos para as contradições internas da Venezuela. O governo de Nicolás Maduro acumulou fragilidades democráticas, com eleições contestadas, concentração de poder, controle sobre instituições e restrições à liberdade de imprensa. Reconhecer essas realidades é parte do compromisso com a democracia popular.
Mas é fundamental afirmar, com toda a clareza: nenhum autoritarismo interno legitima a intervenção imperialista externa. A crítica ao autoritarismo não pode servir de pretexto para sequestros, invasões ou ocupações militares. A autodeterminação dos povos não admite tutelas, muito menos impostas pela força das armas.
A captura forçada de um chefe de Estado soberano por forças militares estrangeiras é, sob qualquer critério, um ato de coerção internacional que se aproxima de um sequestro institucionalizado. Aceitar esse precedente é abrir caminho para a barbárie nas relações entre os Estados e para a normalização da lei do mais forte.
Diante disso, a posição do povo trabalhador deve ser firme, clara e coerente: 1) condenar o imperialismo dos Estados Unidos, responsável por séculos de dominação, guerras, golpes e pilhagem de recursos; 2) rejeitar todo e qualquer autoritarismo, venha ele de governos nacionais ou de potências estrangeiras.
Nossa perspectiva é inequívoca: solidariedade entre os povos, jamais intervenção imperialista.
A saída para a crise venezuelana — assim como para tantas outras no mundo — não virá de mísseis, sequestros ou sanções que castigam o povo. Virá de processos democráticos construídos pelos próprios venezuelanos, com diálogo, mediação internacional legítima e respeito à soberania nacional.
A esquerda deve defender, sem ambiguidades: 1) o fim imediato das sanções econômicas, que aprofundam a miséria e penalizam a população; 2) negociações políticas internas, sem imposições externas; 3) apoio à mobilização popular, por mudanças democráticas, profundas e socialmente justas.
O grande desafio do nosso tempo é construir uma alternativa que seja ao mesmo tempo anti-imperialista e anti-autoritária, sem cair na armadilha de escolher entre dois projetos de opressão. Defendemos o povo venezuelano, sua soberania e seu direito inalienável à autodeterminação.
A América Latina pertence aos seus povos. Nenhuma potência estrangeira decidirá nosso destino. Hoje é a Venezuela; amanhã pode ser qualquer país latino-americano. Sem soberania não há liberdade, e sem liberdade não há democracia. A história mostra: quando os povos se unem em solidariedade e luta, os impérios recuam.
O povo que vive do seu trabalho luta por um mundo sem imperialismo, sem autoritarismo e sem exploração. Lutamos por igualdade, justiça social, solidariedade entre os povos e paz.
Viva a soberania. Viva a autodeterminação. Viva a independência e a liberdade de cada povo.

