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Verão ardente

Carlos Caspar, ecologista por vocação e jardineiro por opção numa (pequena) cidade do interior, apareceu em casa no último domingo ao anoitecer. Não é esse o melhor horário para uma visita, mas no interior é comum dar uma passada numa casa amiga sem aviso prévio. Ele estava passeando. “Vim mostrar a capital para os filhotes”, explicou, enquanto dava detalhes sobre o que tinha feito com a família – a mulher e um casal de crianças.  
 
Gostou da feira ecológica porque apresenta uma diversidade de produtos muito maior do que no interior, mas os preços… esses são de butique. “Produto orgânico virou grife”, diz ele. De acordo, mas nem nesse “novo segmento do mercado” o consumidor está livre de fraudes.
 
Muito interessante a roda gigante do parquinho. Muito forte a zoeira do trânsito, difícil acostumar-se, a longo prazo vira neura. É verdade, concordo. No mais, se vê muita gente caindo de chique mas, em compensação, muito mais pessoas visivelmente passando necessidades. Há um desequilíbrio visível, eis sua observação final. Nisso também estamos de acordo: são gritantes as contradições socioeconômicas.
 
Depois, mais calmo, Caspar conta de seu trabalho. Após um curso de gestão ambiental, nível médio, duração de ano e meio, assumiu a coordenação da área verde de um condomínio de 200 casas à beira de uma lagoa mezzo limpa, mezzo poluída pela rede de esgotos. “Brasileiro costuma jogar merda na sua própria fonte de água potável”, diz  ele, sem alterar o tom de voz. Sua missão é zelar pela vegetação das ruas e praças, cuidar do viveiro de mudas e fazer a reciclagem de galhos e folhas, transformando tudo – por compostagem — em material fertilizante aplicável em canteiros e faixas verdes de calçadas. É um trabalho inspirado em José Lutzenberger (1926-2002), o ecologista que fez do lodo dos tanques de decantação de uma indústria de celulose a matéria-prima de um adubo rico em ácido húmico.  
Se fosse articulado na exposição das próprias ideias, Caspar poderia ocupar a lacuna deixada pelo velho Lutz, que unia um  excepcional conhecimento técnico a uma rica retórica temperada por um senso crítico implacável. Tímido, falando quase em surdina, Caspar é capaz de enfileirar uma série de informações fundamentais sobre o atual comportamento dos seres vivos em geral. Como passa o dia em contato direto com a vegetação, tornou-se um observador instintivo da natureza. Sua referência é Catimbau, veterano zelador do viveiro de mudas da escola agrotécnica da cidade. Inspirado nesse sábio, Caspar emite com simplicidade mensagens semelhantes aos relatórios da ONU sobre as mudanças climáticas. Semelhantes no conteúdo, não na forma.  
 
Por exemplo, no dia anterior, pela primeira nesta primavera, ele sentiu o Sol das 10 horas queimar a pele dos seus braços. “Esse verão vai ser feroz”, concluiu, dando à frase um  tom de advertência. Sim, diz ele, a Natureza está meio destemperada, como se estivesse sujeita ao “fogacho” que acomete as mulheres no climatério e aos suadouros de pessoas estressadas ou sob pressão na vida cotidiana.
 
Observando esses distúrbios, que se manifestam em tempestades, incêndios e atentados terroristas, nosso amigo tem certeza de que a Natureza está buscando um ajuste de contas com seus agressores. Segundo ele, pode demorar 100 anos ou até um milênio, mas vai chegar o dia em que cada pessoa adulta terá de respeitar uma série de direitos básicos e adotar regras elementares de sobrevivência, tudo ajustado ao máximo de socialização e ao mínimo de individualismo.
 
Não sendo possível prover de tudo para todos, terá de haver um pouco de cada coisa para cada um, privilegiando o coletivismo e coibindo o egocentrismo.
 
Não será preciso que cada pessoa tenha uma caderneta, uma tablita, como em Cuba.  Tudo pode ser informatizado, de tal forma que a pessoa crescerá consciente de ter direitos e deveres medidos e calibrados periodicamente, de acordo com a evolução da população e dos índices de produção. Começa que o sujeito só nascerá se houver vaga para ela no mundo, acredita Caspar. Chega de empilhar gente. Hoje somos 7 bilhões de pessoas. Tá demais e fora do equilíbrio natural.    
 
Caspar acha que o ajuste chegará ao ponto de tornar necessário definir a quantos metros quadrados de moradia terá direito uma pessoa, nem mais e nem menos. Cada um terá direito ao consumo de um tanto de vegetais a cada 24 horas, a cada ano de vida e no correr de sua existência, sabendo-se que no Brasil a expectativa de vida já passa de 70 anos.
 
Digamos então que você, leitor, terá direito a um maço de alface por semana, uma laranja por dia, duas bananas, uma xícara de arroz, outra de feijão, um saco de milho por ano ou meio frango por mês e assim por diante. Nada de excesso nem desperdício. A obesidade será proibida. Vida dura, torcida brasileira, mas será para o bem de todos e a felicidade geral da nação. A esbórnia das elites precisa acabar!
 
Sendo assim, nas áreas de alimentação  e outras, não haverá desperdício individual e a reciclagem será muito mais intensa e proveitosa. Hoje muitas pessoas descartam voluntariamente coisas usadas, mas no futuro (“que se aproxima como bola de neve”, diz o guru) o descarte será obrigatório porque a acumulação terá perdido o sentido diante da necessidade de trabalhar pela sobrevivência de todos, sem privilegiar os ricos como acontece hoje. 
 
Com a evolução do processo, será possível assim calcular até a quantos hectares de cultivo corresponde cada pessoa, a quantas calorias terá direito uma pessoa e assim por diante, em todos os níveis de atividade. A quem estranhar esse raciocínio basta lembrar que tudo já está mais ou menos medido  — só falta colocar em prática. Por exemplo: o módulo rural da reforma agrária gira em torno de 25 hectares por família; a jornada de trabalho de qualquer operário ou funcionário é de 8 horas por dia ou 40 horas semanais, mas essas coisas parecem esquecidas pelos mandantes de plantão.   
 
Claro, não haverá somente direitos. É preciso anotar os deveres de cada um. Sim, você terá de zelar por determinado número de árvores, arbustos e plantas menores – todas produtoras de oxigênio e capturadoras de carbono. Já ouviu falar de quotas? É por aí. A ênfase na manutenção e conservação dos recursos naturais terá pelo menos a mesma importância que se dá à produção. É nada menos do que uma virada civilizatória correspondente a uma troca de sinais e de mando.
 
Sim, senhoras e senhores, diante do fracasso da civilização machista, predadora dos recursos naturais e empreendedora de guerras, estamos caminhando para um mundo controlado pelas mulheres. É o ciclo do feminismo, que se sobrepõe ao machismo imperante ao longo dos dez milênios da civilização humana. A mudança  é inevitável. Caspar diz tudo isso em voz baixa, como se falasse “vai chover” — depois de dar uma olhada no céu.
 
“Está na hora, vamos embora”, agora quem fala é Darcy, a mãe dos seus filhos. Caspar aquiesce. As crianças não ousam protestar. Acaba a visita. A vida segue seu curso.   
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“As mulheres estão tão fálicas que assustam os homens” (Patricia Pillar, atriz)

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