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Vingança

Benício  já foi rico e influente, já frequentou as rodas mais seletas da alta sociedade. Não tinha festa importante ou acontecimento relevante para o qual não fosse convidado, e  circulava livremente entre o palácio e a assembléia, passando com desenvoltura por todas as ideologias e tendências. Foi o melhor lobista do estado, até que um dia um amor insensato pôs tudo isso a perder.
 
Benício se apaixonou pela mulher do delegado, que acabou descobrindo tudo,  e a coisa ficou feia. Era fugir ou morrer. Desacreditado, desmoralizado, com a cabeça a prêmio, a fina rede de influências que havia tecido a vida toda se rompeu – perdeu a família, as benesses, e todos lhe viraram as costas. Mas hoje tudo isso é passado e Benício trabalha numa agência da Mercedez Bens em Miami.
 
Escolheu essa marca porque o nome dela era Mercedes. Benício nunca mais teve noticias de sua amada. Por razões de segurança, nunca mais voltou ao Brasil e cortou todos os laços com quem lá ficou. Casou de novo e se acomodou com a pequena quota de felicidade que a vida lhe proporcionou. Mas Miami não é o Tuganistão, e uma agência de carros de luxo é sempre visitada por brasileiros endinheirados.
 
Um dia, não mais que de repente, Mercedes, mais linda que nunca, entra na agência de mãos dadas com um político capixaba influente, 40 anos mais velho que ela. O dono da agência corre para atendê-los,  “Brasileños? Nosso melhor vendedor fala sua língua…”  e chama Benício, que belisca o braço, tentando acordar do pesadelo – De todas as agências de carro de todas as cidades do mundo todo, ela entrou na minha… E o delegado? Está morto e enterrado?
 
Benício conhece o político: casado, sempre agitando a bandeira da moral e bons costumes para se reeleger. “Moram aqui?” gagueja. “Temos um apartamento fabuloso em Miami Beach”, ele diz, e Mercedes beija sua careca reluzente. Com o dinheiro de qual negociata? pensa mas se cala; não vai perder a comissão. Escolhem o modelo mais caro, enquanto o deputado vai chamando Mercedes de Minha top model  e Mercedes o chama de Meu Bombonzinho… E o delegado? Foi demitido ou está com Alzheimer?
 
Negócio fechado, o político vai pagar o carro à vista, deixando Mercedes e Benício a sós. “O deputado também está fugindo do delegado?” Ela ri, “Que idéia! A gente só passa os recessos em Miami, pra fugir da rotina.  E como tem mais recessos que sessões…” Benício disfarça o rancor,  e pergunta pela esposa do político: morreu, separou, fugiu com outro? “Ah, essa tem medo de andar de avião.”  E o delegado? “Vai bem. Foi promovido, agora é Superintendente Geral”.
 
Na pintura reluzente da Mercedes, Benício revê sua vida desperdiçada, seu lar desfeito, o amor errado, a carreira e os bens acumulados durante anos perdidos para sempre. “O Superintendente Geral sabe desse esquema?” pergunta, irônico. “Ele que não se meta com o deputado!” Discretamente, sem que ninguém perceba, Benício pega um prego e risca fundo a pintura da Mercedes quando eles passam pelo portão da agência.

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