Um crime na Praia do Canto, um dos metros quadrados mais caros de Vitória, deixou os moradores do bairro nobre chocados nessa quarta-feira (3). Queixar-se do aumento da violência quando ela é mantida a uma distância, digamos, segura, é uma coisa. Mas deparar-se com um corpo esburacado de balas, em decúbito dorsal, no meio do passeio público, “atrapalhando o tráfego”, é uma situação completamente inusitada, quase inédita, para esses privilegiados moradores. Nesse momento o cidadão, assustado, sente que a violência entrou sem bater.
Durante a paralisação da Polícia Militar, em fevereiro passado, os moradores dos municípios da Grande Vitória, sobretudo os dos bairros mais abastados, entraram em pânico quando perceberam que não tinham a quem recorrer para se defender da bandidagem. O jeito foi se trancar dentro de casa até que as forças de segurança nacional retomassem o controle e restabelecessem a ordem pública.
Na ocasião, o Padre Kelder, familiarizado com a violência nos bairros pobres da Capital, fez uma reflexão interessante. “Há quase oito anos estou em São Pedro e tem sido assim, com constantes tiroteios de dia e de noite, e tropeçando em corpos estirados nas ruas, becos e escadarias. Com greve ou sem greve da PM, a segurança pública nunca fez parte do cotidiano das periferias e não vai fazer depois que a greve da PM acabar. A greve da PM só democratizou a violência e está mostrando para todo mundo que o governo e a Polícia Militar estão pouco se lixando com a carnificina e tenho certeza que boa parte da sociedade também estaria se não tivesse correndo riscos. Enquanto os jovens, pretos, pobres e favelados estavam sendo exterminados, estava tudo certo e o ES era modelo de gestão e segurança para o país. Agora que a violência afetou todo mundo…”.
O comentário do Padre, postado nas redes sociais no auge da paralisação da PM, chama a atenção sobre a “democratização” da violência, que sempre esteve restrita às periferias. Sem polícia nas ruas, a violência havia rompido o muro para tirar o sono das faixas mais abastadas da sociedade.
Em entrevista a este jornal, à ocasião, Padre Kelder destacou que as mortes estavam restritas às zonas de exclusão e por isso não repercutiam tanto. O pároco chegou a fazer uma provocação ao questionar qual seria a repercussão se um único crime tivesse ocorrido num bairro nobre de Vitória.
A resposta ao Padre veio nessa quarta-feira (3). O crime brutal registrado na Praia do Canto não era de nenhum morador local. As investigações preliminares esclareceram que o homem morto é João Batista de Amorim, de 47 anos, comerciante da Serra.
Mesmo não sendo um local, o fato de o crime ter acontecido numa área nobre, transformou a morte do comerciante em destaque de capa nos dois principais jornais do Estado e tomou conta dos noticiários televisivos.
Em Vista da Serra, bairro onde o comerciante morava e trabalhava há mais de duas décadas, os assassinatos são corriqueiros. Com toda a certeza, se João tivesse sido morto em Vista da Serra, o crime ganharia, no máximo, uma discreta nota de rodapé de página. Por um simples fato, homicídios em bairros de periferia são tão triviais que não merecem mais destaque no noticiário.
O episódio ganhou toda essa dimensão porque o crime rompeu a fronteira que divide esses dois mundos. Como disse o Padre Kelder, a violência foi “democratizada”. E isso assusta.

