Dos 30 deputados, apenas um teve coragem fazer cobranças ao governador Paulo Hartung, que nessa quarta-feira (13) prestou contas do seu mandato na Assembleia Legislativa. Sérgio Majeski (PSDB), mais uma vez, mostrou que os interesses da população devem estar sempre acima dos conchavos políticos.
Um dos últimos a inquerir o governador, Majeski, como já virou regra, foi a voz dissonante entre os subservientes parlamentares. Até aquele momento seus colegas eram só elogios ao governador. Alguns se comportaram como tietes fanáticos, perdendo completamente a noção de seus papéis de representantes do povo. Afinal, a prestação de contas é o momento em que o deputado deve exercer sua função de agente fiscalizador do Executivo.
Sérgio Majeski manteve-se coerente à sua principal bandeira: a educação. Ele não se rendeu ao clima festivo e encostou o governador na parede. Com conhecimento de causa de quem percorreu mais de 170 escolas de norte a sul do Estado ao longo dos 18 meses de mandato, o deputado relatou que há pelo menos 60 mil crianças e adolescentes com idades entre quatro e 17 anos fora da escola no Espírito Santo. Voltou a criticar o principal programa do governo na área de educação. Majeski, sem entrar na questão conceitual do Escola Viva, afirmou que o programa atende a um número ínfimo de estudantes da rede pública estadual, e que grande parte desse universo continua desassistida. Ele reclamou da infraestrutura das escolas, da qualidade da educação e da não valorização do magistério.
O formato antidemocrático da prestação de contas favoreceu Hartung, que respondeu o que quis, torcendo a pergunta do deputado do PSDB. Decidido a desqualificar os questionamentos do deputado, o governador disse sem nenhum constrangimento que fechar escolas não era uma medida absurda. Até a suposta queda da taxa de natalidade o governador recorreu para tentar sustentar sua tese de que a demanda havia reduzido. Em seguida emendou: “Não vou abrir escola para quatro ou oito alunos”, avisou Hartung. Majeski rebateu, não na Assembleia, porque não tinha o direito à réplica, mas nesta quinta-feira (14) a Século Diário. “É patético considerar a taxa de natalidade, sem considerar a escolaridade. O estudante brasileiro estuda pouco e estuda mal”, afirmou deputado.
As declarações de Hartung, que não escondeu irritação com os questionamentos do deputado, revelam a visão que o governador tem da educação. Para Hartung, a máquina pública deve ser administrado a partir dos conceitos empresariais. Nessa lógica, vale a lei de marcado da oferta e procura. Se há poucos alunos, fecha. Como se as unidades escolares fossem franquias que fracassaram.
A escola, na concepção do governador, deve ser encarada como um negócio como outro qualquer. Fecha-se a escola e transfere-se os alunos para uma unidade mais próxima. E assim que racionaliza-se gastos. Demite-se o professor que dá aula para oito alunos, a servente, a merendeira a diretora. A escola vizinha, não importa se tão vizinha assim, absorve os alunos, mesmo que isso cause superlotação e comprometa a qualidade do ensino. “Escola chata”, como disse o secretário de Educação Haroldo Rocha, tem dessas coisas. O importante é racionalizar gastos e bater as metas de cortes de despesas. É a planilha no azul, não a de notas, mas a de cifrões que vai fazer o governador sorrir no final do mês.