A decisão do governador Renato Casagrande pela suspensão da cobrança do pedágio da Terceira Ponte é uma vitória das ruas. Muito antes do pedido de auditoria no contrato de concessão com a Rodosol, a população já mostrava sua insatisfação por meio da campanha pelo “pedágio zero”. No Espírito Santo, as manifestações populares, em junho passado, tiveram como bandeira desde o princípio a suspensão da cobrança. Foi na Terceira Ponte onde se iniciou ou terminou a maioria dos protestos, que chegaram a ecoar vozes de mais de cem mil pessoas que participaram da grande marcha, no histórico dia 20 de junho.
A partir deste momento, a voz das ruas atingiu, em alto e bom som, a classe política e as instituições do Estado. Os primeiros resultados, de fato, surgem agora, com decisões importantes anunciadas pelo governador Renato Casagrande, como a suspensão do pedágio e a obrigatoriedade da manutenção da ponte pela concessionária. É um primeiro passo, já que a auditoria deve continuar até o início do próximo ano.
É preciso reconhecer que o fim da cobrança teve a contribuição do deputado estadual Euclério Sampaio (PDT), que apresentou à época o projeto de Decreto Legislativo pela extinção do contrato de concessão. Naquela oportunidade, o adiamento da votação – forçada pelo pedido de vistas do deputado Gildevan Fernandes (PV) – deflagrou uma nova onda de protestos, que culminaram com a ocupação da Assembleia por um grupo de manifestantes. O movimento durou 11 dias, tendo fim apenas com a promessa de votação da matéria após uma tensa negociação, que teve até a participação do Poder Judiciário.
O jornal Século Diário acompanhou o #ocupaales por dentro e pode vislumbrar o ideário daqueles jovens, que acabaram sendo proibidos de acompanhar a votação, no dia 15 de julho. Enquanto o plenário da Assembleia rejeitava a proposta pelo fim do pedágio, com 16 votos a favor do parecer de Gildevan pela inconstitucionalidade do projeto, os manifestantes foram recebidos por bombas de efeito moral e gás de pimenta pela tropa da Polícia Militar – que destacou um efetivo surreal para a “proteção”, ironicamente, da Casa do povo e seus representantes.
Passado o momento mais crítico dos protestos, o caso voltou à tona com a divulgação do relatório preliminar da auditoria feita pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Um novo protesto está marcado para esta terça-feira (22), motivado pelos indicativos de irregularidades na concessão, cujos valores recebidos indevidamente pela concessionária, segundo o órgão, podem chegar a R$ 798 milhões. No entanto, o governador se antecipou aos manifestantes.
Mas a suspensão da cobrança, mesmo por prazo indeterminado, não deve solucionar o debate em torno da ponte. Pelo contrário, vai fomentar a discussão de um novo projeto de Decreto Legislativo, apresentado por Euclério nesta terça-feira (24).
É inegável que a atitude de Casagrande deve minimizar efeitos políticos da polêmica nas próximas eleições estaduais. A classe política também tenta capitalizar com o episódio a todo custo. Contudo, quem merece os louros pela vitória é somente a população, que saiu às ruas para protestar.
“Resistir, resistir, até o pedágio cair”.

