Alguém finalmente veio ocupar o apartamento ao lado, já há bastante tempo fechado. Mudança feita na calada da noite? Estranho… Saindo de manhã para o trabalho, Gina leva um susto ao deparar com ninguém menos que Luana, a bela, também esperando o elevador. Mais estranho ainda, sem roupas de butiques finas, sem sapatos e bolsa Vuiton, suas marcas registradas.
Luana, é você? pergunta, embora ambas saibam que sim. A outra a olha, sem disfarçar o mal estar, e responde secamente, Vim visitar uma amiga… Então quem acabou de mudar para o apartamento ao lado do meu é sua amiga? Bom saber… Luana se desconserta, tosse, e nada mais diz nem lhe foi perguntado. Deixam o elevador sem nem mesmo um até mais, e embora se encontrem muitas outras vezes depois desse primeiro dia, nada mais foi acrescentado ao já comentado acima. Estranho!
Fizeram a mesma faculdade, mas Gina e Luana viviam em mundos totalmente separados. Luana, a esnobe, não falava com quem não morasse na parte mais nobre da Praia do Canto, e ponto final. Era sempre a mais bem vestida, a que sabia das coisas, a bem entrosada nas novidades, fofocas, eventos. Pior, era a melhor aluna do curso, talvez até de toda a faculdade. Imperdoável! A melhor ocupação da turma deixada de fora era falar mal de Luana.
O curso terminou, com Luana eleita a oradora da turma. Depois, casamento badaladíssimo nas colunas sociais, com alguém do lado mais nobre da Praia do Canto. Viam-se vez ou outra, trocavam um educado e frio cumprimento, e era só. Numa festa na casa de uma das colega, assim de repente, sem ter premeditado ou avaliado o mal que estava fazendo, Gina conta para as amigas que viu Luana, a chic, de uniforme padrão cobrando pedágio na terceira ponte. Não! O espanto. Impossível! Pois vão lá ver!
As amigas não passavam pela terceira ponte, portanto, não checararam, e Gina, entre uma cerveja e outra, esqueceu de desmentir a notícia. Mesmo assim, o boato se espalhou, e logo toda a turma sabia e comentava, e embora quem passava pelo pedágio nunca visse a Luana, deduziam que esse não era o turno dela. No alto de seu apartamento duplex no melhor edifício da Praia do Canto, Luana ficou sabendo da história, e quem a inventou. Portanto, se já não eram amigas, agora viraram inimigas declaradas.
Muito longe da Praia do Canto, o prédio onde Gina e Luana moram é pequeno, e as duas se deparam frequentemente, mas não se cumprimentam. Até que Luana vai bater na porta da inimiga, reclamando do barulho que os filhos desta fazem no corredor. Devia educar melhor seus filhos! Ora, para quem não mora aqui, você não tem o direito de reclamar. Não tripudie, que a vida dá voltas, diz Luana, e se desmancha em lágrimas. Gina manda entrar, faz um chá de muringa, serve o resto da lasanha da véspera…
Ora, você sabe que moro aqui, onde mais? Perdi o dinheiro, o marido, o apartamento… Pior é quem morou aqui a vida toda… Mesmo decaída, a víbora ainda tem veneno nas mandíbulas. Gina concorda, É verdade, mas não se desespere, você ainda volta pro seu habitat… Luana enxuga as lágrimas, sorri, elogia a lasanha, Eu a perdoei por causa daquela calúnia… Luana ri, A terceira ponte? Que bobagem! Não a prejudicou em nada. Mas devia ter tido mais cuidado… foi uma previsão.

