Como se sabe, aqui e ali, na sua extensa obra, Karl Marx construiu o conceito de práxis. Está na Wikipédia um bom resumo do conceito: “a coincidência da transformação das circunstâncias com a atividade humana”. São mudanças concomitantes (e dialéticas) de circunstâncias (econômicas, sociais, naturais) e de ideias (pensamentos, vontades, ímpetos, ações). Mudanças de “fortuna” e mudanças de “virtú”, diria Maquiavel. Estaria em formação uma nova práxis? Cedo ainda para saber e concluir. Mas certamente não é cedo ainda para tentar compreender que as ruas e os grafos sociais do CIBERESPAÇO sinalizam a vontade e necessidade de olhar os mesmos e velhos problemas brasileiros sob ângulos e óticas distintas. E de, quem sabe, ao fim e ao cabo, pactuar um novo Contrato Social no país, “reaproximando” Estado/Nação e Nação/Estado.
“Problema” 1 : O Brasil e o governo Dilma. O senso comum parece estar encomendando um réquiem e as expectativas sobre a economia e a política são hoje sombrias. Quebrou-se a confiança geral. As relações econômicas e as relações políticas se dão, agora, em ambiente de desconfiança. Isto é muito grave. Prenúncio de crise. A confiança, madrinha das relações sociais, é o alicerce de tudo. Alicerce do Contrato Social.
Seria, na economia e na política, pura ciclotimia? Ou realmente a vaca foi ou vai pro brejo? Na economia, voz isolada, o economista (PhD em Harvard) Francisco Lopes aparece de repente com artigo instigante e iconoclasta no VALOR e vaticina: “…a grande maioria dos analistas da economia parecem sofrer atualmente de um pessimismo obsessivo…a leitura que foi feita dos números do BC configura um caso clássico do que a psicologia cognitiva denomina de viés de confirmação (confirmation bias) , que ocorre quando as pessoas só são sensibilizadas por informações que pareçam confirmar suas crenças ou hipóteses, ignorando qualquer evidência em sentido contrário…”. Segundo ele, pode ser que a publicação dos números do PIB em agosto venha a confirmar que “a taxa de crescimento em quatro trimestres do PIB do segundo trimestre fique muito próxima de 4% (VALOR, 17/07/2013). Com a reversão das expectativas e a quebra da confiança geral, o vaticínio geral é pessimista: deterioração, numa só palavra. Na economia, nem a perspectiva de melhoria do índice da inflação consegue reverter o pessimismo. Espera-se ainda um sinal forte da presidente Dilma na área da política fiscal e na área mais ampla da política econômica. O seu discurso no “Conselhão”, puxando para ela as rédeas da política econômica, ainda não foi suficiente. O que fazer? Tem receitas para todos os gostos e matizes políticos. As disputas políticas (sucessão de 2014) turvam o ambiente. A base aliada está em guerra de todos contra todos. Todos “ouvem”, mas nem todos “processam” as vozes das ruas. Demandas difusas (aparentemente), mas respostas “antigas”. Quem olha de longe lembra: parece diálogo de surdos. Eles não falam a mesma linguagem. Qual linguagem? O fundamental, é claro, é ouvir e “processar” as vozes das ruas. E dialogar “ad nauseam”. Tanto dialogar no plano real, quanto dialogar no plano virtual do CIBERESPAÇO. Pavimentando, insisto, no tempo, quem sabe um novo Contrato Social.
Enquanto isto, ninguém pode esquecer que a sociedade percebida por Hobbes, do “homem-lobo-do-homem” foi historicamente “contrabalançada” pela sociedade do “Contrato Social” de Rousseau. E produziu, na síntese, a “invenção” do Estado Nacional. No Estado Nacional, para utilizar o conceito de Max Weber, “o Estado tem o monopólio legítimo do uso da violência”. Queremos “outro” Estado? Vamos pactuar democraticamente… As ruas parecem pedir e propor um novo Contrato Social. Isto requer visão de Estado, para além das disputas políticas e paroquiais. Neste sentido, há que se fazer e produzir diálogos nas redes sociais. Mas há, também, e isto é fundamental, que se “cobrar” responsabilidade histórica de lideranças como Lula, como Fernando Henrique, como Marina Silva. É tempo de grafos sociais na internet e de “HUBS” (os formadores de opinião na internet). Mas é tempo, também, de oráculos à moda antiga. Não interessa a ninguém um eventual quadro de ANOMIA social. O que o país quer? A essência (fácil de falar) é canalizar as demandas, produzir o diálogo, operar as soluções. Teria se esgotado o “modelo tucano-petista” que governa o Brasil há 18/19 anos? Queremos o quê? Mais consumo? Mais investimento? Mais Estado? Menos Estado? Mais Governo? Menos Governo? Um novo Contrato Social? Por enquanto, o que se sabe, a julgar pelas pesquisas, é que o eleitor brasileiro rejeita o “status quo”. É ciclotimia? Ninguém sabe ainda. Mas já se antevê que as eleições de 2014 deverão questionar o Modelo de Estado e desenvolvimento do Brasil. A sociedade vai dizer no voto o que deseja. A pauta que parece englobar todas as demandas é: o reencontro do Estado com a Nação. Do Poder com a Cidadania.
É tempo de novos olhares sobre velhos problemas. De retomar as agendas perdidas das reformas que não foram feitas. Começando pela Reforma Política, a mãe de todas as outras. Passando pela Reforma Fiscal e Administrativa e pela reconstrução do pacto federativo. Mirando o Contrato Social.
“Prpblema” 2 : o Espírito Santo e o governo Casagrande.
No Espírito Santo, as manifestações confirmaram, nas redes sociais, que a auto-estima dos capixabas ainda é baixa. O corolário desta baixa auto-estima é, como se sabe, o baixo Capital Social, entendendo-se Capital Social como a propensão à cooperação e à confiança mútua. Ambiente que levou a sabedoria popular capixaba a desenvolver, já há muito tempo, a chamada Teoria do Caranguejo: no jogo de todos contra todos, todos saem perdendo. No “caldo de cultura” para a desconfiança, o governador Renato Casagrande clamou por diálogo no meio dos ataques ao Palácio Anchieta. Assim como em âmbito nacional, também no âmbito regional este diálogo é crucial. Ainda há tempo. É preciso superar a sensação, expressa na mídia tradicional, de falta de comando e Autoridade. E de uma ausência de diálogo que produz um (preocupante) vácuo.
Está posto pelas ruas e pelas redes que as manifestações continuam e vão continuar no Espírito Santo. É por isto que o governador Casagrande e os prefeitos da Região Metropolitana de Vitória precisam identificar interlocutores nas redes sociais e nas instituições para construir uma pauta a partir das demandas difusas já explicitadas. Esta pauta não pode resumir-se apenas à questão do pedágio na Terceira Ponte. Existem, além desta demanda, outras demandas que podem e devem ser “processadas” e articuladas. Algumas são de âmbito federal. Outras são de âmbito estadual. E outras são de âmbito municipal. Cabe “separar” as demandas e dar encaminhamentos institucionais e operacionais a elas.
Mas aqui, também, a demanda maior parece ser a do encontro do Poder com a Cidadania, da construção de um novo Contrato Social, do olhar para os velhos problemas com nova ótica. Esta demanda maior vai influenciar o processo sucessório estadual.
De pronto, ela está desgastando o governador Casagrande e abrindo caminhos para outras candidaturas. A sucessão capixaba de 2014 poderá ter três ou mais candidaturas: além da candidatura à reeleição de Renato Casagrande (PSB), é agora provável que se coloquem as candidaturas de Magno Malta (PR) e de Ricardo Ferraço ou Paulo Hartung (PMDB). Além de alguma candidatura “nova” incensada pelo clamor das ruas que desaguou na candidatura de Marina Silva. Sim, quatro candidaturas. Isto hoje é provável.
Para além das possibilidades sucessórias no Espírito Santo, como olhar os mesmo problemas sob ângulos e soluções novas? Os “manifestantes” parecem reivindicar mais saúde, mais educação, menos corrupção, mobilidade urbana, etc. Pois bem. Pegando apenas o exemplo da mobilidade urbana. Urbanistas capixabas importantes, como Roberto Simões, indagam :no caso da Terceira Ponte, a defesa do fim do pedágio não seria a defesa do automóvel ? O que dizem sobre isto os verdes? Por que não incluir na cobrança do pedágio um “subsidio cruzado” ao transporte coletivo, por exemplo? Por que não fortalecer a demanda pelo sistema aquaviário e pela implantação de ciclovias em Vitória e Vila Velha.
Tudo isto precisa ser discutido a partir do estabelecimento do diálogo. Diálogo pelas redes sociais e diálogo presencial com as “comunidades virtuais” que se formaram antes, durante e depois das manifestações. Problematizar e canalizar as demandas e reivindicações.
O que já é visível no horizonte é que a cidadania despertou no mundo inteiro e clama, aqui e acolá, por mais democratização da democracia e por um novo Contrato Social. Este clamor parece estar processando e produzindo uma nova práxis, para recuperar a confiança básica no Contrato Social a partir de novas formas de exercício da cidadania
Citado por Ricardo Noblat, o Papa Francisco disse o seguinte sobre a questão da marginalização: “…antes, em nossa sociedade, podíamos falar de opressores e oprimidos. Com o tempo, notamos que essa categorização não era suficiente, havia que acrescentar mais uma, a de incluídos e excluídos. Hoje em dia, a coisa ficou muito mais selvagem, e temos que acrescentar outra antinomia: os que entram e os que sobram. Nesta civilização consumista, hedonista, narcisista, estamos nos acostumando ao fato de que certas pessoas são descartáveis…” ( O GLOBO, 22/07/2013).