Recebo pelo correio gordo envelope contendo minha extensa cédula de voto. Yes, 9 de novembro é o Election Day e tenho o dever de exercer meu direito de voto. São quatro páginas preenchidas dos dois lados e em três idiomas: inglês, espanhol e o creole francês dos haitianos. Procuro e não encontro a opção em português – em que curva do caminho perdemos o direito de votar na língua pátria para o próximo presidente americano? Como é meu dever, me calo.
Votar é um direito, mas se não fosse obrigatório, quem nesses Brasís preferiria ir votar num domingo de sol, muitas vezes enfrentando filas, em vez de ir pegar um bronzeado em alguma de nossas praias poluídas? Se aqui o voto não é obrigatório, é preciso facilitar a vida do votante, como votar pelo correio ou votar antes em qualquer dos locais postos à disposição para tal fim. Votando no dia, tem que ser na sua sessão. E também não é feriado nem cai obrigatoriamente num domingo, seja com sol ou vento sul.
Votar é um direito, mas nem todos os votados fazem o dever de casa. Nosso dever seria escolher melhor, dirá quem não conseguiu o empreguinho que o vereador lhe prometeu. E muitas vezes, meu direito de escolher quem tem o dever de me representar esbarra em uma barreira de programas de governo nunca cumpridos e/ou desvios de verbas. Tenho o direito de denunciar desmandos e falcatruas, mas a justiça fechou os olhos e nem sempre cumpre seu dever.
O mastodonte envelope com minha cédula de voto está há dias sobre a mesa – the vote is on the table – olhando pra mim e eu pra ele, e me tirando o sono. Devo preenchê-lo e enviar de volta pelo correio, frete pago, até o dia 9. Mas cadê coragem de enfrentar esse longo teste de paciência e dar minha modesta e pouco abalizada opinião sobre questões prementes e essenciais para os destinos da maior nação do mundo? Teria que levar meses pesquisando a vida e a obra de tantos candidatos.
Votar para presidente é o direito mais fácil – dos quatro candidatos apenas dois estão realmente no páreo. Faltando ainda uma semana para o Dia D, a votação já começou e Trump sai na frente. Mas como disse César para o vidente, Começou mas não terminou ainda. Além das opções para senadores e deputados, temos uma longa lista de candidatos a alguma coisa, implorando meu direito de escolhê-los. Tantas opções devem ajudar o processo eleitoral, levando mais eleitores às urnas.
E temos ainda as emendas à constituição estadual. N° 1: Permitir que proprietários de aparelhos de energia solar vendam ou aluguem a energia que produzem em excesso, ao invés de entregar essa galinha dos ovos de ouro às distribuidoras de eletricidade; N° 5, legalizar o uso da maconha para fins medicinais. Mesmo se eleição é um direito, temos o dever de rir da luta-livre que os candidatos nos impõem. P: Qual a diferença entre Deus e Donald Trump? R: Deus não acha que é Donald Trump. “Nunca confie em um homem quando ele está apaixonado, bêbado, ou candidato” (Shirley MacLaine).

