domingo, abril 5, 2026
26.9 C
Vitória
domingo, abril 5, 2026
domingo, abril 5, 2026

Leia Também:

A forma e o conteúdo do Cais das Artes

Obra monumental espelha as contradições político-sociais do Estado

Governo ES

O Cais das Artes, enfim, está entrando em atividade, mesmo que aos poucos. Localizado na Enseada do Suá, às margens da baía de Vitória, o espaço monumental, com arquitetura brutalista, tem 30 mil metros quadrados de área com museu (inaugurado nesta semana), teatro e praça pública. O complexo promete elevar o patamar cultural da capital do Estado, mas a construção espelha as contradições do projeto político que tem comandado o Governo do Estado nas últimas décadas.

Figuras de oposição ao atual governo estadual vez ou outra criticam os atrasos e possíveis irregularidades nas obras. De fato, os problemas são muitos. A construção começou em 2010, custando R$ 115,5 milhões, com expectativa de inauguração em 2011, mesmo ano em que a empresa responsável pelas atividades faliu. Em 2013, houve novo contrato, mas aconteceu mais uma paralisação em 2015. O trabalho só foi reiniciado em 2023, e a data de inauguração teve novos adiamentos. Agora, os espaços estão sendo inaugurados em etapas, e a promessa é de que tudo será entregue até o fim deste ano. O investimento total deverá ficar em R$ 315 milhões, mais do que o dobro do previsto originalmente.

Nunca é demais lembrar, porém, que tudo começou na segunda administração do ex-governador Paulo Hartung (hoje no PSD). Sua esposa, a psicanalista Cristina Gomes, foi a coordenadora do projeto, tratando diretamente com o renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha (1928-2021), mesmo que ela não ocupasse cargo público – foi, portanto, um “projeto em família”. Não se trata de boato: sua função na iniciativa era descrita em divulgações oficiais do Governo do Estado da época, e ela mesmo falou sobre o assunto em um artigo no ano passado. Apesar disso, Hartung não fez esforço para retomar a construção em 2015, quando iniciou o terceiro mandato como governador. Se a gestão de Renato Casagrande (PSB) não tivesse assumido essa tarefa, o Cais das Artes provavelmente seria um eterno elefante branco.

A origem da iniciativa guarda revelações relevantes sobre o significado do Cais das Artes para o Espírito Santo. Em uma matéria publicada no Diário Oficial do Estado em 2010, Paulo Mendes da Rocha explicou a proposta arquitetônica: “o museu é suspenso do chão, fazendo com que o espetáculo dos navios, neste canal de entrada do Porto de Vitória, faça parte dinâmica das exposições. A luz será refletida do chão da praça clara para dentro do museu. O teatro terá o seu salão de entrada para a plateia, debruçado sobre o mar, com suas luzes conversando com as luzes do navio em movimento”.

Em um livro de registros do “VI Seminário Internacional Museu Vale 2011”, há também um breve texto de Mendes da Rocha sobre o Cais das Artes, resultado de sua fala na abertura do evento. “Cabe ressaltar, na ideia de projeto, a determinação política original, para dizer que a cidade nasce e se configura na mente, como imagem, antes que se construa uma presença de governo, de orientação, de representação do presumido interesse público das ações e do planejamento. É irresistível a imagem de Veneza…”, disse o arquiteto.

Chama a atenção o uso da expressão “presumido interesse público”. Em relação ao Cais das Artes, só se pode falar mesmo em interesse presumido, já que, aparentemente, a iniciativa não surgiu de um estudo detalhado sobre as reais necessidades do Estado no campo da cultura. Ninguém mais foi ouvido, a não ser o próprio arquiteto, a ex-primeira-dama e seu entorno.

Na arquitetura, a dicotomia entre qualidade estética e função pública se acentua como em nenhuma outra linguagem. Brasília, projetada pelo arquiteto comunista Oscar Niemeyer junto com o urbanista Lúcio Costa, é um dos maiores exemplos disso. Muitos apontam a falta de humanização da capital brasileira, com suas vias largas, prédios afastados e espaços amplos. Niemeyer costumava rebater dizendo que a arquitetura, afinal, não tinha a capacidade de resolver todos os problemas sociais, eventualmente apontando a “mediocridade” de quem se apegava à mera funcionalidade do ordenamento urbano.

Brasília, no fim das contas, se tornou um símbolo das contradições de um Brasil pretensamente moderno, mas que acentua a segregação social. No Cais das Artes, há algo parecido. As estruturas de concreto monumentais parecem apontar para um novo horizonte capixaba, de grandiosas realizações culturais em diálogo com questões identitárias da capital capixaba, mas a partir de um projeto de caráter personalista, com pouco diálogo com o público e os trabalhadores das artes. 

Outro ponto a se ressaltar é que, para a gestão do Cais das Artes, a Secretaria de Estado da Cultura (Secult-ES) anunciou uma parceria com a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) e com a Fundação Roberto Marinho, que ficarão responsáveis pelas programações formativa e educacional. Temos, aqui, mais um daqueles exemplos de obra pública que o Estado financia durante anos a fio com vultosas quantias para depois terceirizar a administração para a iniciativa privada, que não arcou com nenhum risco pela empreitada.

Enquanto o Cais das Artes aos poucos toma forma concreta (literalmente), não temos mais notícias, por exemplo, sobre as seis unidades do CEU da Cultura anunciados em 2024 pela Secretaria de Estado da Cultura (Secult-ES) para Cariacica, Fundão, Linhares, Serra, Viana e Vila Velha. Esses centros culturais de médio porte seriam bastante úteis para regiões periféricas do Estado. Cabe também ao Governo Federal, responsável pelo programa, dar respostas sobre a questão.

Iniciativas que reforcem a presença de equipamentos bens estruturados pelo Estado afora são fundamentais para o enriquecimento cultural da população capixaba como um todo, inclusive para contribuir com o próprio trabalho do Cais das Artes – que, mesmo após tanto dinheiro e esforço, corre o risco de trazer benefícios limitados para o povo.

Lucas Schuina é repórter de Século Diário, com graduação em Comunicação Social – Jornalismo e mestrado em Comunicação e Territorialidades pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). É autor do livro A luta pelo cinema: Memórias do cineclubismo no Espírito Santo” (2025) e coautor da obra Brice Bragato, uma mulher de luta: Da limpeza do curral à tribuna da Assembleia” (2023). Em 2026, lançou na internet, junto ao Cineclube Jece Valadão e ao espaço Sessão 1013, o documentário de curta-metragem Ciclo Sentidos da Loucura, com depoimentos de usuários do Centro de Atenção Psicossocial II (Caps II) de Cachoeiro de Itapemirim.

Mais Lidas