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Sexta, 30 Outubro 2020

Análise: Minha Felicidade

Análise: Minha Felicidade





A corrupção presente em vários estratos da sociedade é inalterada após épocas distintas. Mesmo sem a tirania da monarquia (czarista, no caso russo), a burocracia institucional toma o lugar desta e vai mais além, encrustando-se  em todos substratos da sociedade. 

 
"Não é uma estrada, é uma direção" da mesma forma que muitas vezes não interessa o destino, mas sim o caminho, e é neste que Minha Felicidade se faz, conversando e percebendo a paisagem que muda a cada carona que entra.  Várias histórias se entrecruzam no caminhão, enquanto o mundo passa pela janela. Janela do carro, janela do cinema, tudo são histórias. 
 
Do lado de fora porém o olhar é outro, no extracampo o mundo se mostra muito mais complexo, com uma diversidade ainda maior de pessoas, tendo como único ponto de ligação a crueldade entre elas. A estrada que percorre boa parte do filme não leva a lugar algum, sempre é motivo de reclamação dos personagens que já não esperam nada, somente se dirigem à frente. 
 
Nada muda se param em alguma casa e vivem uma vida comum. Sempre aparecerá alguém para confrontar visões próprias e exigir algo em troca - levando sempre vantagem.
 
A mesma frieza utilizada pela lei do mais forte e pela sobrevivência em épocas difíceis é utilizada pelo diretor para pular de uma história a outra, passando assim por várias pessoas que sofrem o mesmo tipo de abuso de poder. Seja por parte da autoridade estatal, seja pelo maior número, seja pela força mesmo. 
 
Uma mirada em várias épocas onde a falta de compaixão pode ser fruto da guerra que invade a Rússia pouco a pouco em todos seus rincões, mas também sem a desculpa desta vemos que compreende um período maior, desde momentos atuais a outras épocas quaisquer. 
 
A violência e a barbárie como parte integrante do país, do mundo. Em lugares a ermo quase sempre, vemos que tal crueldade não é sintoma do capitalismo selvagem, mas da selvageria de almas individualistas. Dessa forma o comunismo na Rússia é só um sistema político afastado da realidade mais íntima de cada um.
 
Uma fotografia contrastada que não perde nada de vista. Sempre em planos abertos e com uma profundidade de campo enorme, contrapõe várias cenas em diversos planos: ao fundo a ação complementa a monotonia vista em frente, ou propõe alguma forma de mudar a própria barbárie que está tão perto, mas ao mesmo tempo tão difícil de ser transformada, por isso o tempo. 
 
Um filme cuja duração dos planos absorve a realidade, mas também nos mostra o tempo de indignação e revolta, contidos nos personagens, mas também no espectador, que passa de sujeito contemplativo em quadros quase estáticos a espelho de uma realidade sendo transformada pouco a pouco.
 
Se minha felicidade depende do lugar do outro, vemos que este sempre necessita estar longe, correndo perigo ao aproximar demasiadamente, uma vez que está impossibilitado de uma comunhão maior. Talvez por isso a câmera segue a mesma lógica de afastamento e de divisão em planos, sempre visíveis, mas impossíveis de interrelação.
 
Vindo do cinema documental, o diretor Sergei Loznitsa, em sua primeira incursão pela ficção, mostra uma visão etnográfica muito própria de quem busca histórias reais, entrevistando pessoas distintas. 
 
Por vezes se estende e deixa seus personagens divagando, conversando sobre coisas incompletas, como vários canais de televisão, que são zappeados a cada instante, mudando completamente a leitura quando se tenta encaixar tudo numa visão global.
 
Serviço
Minha Felicidade (Schastye Moe, Alemanha/Holanda/Ucrânia, 2010, 127 minutos, 14 anos) 
 
Cine Metropolis: 20h40.

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