Projeto de Sayma Puri une retomada cultural e criação coletiva
A multiartista indígena Sayma Puri anuncia o lançamento de seu primeiro EP, um trabalho que une música, território e processo coletivo de retomada cultural do povo Puri. O projeto chega às plataformas de streaming no próximo dia 16, e será celebrado com dois eventos presenciais, que reunirão apresentações musicais e oficinas culturais conduzidas por integrantes da própria comunidade.
A artista destaca que o trabalho é o primeiro projeto musical gravado em língua Puri no Estado. O show de lançamento acontece no dia 18 de abril, às 20h, no Rancho do Barriga, em Cariacica, onde a artista cresceu e construiu sua trajetória. “Estou aqui e construí minha vida artística também aqui, entre os amigos e artistas do movimento”, afirma.

Sayma faz parte do coletivo Xamã Porum, que atua na preservação e difusão da cultura Puri no Estado, e vai fazer oficinas do idioma e de tapeçaria abertas ao público na tarde que antecede a apresentação. O segundo show de lançamento acontece no dia 16 de maio, às 18h, no centro Cultural Eliziário Rangel, em São Diogo, Serra. O evento também inclui oficinas de dança e produção musical antes da apresentação.
Os encontros foram pensados como espaços de troca e fortalecimento cultural, aponta a artista. “Eu sempre quis que fosse de uma forma que honrasse a minha ancestralidade”, exalta, e completa: “O EP é construído junto com os parentes, compondo também nas músicas”.
O EP reúne cinco faixas e marca a primeira gravação de estúdio de Sayma, realizada em parceria com a produtora Megalomania Produções. As canções nasceram no contexto da retomada Puri, movimento de reorganização cultural e política do povo indígena em territórios urbanos e rurais. “São canções que eu produzi nesse processo”, conta. Parte delas foi composta coletivamente, incluindo adaptações de poemas de outros integrantes da comunidade.
Entre as músicas estão Xute sana (bom caminho), Pañike koya (nós falamos), Sabedoria Ancestral, Rio Serpente, em parceria com Xipu Puri, e Iklana (lembrança). A faixa Sabedoria Ancestral surgiu a partir de um encontro de mulheres Puri na Zona da Mata mineira, em 2021. “Foi uma forma de contribuição naquele evento, do que estava acontecendo ali”, relembra.
Já Pañike koya aborda a vivência indígena nas cidades. “Eu cresci na periferia, mas percebendo o quanto a cultura não se perdeu, mesmo estando na cidade”, afirma. Para Sayma, a presença indígena nos centros urbanos é parte da continuidade histórica dos povos originários. “A cidade é um território indígena, porque antes dela chegar, a gente já estava aqui”, destaca.
O EP também se insere no esforço de revitalização da língua Puri, presente em várias faixas. Recentemente, o coletivo do qual a artista faz parte realizou o curso Kwatikindo, voltado à história e revitalização do idioma, reunindo participantes de diferentes regiões do Sudeste. “Por meio da música, a gente faz esse processo de revitalizar o idioma, de um modo que também expande a nossa cultura”, pontua. A iniciativa integra um movimento mais amplo e contínuo de retomada. “A gente sempre fala que todo indígena vive em retomada todos os dias, resistindo à colonização que segue acontecendo”.
Musicalmente, o trabalho transita por diferentes influências, como MPB, reggae, afrobeat e experimental, mas a artista prefere definir sua produção como “música popular originária”. “Estou trazendo muita diversidade de sons e ritmos. É algo aparentemente pequeno, mas muito diverso”, define.
Além da carreira musical, Sayma atua como liderança do povo Puri e desenvolve trabalhos com artesanato e educação. Sua trajetória está diretamente ligada à história de migração e resistência de sua família. “Eu cresci em Cariacica, mas minha família migrou de Aimorés, Minas Gerais, nos anos 1980, e a gente perdeu nosso território pela colonização. Mas a cultura não se perdeu”, completa.
O trabalho resgata a o processo histórico de invisibilização e dispersão territorial do povo Puri, que levou à interrupção do uso da língua ancestral. A partir da década de 1980, famílias passaram a se reorganizar em comunidades rurais em Minas Gerais, especialmente em Araponga, e posteriormente no Rio de Janeiro, na Aldeia Marakanã, menciona a artista, ao narrar o movimento de reafirmação identitária e reivindicação desse reconhecimento histórico. Esse processo também impulsionou a retomada da língua Puri. No Espírito Santo, a articulação ocorre por meio do coletivo Xamun Orun, e o EP surge nesse contexto com o propósito de fortalecer a retomada no Estado e ampliar a difusão da cultura Puri.
Para ela, o lançamento representa um marco coletivo. “Estou muito contente de perceber que minha arte está sendo coletivizada. É a primeira vez que estou passando por isso, e tem sido muito especial”. Após os lançamentos no Espírito Santo, Sayma pretende circular com o projeto por outros estados, especialmente em territórios com presença do povo Puri, como Minas Gerais e Rio de Janeiro.

