segunda-feira, fevereiro 16, 2026
28.9 C
Vitória
segunda-feira, fevereiro 16, 2026
segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Leia Também:

Benjamin Labatut: ‘Quando deixamos de entender o mundo’

Obra do escritor chileno utiliza o caráter documental como recurso literário inovador

Benjamin Labatut é um escritor chileno que ficou conhecido por obras literárias que misturam ficção e temas reais, num tipo de escrita que mescla elementos de realidade histórica, referências científicas, e a partir disso ergue um texto que levanta temas complexos, muitas vezes em forma de literatura que se pode acessar mesmo sem conhecimento prévio dos temas e informações (ou fabulações) que ficam inseridos em contos e romances que parecem um documento de eventos do mundo real, o que pode ser verdade ou não, ou ainda um híbrido que resulta numa literatura nova e original.

O escritor nasceu em Roterdã, na Holanda, e mora desde os 14 anos em Santiago, no Chile. Publicou La Antártica Empieza Aquí, ganhando o Prêmio Caza de Letras, depois lançou Después de la Luz, sendo a sua terceira obra Quando Deixamos de Entender o Mundo, que teve indicação para o International Booker Prize em 2021. Esta última obra, publicada originalmente em 2020, não se limita a ser uma narrativa histórica, mas flerta com o ensaio, a ficção científica e o romance de ideias.

Na obra, Labatut tem influência de autores como W.G. Sebald, de onde recebe o caráter documental como um recurso literário inovador, misturando fatos reais, história e ficção. Com Thomas Pynchon ele recebe uma espécie de narrativa científica e filosófica, com questões como a fronteira entre a genialidade e a loucura, que lembram o que Thomas Pynchon realizou em O Arco-íris da Gravidade.

A abertura se dá com uma epígrafe de Wernher von Braun, que  construiu uma das armas mais letais que seria utilizada pelo regime nazista, ao passo que tentava descobrir a existência da vida após a morte e da imortalidade da alma. Ele se muda para os Estados Unidos e trabalha pela Disney e ainda a Nasa. É um personagem que terá um caráter multifacetado semelhante aos cientistas retratados na obra de Labatut, em que o conhecimento avançado se mescla com a mística e a ambivalência política.

Outras influências de Labatut também incluem o beatnik William Burroughs, além de Roberto Bolaño, Eliot Weinberger e Pascal Quignard. A obra possui quatro narrativas que parecem ser a leitura de verbetes de enciclopédia ligados a cientistas de destaque dos últimos séculos, com vidas complexas e incompreendidas, com uma base narrativa associada também ao autor Éric Vuillard, de A Ordem do Dia, concentrada em fatos, mas com um revestimento literário.

A principal influência para Labatut, no entanto, foi o poeta chileno Samir Nazal, que coloca as tradições chilenas em narrativas complexas que se ligavam ao insólito, com criações de mundos falsos, além da crise ontológica, existencial, diante de um mundo dominado e movido pela técnica, com uma desconstrução da realidade por meio da ficção que aparece de modo semelhante em Quando Deixamos de Entender o Mundo, interpretado pela crítica literária como romance de não-ficção, um oxímoro, mas também sendo chamado de literatura pós-autônoma e de hibridismo, em que Labatut coloca a biografia de diversos nomes da ciência em perspectiva ficcional.

Divulgação

Em seus contos, Labatut produz um material inventado, porém, de difícil distinção de fatos reais, pois a narrativa documental pode reunir figuras como o físico Erwin Schrödinger, além do matemático Alexander Grothendieck, que foi o mais importante do século XX, um ilustre desconhecido fora de seu meio, com trabalhos incompreensíveis para leigos, e que se isola para descobrir a origem dos sonhos, em que ele teorizava que tinham todos a mesma fonte, pois vinham de um deus conhecido como Le Rêveur, “o sonhador”.

Diante das revoluções científicas e as mudanças de cosmovisão advindas dessas transformações no conhecimento, sobretudo no século XX, Labatut toma isso como eixo de sua obra Quando Deixamos de Entender o Mundo, em que o título já designa essa mudança de paradigma, sendo que a matemática, por exemplo, rompe suas próprias fronteiras, em que os personagens, a princípio históricos, acabam descambando para um caminho delirante de cunho místico e filosófico.

Ruptura que pode ser associada com uma das insígnias apocalípticas do século XX, que foi quando o cientista Robert Oppenheimer citou Bhagavad Gita, ao descrever a criação da bomba atômica: “Agora eu me tornei a Morte, a destruidora de mundos”. Labatut reforça que o uso da ciência e da tecnologia produz desdobramentos políticos e de poder. Nos deparamos, por exemplo, com uma matemática alienígena, que rege o funcionamento das partículas elementares, em um texto, o quarto do livro, em que figuram os físicos Schrödinger e Heisenberg, num flerte com a loucura, desafiando a compreensão humana e culminando em perspectivas metafísicas e religiosas.

O escritor também aponta a ruína da busca de um conhecimento totalizante, com uma verborragia enciclopédica, delirante, levando cientistas a um ponto de não retorno, em que a descoberta impacta a vida e a relação com o mundo desses personagens, que entram em parafuso, como o matemático japonês Shinichi Mochizuki e Alexander Grothendieck, que abandonou a carreira depois que descobriu o perigo de sua nova descoberta, escolhendo o silêncio, tentando evitar a má utilização daquele conhecimento que ele havia conquistado.

Grothendieck foi um matemático alemão que alcançou avanços significativos na álgebra e na geometria, em que foi oferecida a ele a Medalha Fields, considerada o Nobel da área, mas Grothendieck recusou-a e foi viver afastado, sem compartilhar as suas pesquisas individuais, construindo uma história de vida que pode ser comparada com a do japonês Shinichi Mochizuki, que em 2012 publicou artigos demonstrando uma das mais importantes conjecturas da teoria dos números, considerada impossível de resolver até então, mas foi incompreendido.

O título de Quando Deixamos de Entender o Mundo também nomeia o conto que fala do embate entre Schrödinger e Heisenberg, da física quântica, em que a matemática descreve um mundo contraintuitivo, distante do senso comum. Werner Heisenberg funda o Princípio da Incerteza, em que a própria observação científica passa a modificar a realidade. Heisenberg revolucionou a física com esse princípio, ao mesmo tempo em que se defrontou com os limites do conhecimento da realidade, em que Labatut questiona como tais descobertas podem, por vezes, afetar a sanidade desses cientistas.

No conto Azul da Prússia, o astrônomo Karl Schwarzschild, que foi pioneiro na idealização dos buracos negros, ficou com horror da própria descoberta, pois ali a física deixava de fazer sentido, e a natureza volta a mergulhar no mistério e na loucura. Ao passo que o químico judeu Fritz Haber contribuiu na criação da tecnologia que produziu o Zyklon B, gás letal que depois seria usado contra a sua própria família nos campos de extermínio. Ele conseguiu extrair nitrogênio da atmosfera, o que permitiu uma revolução na agricultura e o crescimento populacional, levando também à criação do gás sarin, que foi usado como arma química de guerra.

A narrativa conta como a descoberta acidental do pigmento azul da Prússia, enquanto se tentava criar o carmim, usado para pintar mantos da Virgem Maria, acabou levando à criação do cianureto e do gás usado nas câmaras de extermínio nazistas. Aqui se remonta um tema de Thomas Pynchon, em que o conhecimento acaba colaborando com métodos de genocídio, onde conglomerados como a IG Farben, podem se apropriar de novas descobertas para a sua utilização no extermínio de pessoas.

O desvio da busca científica de desvendar enigmas da natureza e do universo para um uso político e militar é a contradição trabalhada por Labatut. O progresso científico perde a sua neutralidade em seu uso, pois move interesses de poder, em que o saber como meio para o exercício de poder é uma virada moderna, em que o domínio técnico, que vinha das artes servis, antes subestimadas, ganham protagonismo no status da ciência como eixo da cognição moderna e contemporânea, repleta de contradições.

No Epílogo O Jardineiro Noturno, é feita uma síntese de todos os contos anteriores, podendo citar Alexander Grothendieck, o matemático que se isolou da sociedade ao perceber o potencial destruidor de suas descobertas. Tem ainda o Gato de Schrödinger, em que é feita a interpretação do experimento do gato. A obra perpassa em seus quatro contos essa fronteira entre uma busca racional e produtiva, científica, e pendores de destruição política e militar, além do isolamento e loucura de cientistas atormentados.

Por fim, o próprio Labatut descreve esse contos: “Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais. A quantidade de ficção aumenta ao longo do livro; enquanto em Azul da Prússia só há um parágrafo ficcional, nos textos seguintes tomei liberdades maiores, tentando permanecer fiel às ideias científicas expostas em cada um deles. O caso de Shinichi Mochizuki, um dos protagonistas de O coração do coração, é particular: inspirei-me em alguns aspectos do seu trabalho para adentrar a mente de Alexander Grothendieck, mas a maior parte do que é dito sobre ele, sua biografia e suas pesquisas, é ficção. A maioria das referências históricas e biográficas utilizadas nesta obra pode ser encontrada nos seguintes livros e artigos, a cujos autores também gostaria de agradecer”.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: poesiaeconhecimento.blogspot.com

Mais Lidas