Iniciativa visa combater estigma relacionado a sofrimento psíquico; abadá está à venda
Pela quarta vez, o Bloco Que Loucura, iniciativa que busca combater o estigma relacionado a pessoas com sofrimento psíquico, vai abrir o carnaval oficial de Vitória, com desfile a partir das 19h30, no dia 6 de fevereiro, no Sambão do Povo. A venda dos abadás do bloco já começou, e os interessados podem adquirir por meio deste link. Para usuários da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e seus familiares o valor é R$ 30. Já o público em geral paga R$ 40.

Este ano, para participar, será preciso se inscrever, de maneira gratuita, por meio de um link que será divulgado no instagram do projeto até o final da semana que vem. O bloco é um coletivo independente que surgiu em 2004, criado por estudantes dos cursos de Psicologia, Terapia Ocupacional e Serviço Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), tornando-se um projeto de extensão da instituição de ensino.
A iniciativa abarca, ainda, pessoas em sofrimento mental e em uso prejudicial de drogas, professores, trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS) e simpatizantes da luta antimanicomial e antiproibicionista. Essa última defende uma sociedade que olhe de forma diferente para o uso das drogas, sem a defesa da internação compulsória e do tratamento em comunidades terapêuticas comandadas por igrejas, sendo o SUS o local adequado para isso.
“O bloco busca quebrar estigmas e preconceitos contra as pessoas em sofrimento mental e as que consomem drogas. Por meio da arte e cultura, a ideia é fazer com que vivam em liberdade. Também busca defender que essas pessoas devem ser atendidas no SUS, público, gratuito, universal”, diz a professora do Departamento de Serviço Social da Ufes, Fabíola Leal.
As pessoas em sofrimento mental e em uso de drogas participam de todo o processo de construção do bloco, como criação da marchinha, produção de utensílios como caneca, bolsa e o próprio abadá. O dinheiro das vendas vai para esses participantes, promovendo geração de renda nos moldes da economia solidária. Este ano, a marchinha se chama “Almas que libertam, mentes que curam”.

Fabíola explica que a música fala sobre a luta pela liberdade e homenageia pessoas que se destacaram na luta antimanicomial, como a sambista Dona Ivone Lara. Além de cantora e compositora, ela atuou como enfermeira e assistente social em hospitais psiquiátricos.
Dona Ivone Lara, inclusive, trabalhou no Serviço Nacional de Doenças Mentais com a psiquiatra Nise da Silveira, uma das principais referências da luta antimanicomial no Brasil, que também é uma das homenageadas na marchinha do bloco. Outro homenageado é Arthur Bispo do Rosário, que chegou a ser internado em um hospício após afirmar ter visto a si mesmo descendo do céu, acompanhado de anjos, sendo ele “aquele que veio julgar os vivos e os mortos”. Confinado, bordava estandarte e fragmentos de tecidos que percorrem o Brasil e o mundo em exposições.

