Alegorias que misturam humor, protesto e crítica política marcam gerações

Sob o enredo “No Reino Barrense, a Coroa é do Povo”, o tradicional Bloco Surpresa comemora 40 anos de história na Barra do Jucu, em Vila Velha, e reafirma sua marca registrada ao transformar histórias locais, personagens da política e acontecimentos inusitados em teatro carnavalesco a céu aberto, sempre com humor, crítica e identidade cultural. O desfile principal acontece neste domingo (15) e na terça-feira (17) de Carnaval, além de programação paralela com batucada e participação de outras agremiações.
Criado em meados da década de 1980 por um grupo de amigos da Barra do Jucu, o Bloco Surpresa nasceu da tradição dos mascarados que percorriam os “matos” da região — áreas como Jacarenema e arredores — para se fantasiarem longe dos olhares curiosos. O objetivo inicial era simples: não serem reconhecidos nas ruas durante o Carnaval. Da competição entre grupos surgiu a necessidade de inovar e surpreender. As primeiras alegorias eram produzidas escondidas e reveladas apenas no momento do desfile.
Um dos fundadores, Erasmo Tibu, resume a trajetória como um crescimento natural de algo que começou pequeno, entre amigos, e ganhou proporções que ultrapassaram o bairro. “Há 40 anos nós começamos fazendo sátiras do que acontecia no bairro. Eram conversas, histórias da própria comunidade. A gente mexia com os moradores, fazia o evento acontecer”, conta.
Com o passar do tempo, o alcance das sátiras se ampliou. “Depois começamos a mexer com políticos locais, do município de Vila Velha. Mais uns anos e já estávamos fazendo sátiras do mundo. Já mexemos até com o Bill Clinton na época”, lembra, citando o ex-presidente dos Estados Unidos como um dos personagens levados para a avenida.
Na ocasião, o personagem desfilou ao lado de uma representação do então presidente Fernando Henrique Cardoso. A apresentação ganhou repercussão nacional com link ao vivo durante o programa Fantástico, da Rede Globo. “A gente nem esperava, abriram o link ao vivo da Barra do Jucu para o Brasil e para o mundo”, recorda.
O Bloco Surpresa foi criado por um grupo formado por Erasmo, Lilico, Aerton, Volci, Ginarte, Délio (conhecido como Délio Cuca), Leandro, Gentil Valadares e Jefferson, entre outros amigos da comunidade. “Se eu estiver esquecendo alguém, peço desculpa. Era um grupo coeso, maneiro”, exalta. Quatro décadas depois, a estrutura mantém a característica familiar. Lilico segue como referência do grupo, e a presidência está hoje com seu filho, Carlos Magno. O filho de Erasmo, Oscar, ocupa a vice-presidência. “Vai passando de pai para filho. Agora meus outros filhos também estão envolvidos. Vamos contando histórias e fazendo mais um ano de surpresa”, afirma.
O bloco só deixou de desfilar durante o período da pandemia de Covid-19, em respeito às normas sanitárias. “Nem brincamos com pandemia. Isso não é brincadeira”, pontua. Fora esse intervalo, o Surpresa esteve presente em todos os carnavais desde 1986.

A irreverência do bloco sempre incluiu figuras públicas. Um dos exemplos lembrados por Erasmo é o enredo “Tartaru Max”, inspirado no então governador Max Mauro. “Mexemos com todo mundo. E ele levou na esportiva. Depois até fez um broche do Tartaru Max e usava na camisa”. Outro personagem frequente foi o ex-prefeito de Vila Velha Vasco Alves. O bloco chegou a compor marchinhas sobre ele, inclusive uma que fazia referência ao desejo de disputar o governo do Estado. “A autoria das músicas é coletiva, não tem um autor só. São várias pessoas criando”, explica.
Apesar das críticas, Erasmo ressalta que a maioria das lideranças levava as brincadeiras com naturalidade. “Quem está na vida pública sabe que pode receber sátira e também elogio”. Em outra ocasião, o bloco representou dois prefeitos de forma simbólica: um como anjo, voando, e outro como demônio, sendo “pisgado” em um carro alegórico. Na edição deste ano, ele adianta que o atual prefeito, Arnaldinho Borgo (PSDB), e o governador Renato Casagrande (PSB) “vão ter surpresas”.
Se a política sempre esteve presente, os acontecimentos da própria comunidade também renderam enredos. A primeira história contada pelo bloco foi o “Ônibus do Desarranjo”, inspirado em uma excursão de moradores para Aparecida. Durante a viagem, vários passageiros passaram mal após uma refeição. O bloco transformou o episódio em alegoria, com lista de nomes na entrada do ônibus cenográfico. “Tinha gente que odiava, tinha gente que ria”, diz.
Outro momento marcante foi o “Monstro Marinho”, baseado em relatos de pescadores que afirmaram ter visto uma criatura no mar da região. O caso chegou a ser noticiado por um telejornal capixaba. “Nós fizemos o Monstro Marinho que invadiu a Barra”, afirma. O enredo “Tanque U” também entrou para a memória dos foliões, recriando uma espécie de guerra fictícia dentro da Barra do Jucu, com direito a efeitos cenográficos que simulavam disparos. E houve ainda a famosa “vaca voadora”. “Nem eu imaginava como fariam aquilo. A vaca subiu, voou lá em cima e desceu. Parecia de verdade, muito bem feita”. A alegoria surpreendeu o público e reforçou a vocação teatral do bloco.
Erasmo define o Surpresa como “teatro carnavaleiro”. “É sátira em cima de sátira. A gente engloba as bandas de congo no teatro, porque isso é cultural da Barra. Minha mãe foi rainha do congo. O Carnaval da Barra, para nós, é cultura acima de tudo. O respeito acima de tudo”, define.. A presença do congo mantém a tradição e reforça a identidade cultural da comunidade, mesmo diante da transformação da Barra do Jucu, desde 1986, afetada pelo crescimento urbano e a valorização imobiliária.
“Naquela época quase não tinha casa, era muita restinga. Hoje está difícil até arrumar casa para alugar”. Apesar do desenvolvimento, ele ressalta a mobilização da comunidade para proteger o território, especialmente o Rio Jucu. “Se alguém tenta fazer algo errado, como jogar esgoto no rio, a gente denuncia. A Barra é julgada um lugar difícil porque não deixa qualquer coisa acontecer”, observa. O bloco também mantém marchinhas que viraram espécie de hino, repetidas ano após ano, além de novas composições criadas coletivamente.
O bloco conta hoje com incentivos culturais por meio de leis de fomento, mas Erasmo aponta a necessidade de mais estrutura permanente. “Precisava de uma área para a comunidade montar carro alegórico, com acesso para entrar e sair. A gente fica em um terreno e outro”.
Para ele, um dos maiores orgulhos do Bloco Surpresa é manter o Carnaval como espaço familiar. “Você pode vir com criança, com neto, brincar na pracinha com segurança. Fica mais de 72 horas sem confusão nenhuma, só gente feliz”, ressalta.
Ele reconhece que todo evento público enfrenta desafios, mas destaca que a proposta é manter alegria e harmonia. “O sonho é manter a cultura viva, a sátira viva, e ver as famílias felizes num lugar seguro”. O grupo segue fazendo jus ao nome: a cada Carnaval, a Barra do Jucu aguarda, curiosa, qual será a próxima surpresa.














