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Carnaval no Centro tem horário mantido, mas segue sem plano de operação

Blocos ainda esperam da prefeitura definições sobre logística e segurança

Luara Monteiro

Às vésperas do Carnaval, blocos tradicionais do Centro de Vitória conseguiram manter o horário original de desfile após reunião da Comissão de Organização do Carnaval da Prefeitura de Vitória, mas afirmam que a gestão de Lorenzo Pazolini (Republicanos) ainda não apresentou um plano formal de operação para a festa, com definição pública de estrutura, logística e protocolos. A Liga dos Blocos do Centro de Vitória (Blocão) tem criticado a ausência de documentação oficial das decisões e cobrado diálogo com a sociedade civil.

Yuri Paris, organizador do bloco Amigos da Onça e morador do Centro, relata que a confirmação do horário ocorreu de forma informal. “Nós tomamos iniciativa de aparecer na reunião da comissão e as responsáveis técnicas da Secretaria Municipal de Cultura nos atualizaram sobre o que tinha sido conversado. Mas foi verbalmente, ainda não recebi essa comunicação por escrito”, afirma.

Com isso, tanto o Amigos da Onça quanto o bloco Maluco Beleza poderão desfilar no horário tradicional, até as 15 horas, como ocorre desde a criação dos grupos. Ainda assim, Yuri ressalta que a mudança cogitada pela comissão, de terminar três horas antes, não teve justificativa formal. “Nós protocolamos o mesmo horário todo ano, mas a prefeitura decidiu mudar o horário sem dar nenhuma explicação. Por que? Não sabemos. Não houve justificativa”, critica.

Ele também aponta que as reuniões da comissão começam todos os anos somente apenas após a publicação do decreto de Carnaval e quando os blocos já estão inscritos, geralmente em janeiro, e “a prefeitura não tem nenhuma pretensão de mudar essa realidade para o ano que vem”. A tendência, portanto, é que os organizadores voltem a enfrentar incertezas poucos dias antes da festa em 2027, como avalia.

A principal crítica recai sobre a inexistência de um plano operacional para o Carnaval no Centro. “Até agora a prefeitura não tem um plano de operação, um mapa que indique onde vão estar os banheiros do bairro; os pontos de hidratação; os serviços de apoio a mulheres, aos comerciantes, às crianças e aos idosos…esse plano não existe”, alerta. Há ainda a preocupação pela inexistência de um plano de dispersão definido junto com as forças de segurança. “Já passou da hora para isso”, enfatiza.

Em 2025, foliões e moradores foram atingidos pelas forças de segurança com gás lacrimogêneo durante a programação noturna. A Associação dos Moradores do Centro (Amacentro) chegou a divulgar uma nota com críticas à forma como foi feita a dispersão na última noite de folia, utilizando spray de pimenta nas proximidades da rua Maria Saraiva, onde ficam estabelecimentos como o Bar da Zilda e Panelas. Intitulada “pimenta nos olhos dos outros não é refresco”, a nota apontou que o uso de spray de pimenta “não é solução” e que “é necessário buscar alternativas que priorizem uma dispersão mais humanizada”.

No Carnaval de 2024, a folia no Centro de Vitória também terminou com uma ação violenta do Batalhão de Missões Especiais (BME) e da Ronda Ostensiva Municipal (Romu) contra foliões e comerciantes, na Rua Sete. A ação repercutiu nas redes sociais, com imagens nas quais as forças de segurança atiraram com bala de borracha contra a multidão e para o alto, provocando tumulto, correria e risco de as pessoas serem pisoteadas. Também foi utilizado spray de pimenta.

Para a Amacentro, as forças de segurança deveriam estudar e propor “novas estratégias de dispersão adequadas, levando em conta as características de centros urbanos com ruas estreitas”. O texto acrescenta que a observação e pesquisa das novas formas de dispersão têm que ser feitas de maneira coletiva, para “evitar um retorno a práticas medievais de repressão, como o uso excessivo da força, que pode transformar um ambiente festivo em um cenário de medo e terror, como vivenciamos em um passado recente”.

“Em nenhum momento você jogar gás lacrimogêneo em cima de crianças e idosos é proteger a população”, critica Yuri. Ele diz esperar que, neste ano, ocorram mudanças no que diz respeito a uma “inspeção pacífica”, e que o Carnaval seja reconhecido como cultura popular.. Os organizadores de blocos de rua também têm questionado a limitação de apenas dois blocos simultâneos na região. Yuri argumenta que blocos menores, com público estimado entre 500 e 600 pessoas, poderiam ocorrer em paralelo sem comprometer a organização da cidade.

Além das críticas à condução do planejamento, representantes dos blocos apontam obstáculos administrativos recentes, após a prefeitura ter lançado, já próximo do feriado festivo, uma portaria e um edital que tendem a inviabilizar o desfile dos grupos. Em meio aos problemas enfrentados com a gestão municipal, a Associação Cultura Capixaba (Cuca) e a Liga dos Blocos do Centro de Vitória (Blocão) lançaram o Programa de Incentivo e Apoio aos Blocos de Rua do Centro de Vitória, com recursos da Secretaria de Estado do Turismo (Setur), por meio de emenda parlamentar indicada pela deputada estadual Iriny Lopes (PT), no valor de R$ 70 mil, divididos por 14 prêmios divididos entre blocos de grande, médio e pequeno alcance e estreante.

A mobilização garantiu, ao menos, a construção de uma alternativa para viabilizar o Carnaval, diante das incertezas criadas pelas novas regras. Um dos problemas elencados pelo grupo resulta da Portaria nº 001, da Secretaria de Governo, que determina que ações de patrocínio e apoio aos grupos passem pelo crivo da administração municipal, com um prazo de análise que se estende para além do feriado festivo. Já o edital de premiação de blocos estabelece que “os recursos serão repassados aos contemplados em parcela única, no prazo de até 30 dias, após a assinatura do Termo de Compromisso Cultural” – ou seja, mesmo se o grupo for contemplado, será preciso fazer a festa sem dinheiro no bolso, esperando o pagamento para depois.

Os custos de realização do Regional da Nair, um dos maiores blocos do Centro, giram em torno de R$ 80 mil, segundo os organizadores. O valor representa menos de 50% dos R$ 180 mil repassados em janeiro pela gestão municipal à MMZ Produções Artísticas LTDA, empresa que representa o cantor Mumuzinho, que se apresentou na Arena de Verão da Praia de Camburi, conforme dados do Portal da Transparência. Para os blocos, o comparativo evidencia desproporção entre os investimentos feitos em grandes shows, em que o prefeito, Lorenzo Pazolini (Republicanos), pré-candidato ao governo do Estado, aparece como protagonista, e o apoio ao Carnaval de rua.

Enquanto aguardam a formalização das decisões e a apresentação de um plano detalhado, os blocos prometem manter vigilância comunitária durante a festa. “Qualquer violência que aconteça, vai ser postada”, enfatiza Yuri.

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