Moradores lançaram ‘vaquinha’ online para reestruturar tradição de sete décadas

“É um momento de celebrar, viver esse momento de cura coletiva pela música e pela dança. A cultura se mantém viva na gente; se damos as costas, é como jogar uma pá de terra”. Assim exalta a artesã e pesquisadora popular Ludmila Oliveira, uma das responsáveis por uma campanha de arrecadação solidária para garantir a retomada da tradição do Boi Pintadinho de Patrimônio da Penha, distrito de Divino de São Lourenço (ES), na região do Caparaó capixaba. A comunidade busca reestruturar a manifestação cultural, interrompida nos últimos anos por falta de apoio e recursos.
O Boi Pintadinho de Patrimônio da Penha integra uma ampla família de folguedos brasileiros que têm o animal como figura central. Em várias regiões do país, são encontradas tradições semelhantes, como o Boi Bumbá, no Amazonas; o Bumba Meu Boi, no Maranhão; o Boi Pirilampo, no Piauí; o Boi de Mamão, em Santa Catarina; o Reis de Boi, no norte capixaba; e, no sul do Espírito Santo, o Boi Pintadinho. Apesar das diferenças regionais, todas compartilham elementos simbólicos ligados à resistência cultural, à religiosidade popular e à celebração da vida.
A música e a dança do Boi Pintadinho carregam a miscigenação cultural entre influências como “o boi de reis europeu, trazido pelos portugueses e a tradição africana do canto e da dança como forma de contar histórias e celebrar o sagrado”, afirma Ludmila. O enredo gira em torno do boi que morre e ressuscita — símbolo recorrente nos folguedos do boi — representando fé, resistência e a ideia de que nada termina por completo.
Apesar da força simbólica, Ludmila conta que o Boi Pintadinho enfrentou períodos de interrupção, em decorrência de conflitos familiares, mudanças no perfil do distrito — que passou a receber mais turistas — e a falta de incentivo, dentre outras causas. A única ajuda recente veio da Associação de Moradores de Patrimônio da Penha (Ampa), que contribuiu com R$ 500 para uma apresentação no início do ano. “Muitos não entendem o peso, a honra e a importância do boi. A prefeitura não tem esse olhar cultural. O foco é estrada, turismo de cachoeira. Cultura fica em segundo plano”, critica Ludmila, que estuda a possibilidade de inscrever o grupo em editais públicos.
As apresentações abertas ao público ficaram paradas por alguns anos, e a última antes da retomada havia ocorrido em 2022, com uma participação pontual em escola no ano seguinte, informa a artesã. A retomada recente é fruto do esforço de poucas pessoas, pontua. Atualmente, apenas três integrantes — Ludmila, o tio dela e uma representante da Ampa, Andressa Hartuiq — conduzem a reconstrução do boi, dos figurinos e da estrutura. “Ninguém mais chegou para colaborar, tudo foi feito com dinheiro do nosso bolso, costurando, pintando, correndo atrás de material”, relata.
Para viabilizar a continuidade da manifestação cultural, o grupo lançou a campanha de financiamento coletivo com objetivo de renovar figurinos, melhorar a sonorização, adquirir instrumentos e garantir transporte para as apresentações. “Essa ‘vaquinha’ nasce para que o Boi Pintadinho continue cruzando caminhos, iluminando noites e contando histórias para quem veio antes, para quem está aqui e para quem ainda vai chegar”, diz o texto da campanha, que convoca apoiadores a se tornarem “guardiões desse legado”.
Ludmila explica que carrega a herança familiar de Valdemar Machado e Tuti, casal de produtores rurais que viveu em Minas Gerais antes de se estabelecer em Patrimônio da Penha, para onde trouxeram a cultura do Boi Pintadinho, há cerca de setenta anos, na década de 1960. “Veio como uma brincadeira, um momento de reunir as pessoas depois do trabalho pesado da roça”, relata. Ela aponta que o distrito era isolado, sem energia elétrica ou estrada naquele período, “as apresentações aconteciam à luz de lamparinas e tochas”, descreve, como um raro espaço de convivência e manifestação cultural.
A tradição foi passada de geração em geração, inicialmente restrita ao núcleo familiar. No começo, cerca de seis adultos mantinham a folia, sem contar crianças e vizinhos que se juntavam espontaneamente ao cortejo. As mulheres tinham papel central: abriam a dança com saias longas e rodadas, tocavam instrumentos e conduziam o boi, enquanto os homens seguiam atrás, sem personagens fixos, detalha. Para Ludmila, o Boi Pintadinho é um “portal para manter essa história viva”.
“O boi que morre e ressuscita ensina que nada termina”, comenta. Mesmo sem apoio institucional, ela observa que a tradição cultural segue como ponto de encontro de uma comunidade onde convivem agricultores, famílias tradicionais, moradores ligados a práticas espirituais, pessoas vindas de outras regiões e grupos religiosos distintos, destaca. “O boi conecta todo mundo. Na apresentação, você vê essa mistura toda junta, em prol da celebração”, conclui.

