Tradicionais festas em Vitória, Vila Velha e Serra marcam o encerramento do ano
Em cidades do Espírito Santo, as festas de fim de ano coincidem com as de devoção a São Benedito. Na Grande Vitória, não falta opção para quem quer participar dos festejos. Alguns já começaram no início do mês e se estendem até 2026, outros duram somente um dia. Mas todos têm em comum a finalidade de agradecer ao santo pelo ano que se encerra.
São Benedito chamava-se Benedito Manasseri. Nasceu em 1526, na Itália, mais precisamente na Sicília. Era filho de africanos escravizados e ganhou alforria ao nascer. Foi mestre dos noviços da Irmandade de São Francisco de Assis, chegando a ser superior da Irmandade. Sua canonização foi em 1807. Era muito cultuado pelos escravizados. A tradição popular narra que, no século XIX, um navio negreiro naufragou no litoral do Espírito Santo. Os negros escravizados, então, se agarraram ao mastro da embarcação e pediram a intercessão de São Benedito. Eles se salvaram e, em forma de agradecimento, surgiram as tradicionais festas em homenagem ao santo no Estado.
No Centro de Vitória, a tradicional Festa de São Benedito será no próximo sábado (27), e começa às 10h, com missa na Igreja do Rosário, presidida pelo arcebispo Dom Ângelo Ademir Mezzari e concelebrada pelo padre Pedro Luchi, vigário da Catedral Metropolitana de Vitória. A programação retorna no final da tarde, às 17h, com a procissão, acompanhada pela Banda Filarmônica Rosariense, que sai da Igreja do Rosário rumo à Catedral, onde haverá missa às 18h, celebrada pelo pároco, Renato Criste.

A festa é organizada pela Irmandade de São Benedito do Rosário. A Igreja do Rosário se tornou ponto de referência para a festividade no século XIX após o roubo da imagem de São Benedito, que ficava no Convento de São Francisco, na Cidade Alta, onde havia a devoção ao santo, protagonizada pelos escravizados. No entanto, em 1832, o guardião do Convento de São Francisco impediu a saída da procissão, que já tinha mais de 100 anos. Além disso, retirou a imagem do altar.
Na Irmandade do Convento de São Francisco, que se chamava Irmandade de São Benedito, alguns foram favoráveis à atitude do guardião, outros não. A imagem foi roubada em 1833, e levada para a Igreja do Rosário, construída pelos escravizados e onde tinha a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Surgiu, então, a Irmandade de São Benedito do Rosário. A rivalidade fez surgir dois grupos: os Caramurus, ligados ao Convento de São Francisco, e os Peroás, da Igreja do Rosário. O ano acabou sendo dividido em dois. De 1º a 30 de junho, os Caramurus ficariam com o direito de fazer a Festa de São Benedito. De 1º de julho a 30 de dezembro, era a vez dos Peroás.
Contudo, havia registro de violência entre elas, o que fez com que as procissões fossem impedidas de sair no início do século XX. O retorno foi somente na década de 40. Entretanto, não podia existir duas procissões em homenagem ao mesmo santo. Por isso, o Convento de São Francisco criou a de Santo Antônio dos Pobres, que não vingou. Até hoje a imagem permanece na Igreja do Rosário.
Outra festa em louvor a São Benedito que acontece em Vitória é a do bairro Santa Marta, que este ano completou 80 anos. Nesta quinta-feira (25), às 17h, acontecerá a fincada do mastro, com concentração na sede da Banda de Congo Amores da Lua, em São Cristóvão. Segundo Ricardo Salles, mestre da banda e presidente da Associação das Bandas de Congo do Espírito Santo, a procissão vai até a casa de um devoto, que as pessoas saberão somente no dia quem será, e lá busca o mastro, a ser fincado na Capela de São Benedito, no bairro Santa Marta.
Durante o trajeto, a procissão é acompanhada de um barco e ao som do congo. O mastro ficará na capela até o Domingo de Páscoa, quando acontecerá a retirada. “Sou o mestre mais novo das bandas de congo do Espírito Santo. É uma devoção que aprendi com meus pais e avós. É um compromisso com a ancestralidade”, ressalta Ricardo.
Também em Vitória, São Benedito será celebrado em Goiabeiras nesta quinta-feira (25), com concentração na praça da rua Irmínio Coelho de Souza. Posteriormente passará pelos bairros Honório Fraga, Maria Ortiz, Bairro República e retornará para Goiabeiras, onde haverá a fincada do mastro na igreja Cristo Redentor. O registro mais antigo da festa, realizada pela Banda de Congo Panela de Barro, é de 1953.

A coordenadora da banda, Jamilda Bento, informa que, durante o trajeto, o estandarte de São Benedito vai na frente, seguido do barco com o mastro. Durante o percurso, vão sendo puxadas as cantigas. Na década de 1990, rememora, o festejo não aconteceu, sendo retomado em 2001, com a anuência do festeiro da banda, Arnaldo Gomes Ribeiro.
“É parte da nossa cultura, que é muito diversa”, diz Jamilda, destacando que a região também conta com manifestações populares como Folia de Reis e Festa de São Sebastião. “A cultura aqui é muito ativa. Temos o primeiro patrimônio imaterial do Brasil tombado pelo Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], que é o ofício das paneleiras. Somos um povo cantador”, exalta. De acordo com ela, a maioria dos integrantes da Banda de Congo Panela de Barro são filhos, netos e bisnetos de paneleiras.
Em Serra Sede, a Festa de São Benedito, que tem cerca de 180 anos, começou em 14 de dezembro, com uma programação que conta com procissões, missas, bandas de congo e shows de artistas locais e de alcance nacional. Os festejos fazem parte do Ciclo Folclórico e Religioso e se tornaram Patrimônio Cultural e Imaterial do município da Serra desde junho de 2021.

Quem realiza é a Associação de Bandas de Congo da Serra (ABC-Serra). Nesta quarta-feira (24), às 20h, haverá uma missa na Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Serra Sede. Nesta quinta-feira (25), às 17h, na mesma igreja, missa e Procissão de Natal e de São Benedito. Às 20h, puxada do Navio Palermo com Bandas de Congo e a Banda Estrela dos Artistas. A programação do dia do Natal encerra com show de João Felipe e Rafael.
Nesta sexta-feira (26), a programação começa com a Missa do Serrano, na Igreja Nossa Senhora da Conceição, às 9h. Às 11h tem solenidade na Câmara da Serra, com transferência da capital do Estado para a Serra e entrega do Título de Cidadão Serrano. Meio-dia começa a exposição da imagem de São Benedito na Igreja Nossa Senhora da Conceição, com o Congo Folclórico São Benedito. Às 18h30, puxada do Mastro com Bandas de Congo e a Banda Estrela dos Artistas.
Também na sexta-feira, às 21h, tem fincada do Mastro e show pirotécnico. Trinta minutos depois haverá show com Priscila Ribeiro. Às 22h30, apresentação musical de João Bosco e Vinícius. No sábado (27), a programação começa à noite, às 19h30, com desfile das bandas de congo. Às 21h30, show com Taiana França. A edição de 2025 da festa termina com apresentação musical de Serestão Zé, às 22h30.
Em Vila Velha, a festividade é na Barra do Jucu. São quatro fincadas de mastro. Duas foram nos dias 14 e 21 de dezembro. As demais serão neste sábado (27) e domingo (28). A Banda de Congo Mestre Honório, a mais antiga da Barra do Jucu, faz a fincada no dia 27, saindo de sua sede até a Igreja Nossa Senhora da Glória, na praça central. “São 50 anos de resistência cultural, de muita luta e desafios. Nossa banda é do ano de 1952 e meu pai, Mestre Daniel, participa desde os 12 anos. Hoje ele é o mestre da banda e o congueiro mais antigo, com 85 anos”, diz a regente da banda, Beatriz dos Santos Rego. No dia 28, a banda de congo Tambor de Jacarenema se concentra às 15h na Casa de Dona Dorinha, na rua do campo de futebol Barrense.

