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Filme revive jornada de líder espiritual Guarani

Tatatxi Ywarete guiou seu povo numa caminhada que durou 35 anos até o Espírito Santo

Primeiro filme de longa-metragem dirigido por um cineasta indígena Guarani no Espírito Santo, Tatatxi Ogwata Porã Djawe – a caminhada sagrada de Tatatxi Ywarete terá uma sessão especial gratuita no próximo dia 10, às 19h, no Cine Metrópolis, em Vitória. A obra revive a jornada de uma importante líder do povo Guarani Mbya em busca da Terra Sem Males, um espaço espiritual e sagrado na cultura de seu povo.

Rogério Medeiros

Tatatxi Ywarete guiou um grupo Guarani partindo do Rio Grande do Sul, numa caminhada que durou 35 anos e teve início na década de 1940. Ela teve a visão da aldeia revelada, percorrendo diversos estados brasileiros até chegar ao Espírito Santo. No caminho, fundou aldeias Guarani que existem até hoje em estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro, até se estabelecer em Aracruz, no litoral norte capixaba. “Nós começamos a gravar desde o início de onde ela começou a caminhada, e viemos parando nas aldeias onde ela fez o fogo sagrado e ficava por um tempo e depois continuava a caminhada”, conta o diretor Wera Djekupe (Marcelo Guarani).

Tatatxi Ywarete, bisavó do diretor, foi curandeira, parteira e guia espiritual, reconhecida por sua profunda conexão espiritual e por sua atuação comunitária. Para o povo Guarani, ela permanece viva na memória coletiva como uma grande liderança espiritual que dedicou sua vida a praticar o bem e fortalecer a união entre seu povo.

“O filme foi feito com muito orgulho, para que nossos jovens Guarani, para que nossas crianças que estão aí crescendo, nunca se esqueçam porque estamos aqui. Para que a memória não se perca, que saibam quem somos nós e de onde viemos, quem somos e para onde vamos. Para que todos conheçam a história do nosso povo e consigam entender quem é esse povo”, comenta o diretor.

Ele acredita que a obra também pode contribuir para diminuir o preconceito dos não indígenas, fazendo com que entendam melhor sobre os povos que habitam há milhares de anos o território brasileiro com sua cultura, suas crenças e sua visão de mundo, com especial cuidado às pessoas e à natureza.

Ao longo desse processo, o filme aborda também a passagem da líder e seu povo pela Fazenda Guarani, em Carmésia (MG), que serviu como uma espécie de prisão indígena durante o sombrio período da ditadura militar.

O filme

Filmado entre julho de 2024 e fevereiro de 2025, a obra foi finalizada no final do ano passado e incluiu a realização de oficinas de fotografia e som, na qual participaram 20 indígenas, em sua maioria jovens, que passaram a fazer parte da equipe de produção do filme.

Para contar essa história na linguagem do cinema, o diretor e a co-roteirista Fernanda Keretxu recorreram às memórias daqueles que acompanharam Tatatxi Ywarete nesta caminhada sagrada, entrevistando pessoas que caminharam com a líder espiritual durante muitos anos. Foram diversos os encontros com os guardiões desta memória como Wera Kwaray (Toninho Guarani), Tupã Kwaray (Jonas Ernesto da Silva), Keretxu Endy (Marilza da Silva), Yry (Ivanilda Carvalho dos Santos), Tatatxī Ywarete (Joana Carvalho da Silva), Djatxuka (Tereza da Silva de Oliveira) e Wera Kambu (Mario Cézar Carvalho).

O filme, produzido por Ricardo Sá e Interferências Filmes, é totalmente falado em língua guarani e conta com legendas em português, inglês e espanhol. A obra também possui versões acessíveis em libras, audiodescrição e legenda descritiva.

Os responsáveis pela obra apontam como essenciais na reconstrução da história, as fotografias de Rogério Medeiros, fundador deste Século Diário, que acompanhou o grupo Guarani desde antes de sua chegada ao Espírito Santo até os anos 2010, reunindo um dos mais completos acervos fotográficos da história do povo capixaba, que são registros de interesse público e de caráter histórico.

Reprodução

Destacam também as memórias e imagens da antropóloga Celeste Ciccarone, que escreveu uma tese de doutorado sobre a líder Guarani, e Maria Inês Ladeira, antropóloga que escreveu o livro O Caminhar sob a Luz, que tem um capítulo sobre a importância de Tatatxi Ywarete para a comunidade Guarani do Brasil.

Wera Djekupe considera que, futuramente, o filme poderá ser exibido em cinemas, televisão, escolas, universidades e outros espaços. “É importante a gente conhecer o desconhecido. Porque se a gente não conhecer o desconhecido, vive com preconceito e ignorância, porque não conhece. Por isso, convido a todos para assistir a esse filme e entender a dimensão de como o povo Guarani vê o mundo, como o Guarani vê essa vida que a gente tá vivendo”, convida.

Depois da sessão especial do longa-metragem, o público poderá participar de um debate com a equipe do filme. O plano de distribuição da obra prevê circulação por festivais de cinema a nível nacional e internacional, exibição em cinemas, TVs, plataformas de streaming e projetos educativos.

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