Entraves na obtenção de patrocínio e segurança serão discutidos em reunião no Centro
Os blocos de rua do Centro de Vitória estão preocupados diante da possibilidade de não poderem desfilar este ano por falta de recursos financeiros. Eles apontam que o edital da Companhia de Desenvolvimento e Turismo de Vitória (CDTV) e a Portaria nº 001, da Secretaria de Governo da gestão de Lorenzo Pazolini (Republicanos), dificultam angariar patrocínios e outras formas de investimento nos blocos. “Há um processo de desidratação do Carnaval de rua de Vitória”, enfatiza o integrante do bloco Regional da Nair, André Félix.

O assunto será discutido em uma reunião nesta quinta-feira (29), às 19h30, no Bar da Zilda, no Centro, para a qual está convidada toda a comunidade. O edital de chamamento público nº 01/2026 trata da “comercialização de cotas de patrocínio, mediante disponibilização de espaços para aplicação das marcas das empresas patrocinadoras do ‘Desfile das Escolas de Samba 2026 e do Carnaval de Rua de Vitória – Circuito da Folia 2026”.
Conforme afirma André, em reunião com representantes da Secretaria Municipal de Cultura, foi informado que os patrocínios firmados por meio do edital serão para garantir a estrutura do Carnaval, não sendo repassados valores aos blocos. Contudo, destaca André, os blocos têm custos como os de contratação de músicos, seguranças, figurino, produção e som. De acordo com André, os custos do Regional são de cerca de R$ 80 mil.
O edital apresenta algumas modalidades de cotas de apoio e patrocínio. A “Cota Apresenta Master: 1”, disponível com valor mínimo de R$ 400 mil, permite a ativação de uma única marca, que receberá a chancela “Apresenta”, portanto, aponta André, requer exclusividade.
Diante disso, ele ressalta que se os blocos forem, por iniciativa própria, buscar patrocínio, correm o risco de não conseguir efetivar a parceria, uma vez que a Portaria nº 001, publicada no dia 7 de janeiro, em seu artigo 3º, determina que toda e qualquer ação que envolva “apoio, patrocínio, bonificação, permuta, contrapartida, captação de recursos, vantagem econômica ou benefício de qualquer natureza”, relacionados ao desfile, bem como toda forma de divulgação e publicidade de marcas, produtos, mensagens ou conteúdos, independentemente do meio utilizado, deverá ser previamente submetida à análise e aprovação das secretarias de Governo, de Cultura e de Desenvolvimento da Cidade e Habitação.
Assim, completa André, pode acontecer de os blocos conseguirem patrocínio de uma marca cujo concorrente foi contemplado pelo edital com exclusividade, e, como é preciso submeter à aprovação da gestão, não ser aprovada. Uma alternativa seria contatar as empresas contempladas por meio do edital, mas as informações ainda não foram divulgadas. Os blocos se queixam, ainda, do fato de a prefeitura ter contratado o cantor Tomate para um show com trio elétrico em Camburi, para o pré-carnaval, neste domingo (1).
“Que dinheiro foi esse, foi do patrocínio? Os blocos sem recursos e pagando artista de fora? Os blocos não ganham nada e os artistas de fora comem o cachê?”, questiona André. Ele informa que, diante da dificuldade de angariar recursos financeiros, o Regional da Nair, um dos maiores blocos do Centro e que desfila na Avenida Beira-Mar, e outros blocos, ainda não se inscreveram para desfilar. O prazo se aproxima do fim, uma vez que é até 15 dias antes do desfile.
O edital, aponta Carlos Felipe, do Puta Bloco, não trata dos blocos que desfilam no Centro Histórico, somente dos da Beira-Mar, uma vez que contempla o “Desfile das Escolas de Samba 2026 e do Carnaval de Rua de Vitória – Circuito da Folia 2026”. Segundo ele, o Circuito da Folia abarca o Carnaval da Beira -Mar, já que começa quando os blocos dessa avenida terminam de desfilar, dispersando o público para o Sambão do Povo, em Mário Cypreste.
Assim como André, Carlos Felipe aponta como um fator dificultador para os blocos o artigo 3º da Portaria nº 001. Ele recorda que a gestão municipal se comprometeu a lançar um edital da Lei Aldir Blanc para premiar os blocos de rua, com previsão de publicação até a segunda semana de janeiro, o que não aconteceu.
Violência policial
A reunião desta quinta-feira, no Bar da Zilda, também será para tratar da questão da segurança. Zilda de Aquino, proprietária do estabelecimento, explica que a gestão de Lorenzo Pazolini ainda não deixou claro o que prepara para o Carnaval. Ela manifesta preocupação de que se repita o que aconteceu em anos anteriores, quando houve casos de dispersão dos foliões com spray de pimenta. “Não tem tido diálogo, queremos conversar sobre o que a prefeitura tem a nos oferecer”, cobra.
No último Carnaval, a Associação dos Moradores do Centro (Amacentro) chegou a divulgar uma nota com críticas à forma como as forças de segurança fizeram a dispersão de foliões na última noite de folia, utilizando spray de pimenta na proximidades da rua Maria Saraiva, onde fica estabelecimentos como o Bar da Zilda e Panelas. Intitulada “pimenta nos olhos dos outros não é refresco”, a nota apontou que o uso de spray de pimenta “não é solução” e que “é necessário buscar alternativas que priorizem uma dispersão mais humanizada”.
Para a Amacentro, as forças de segurança deveriam estudar e propor “novas estratégias de dispersão adequadas, levando em conta as características de centros urbanos com ruas estreitas”. O texto acrescentou que a observação e pesquisa das novas formas de dispersão têm que ser feitas de maneira coletiva, para “evitar um retorno a práticas medievais de repressão, como o uso excessivo da força, que pode transformar um ambiente festivo em um cenário de medo e terror, como vivenciamos em um passado recente”.
No Carnaval de 2024, a folia no Centro de Vitória terminou com uma ação violenta do Batalhão de Missões Especiais (BME) e da Ronda Ostensiva Municipal (Romu) contra foliões e comerciantes, na Rua Sete. A ação repercutiu nas redes sociais, com imagens nas quais as forças de segurança atiram com bala de borracha contra a multidão e para o alto, provocando tumulto, correria e risco de as pessoas serem pisoteadas. Também foi utilizado spray de pimenta.

