Mais: oficinas de costura e cerâmica; visibilidade; livro A Saga Cigana
O Instituto Casa Lilás deu início, nesta sexta-feira (16), ao projeto Autonomia Calin com mulheres ciganas tradicionais, por meio do qual serão realizadas oficinas de costura e cerâmica para as Calin, ou seja, mulheres ciganas da etnia Calon, a que predomina no Espírito Santo. As participantes são do acampamento cigano de Campo Verde, em Cariacica. A iniciativa começou com a entrega das máquinas de costura Singer e materiais como tecido.

As oficinas acontecerão de janeiro a março, aos sábados, pela manhã, no Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Luiz Santiago Filho, que fica ao lado do acampamento. O projeto está alinhado com a pesquisa que vem sendo desenvolvida pela vice-presidente do Instituto Lilás, Déborah Sathler, que estuda as artes calons no Doutorado, no Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Oficinas

As oficinas serão ministradas pela artesã Jupiara. Durante as aulas, serão produzidas roupas e bonecas ciganas. Segundo Déborah, essa demanda foi apontada pelas próprias ciganas em meio a um processo de escuta feito para a execução do projeto. A vice-presidente do Instituto Lilás afirma que, das artes ciganas, a costura é uma das mais preservadas, ao contrário da cartomancia, por exemplo, que é praticamente extinta por causa das perseguições que sofreu.
Oficinas de cerâmica e exposição
Além das oficinas de costura, de março a maio deste ano as ciganas do acampamento de Campo Verde também participarão de oficinas de cerâmica, outra arte presente na cultura calon. Os utensílios serão feitos com argila do Espírito Santo e haverá momentos sobre relatos orais a respeito das experiências e memórias das ciganas em relação a essa arte, já que é uma cultura transmitida de geração em geração. No dia 23 de maio haverá uma exposição das peças produzidas nas duas oficinas.
Violências, mas também resiliência
De acordo com Déborah, a história das mulheres ciganas de diversas etnias no Brasil é marcada desde a saída da Índia, passando pela Península Ibérica e chegando ao Brasil por experiências de discriminação e múltiplas formas de violência, mas também por resiliência, protagonismo e contribuição significativa à vida social e cultural brasileira. “As mulheres da etnia cigana calon são responsáveis pelas invenções e manutenção da arte cigana nos acampamentos. Produzem o que chamamos de tecnologia social da memória coletiva e ancestral, frente à tentativa de apagamento cultural, e merecem visibilidade e cuidados”, afirma.
Relevância do projeto

O projeto também tem a participação de Nilcelia de Jesus, coordenadora Associação Municipal de Etnias Ciganas de São Mateus (Amec), única associação que representa as etnias ciganas capixabas. Foi ela quem dialogou com o Instituto sobre a necessidade de projetos como este, e ela pretende obter recursos para concretizar a iniciativa em outros acampamentos no Estado. “É muito relevante termos um projeto focado nas mulheres ciganas capixabas, que resultará em visibilidade para a causa cigana, dados para uma pesquisa local, e principalmente com uma equipe especializada que adaptou o projeto à realidade do território do acampamento e à vivência das mulheres calins”, comemora.
‘Se mostrando para o mundo’
Déborah aponta que a instituição do Plano Nacional de Políticas para os Povos Ciganos, em agosto de 2024, tem impulsionado a comunidade cigana a se mobilizar pelos seus direitos. “As etnias ciganas querem se mostrar para o mundo. As associações estão se espalhando pelo Brasil. Os ciganos estão vendo que as outras minorias estão conquistando espaço e querem também”, diz.
Vem mais por aí
Novos projetos com o povo cigano capixaba vêm por aí. Déborah informa que comunidades ciganas de São Mateus e Jaguaré, no norte do Espírito Santo, serão contempladas com oficinas como as de costura, cerâmica, perfumaria e dança cênica. A iniciativa será realizada por meio de parceria com o Ministério da Igualdade Racial. Entre as oficineiras conformadas estão a bióloga Larissa Firme, que vai ministrar a oficina de Perfumaria, e a dançarina e coreógrafa Lalau Martins, responsável pela de Dança Cênica.
A Saga Cigana

Déborah Sathler também se dedicou aos estudos da cultura cigana no mestrado, feito na Universidade do Grande Rio (Unigranrio), e cuja pesquisa resultou no livro A Saga Cigana – História Oral de Vida: Identidade e Gênero, à venda no site da editora Cousa. Nele, a autora discute temas como a chegada dos ciganos no território brasileiro com o degredo colonial, o “ser” cigano, suas negociações culturais, identidades híbridas, cultura do patriarcado, conflitos étnicos, isolamento no Rio de Janeiro e negociação com a Umbanda.
A Saga Cigana II
O Rio de Janeiro foi o local do estudo, segundo Déborah, por ter sido lá a chegada dos ciganos no Brasil, no período colonial. Por isso, há um histórico maior de mobilizações, inclusive, com criação de associações, como a União Cigana do Brasil. Uma das motivações da pesquisadora para o estudo foi sua ancestralidade, já que sua avó materna era “mestiça”, portanto, que “não é cigana pura”. Além disso, aponta, a comunidade cigana é pouco estudada, além de compor “a minoria das minorais”, tendo que traçar estratégias para manter viva a sua cultura.
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