Atividades são promovidas pelo Zacimba Educa, coletivo da Grande São Pedro
Ao longo do mês de janeiro, em meio à férias escolares, duas oficinas gratuitas apresentarão para o público infantil o saber tradicional do congo capixaba em diferentes territórios de Vitória. As atividades integram o projeto “Mulembá: raízes da cultura afro-brasileira”, promovido pelo coletivo Zacimba Educa, unindo ancestralidade, formação sociocultural e valorização da cultura afroindígena-brasileira para crianças entre seis e doze anos de idade.
A primeira acontecerá nas próximas quarta-feira (14) e segunda-feira (19), sempre às 14h, no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculo (SFCV) de Nova Palestina, na região da Grande São Pedro. A segunda ação chegará ao Centro de Vitória por meio do Circuito Avessinho, no dia 25 de janeiro, das 15h às 17h, no Espaço Thelema. Os responsáveis pelas oficinas serão, respectivamente, Ailton Paiva e João Ifakorêde, ambos congueiros da banda do Zacimba Educa, e contará ainda com a participação de mestre Ricardo, mestre de congo da Banda Amores da Lua. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo link disponível na página do projeto nas redes sociais.
O Zacimba Educa é uma organização comunitária formada por moradores do bairro da Conquista, na Grande São Pedro, e por pessoas voluntárias de diferentes regiões do Espírito Santo. Desde 2021, o coletivo desenvolve ações voltadas à arte, cultura e esporte como ferramentas de fortalecimento comunitário, com foco especial no empoderamento de crianças, adolescentes, jovens e suas famílias.
A proposta central é resgatar a cultura afro-brasileira e promover afirmações positivas que contribuam para o sentimento de pertencimento e autoestima nos territórios periféricos de Vitória, e assim “trazer cultura e ferramentas como arte, cultura e esporte para esse público, além de aproximar as famílias dessas atividades”, explica João Ifakorêde, que é educador social e coordenador do coletivo.

Ele relata que o projeto “Mulembá” carrega o simbolismo da árvore africana de mesmo nome, presente em regiões africanas como Angola e Cabinda, sendo tradicionalmente associada aos espaços de decisão dos reinos e à transmissão de saberes entre os mais velhos e os mais novos. “Não era só um local de decisão, mas também um lugar onde os mais velhos transmitiam conhecimentos e tradições. Como é uma árvore grande, toda a comunidade se reúne à sua sombra”, afirma.
A escolha do nome reflete a essência da oficina, que busca criar um espaço coletivo de aprendizado, escuta e troca. “Vou levar os instrumentos, contar a história da casaca, explicar práticas como a trincada, a retirada do mastro e o roubo de São Benedito. Também vou trabalhar a figura do João Bananeira, levando a máscara, a roupa e todos esses elementos musicais e culturais para transmitir esse conhecimento às crianças”, detalha.
Entre outros objetivos, João destaca o propósito de aproximar o público da cultura do congo, muitas vezes pouco conhecida até mesmo por capixabas. “Muita gente conhece pouco a história do congo. Tem pessoas que têm casaca ou tambor em casa e não sabem tocar. Hoje é difícil ter oferta de oficinas de congo no estado. As bandas, muitas vezes, são fechadas, o que acaba afastando as pessoas da cultura”, avalia.
A iniciativa também responde a uma preocupação com a continuidade da tradição. Ele destaca que muitos mestres e congueiros mais velhos estão falecendo, sem que haja uma renovação suficiente nos grupos. “A minha intenção é aproximar principalmente crianças, jovens e adolescentes para formar futuros congueiros e fortalecer os grupos de congo já existentes. A gente está perdendo muitos congueiros e não vê novos integrantes chegando”, afirma.
A curadora do Circuito Avessinho, Josilene Nery reforça que a oficina de congo para crianças cumpre um papel fundamental na formação identitária. “A ideia é que desde cedo a criança tenha noção de onde vem o congo, de como isso constrói a identidade de um povo. A gente precisa saber de onde vem para saber quem é”, ressalta.
Ela acrescenta que a atividade apresenta de forma lúdica e dinâmica os elementos da tradição, como vestimentas, instrumentos, toadas e personagens do congo, possibilitando que as crianças reconheçam essa manifestação cultural quando a encontrarem em outros espaços. “É uma ação cultural que apresenta a diversidade do congo de forma orgânica, através da musicalidade, das histórias e das práticas que vêm do povo”, destaca.

Josilene também chama atenção para a importância dessas iniciativas fora do ambiente escolar. “Mesmo com leis que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afroindígena-brasileira, muitas vezes isso não acontece de forma adequada na escola. Por isso, aprender na rua, no bairro, nesses espaços comunitários, é tão importante e muitas vezes mais orgânico para crianças e adolescentes”, afirma.
As oficinas trazem a cultura popular como ferramenta de educação, resistência e valorização da memória coletiva, resume João Ifakorêde. “O Mulembá é sobre honrar quem veio antes, fortalecer quem está agora e garantir que a cultura siga pulsando nos nossos territórios”, destaca.
As atividades integram uma programação mais ampla do Circuito Avessinho, que prevê novas ações culturais ao longo do semestre, como contação de histórias, teatro e outras formações voltadas à cultura tradicional. Para crianças e famílias que permanecem na cidade durante as férias, as oficinas de congo se apresentam como uma oportunidade de aprendizado, diversão e reconexão com as raízes afro-brasileiras que ajudam a construir a identidade capixaba.
A ação é realizada pelo Zacimba Educa com recursos do Funcultura, por meio de edital da Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult-ES), no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).

