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Podcast vai ouvir crianças capixabas sobre cultura e história do Estado

Iniciativa seleciona participantes de diferentes comunidades, como indígenas e quilombolas

Danilo Ferraz

Com a proposta de colocar crianças e adolescentes como protagonistas da conversa sobre história, cultura e território do Espírito Santo, o podcast Capixabinha FM está com inscrições abertas até o dia 28 de fevereiro para selecionar participantes de 8 a 16 anos de diferentes regiões do Estado. A iniciativa prevê a produção de seis episódios, com gravações no próximo mês de março, e aposta na escuta infantojuvenil como ferramenta de educação, memória e aproximação entre gerações, em um contexto marcado pela polarização social e pelo apagamento de determinadas vivências na narrativa histórica oficial.

Cada programa terá cerca de 30 minutos e abordará temas da história capixaba a partir de territórios específicos, como aldeias indígenas, comunidades quilombolas, cidades de imigração europeia, áreas rurais e regiões urbanas da Grande Vitória. A coordenação do projeto é da historiadora Thaís Helena Leite, que também será uma das apresentadoras do podcast, em parceria com o radialista e locutor Martoni Bonfim, que vai interpretar um livro didático que “ganha voz” durante as conversas.

A ideia do projeto nasce da experiência acumulada em sala de aula e do convívio com diferentes gerações, conta a historiadora. “Eu sempre trabalhei muito com esse diálogo de gerações. Hoje sou avó, minhas netas têm a idade das crianças que vão participar do podcast, e acho fundamental fazer essa ponte entre pessoas mais velhas e os mais jovens”, destaca.

Erivaldo Moreira

Para Thaís, o podcast busca preencher uma lacuna na forma como a história do Espírito Santo costuma ser contada, geralmente restrita ao ambiente escolar ou a narrativas “adultocêntricas”. “É importante ter outras fontes além da escola e, ao mesmo tempo, permitir que as crianças tragam seus próprios territórios para dentro da conversa”, explica. Ela acrescenta que produção vai reunir crianças de perfis diversos, tanto do ponto de vista regional quanto cultural, étnico e social.

Os seis episódios da primeira temporada terão como recorte uma aldeia indígena de Aracruz, no norte capixaba; a cidade de Anchieta, no sul, marcada pelo turismo religioso; Santa Maria de Jetibá (região serrana), um dos principais núcleos da imigração pomerana no Estado; Muqui, no sul, com suas tradições ligadas à cultura negra; outra localidade do norte do Espírito Santo com foco em comunidades quilombolas ou assentamentos e a resistência à devastação da Mata Atlântica; e a Grande Vitória, a partir de processos de urbanização como o aterro da Praia do Suá.

No caso dos povos indígenas, o episódio contará com a participação de duas crianças, uma do território Tupinikim e outra do Guarani, para evidenciar as diferenças e relações entre as aldeias e comunidades.” “A ideia é justamente romper com estereótipos. Muitas pessoas ainda imaginam uma aldeia indígena como algo homogêneo, congelado no tempo. Quando uma criança fala do seu dia a dia, da escola, da língua que se fala ou não se fala ali, isso humaniza e aproxima”, afirma a coordenadora.

Além da diversidade territorial, o Capixabinha FM aposta na escuta como método central, destaca Thaís Helena. Ela observa que ouvir crianças e adolescentes é uma prática ainda pouco valorizada, inclusive no campo da educação. “Tem muito adulto que não sabe ouvir, só sabe falar. Quando você escuta de verdade, consegue entender melhor os lugares, as famílias, os sentimentos. As crianças trazem preocupações que parecem pequenas, mas são fundamentais”, aponta.

Ela cita o poeta Manoel de Barros para explicar o tipo de conteúdo que espera emergir das conversas: “as insignificâncias que são importantes”. A educadora ressalta que jovens costumam surpreender com leituras audaciosas da realidade, conectando tradições antigas a expressões culturais contemporâneas, como quando práticas populares do interior dialogam com linguagens urbanas, a exemplo do slam.

O projeto foi viabilizado por meio de recursos públicos do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura) e da Política Nacional Aldir Blanc, voltados à produção de conteúdo digital. Para a coordenadora, esse tipo de financiamento é essencial para garantir o acesso de crianças e adolescentes à produção cultural, especialmente fora dos grandes centros. Os participantes selecionados receberão cachê, ajuda de custo para transporte e alimentação para a criança e o responsável acompanhante. Como medida de acessibilidade, todos os episódios do podcast terão transcrição em texto, disponibilizada no site do projeto, garantindo acesso também a pessoas com deficiência auditiva.

Para Thaís Helena, o Capixabinha FM é um exercício de pertencimento e reconhecimento. “Eu quero descobrir como as crianças estão vivendo a cultura do seu Estado. O que elas percebem, o que valorizam, o que questionam. Acho que a história do Espírito Santo pode ganhar muito quando essas vozes são levadas a sério”, completa.

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