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Sexta, 04 Dezembro 2020

Poesia em grão, para germinar e renascer no chão

lilian_meneguci_grao_Gi_Pedrolo Gi Pedrolo

Grão. Substantivo masculino. Entre outras definições do léxico, "qualquer corpo diminuto; partícula". Um conceito tão restrito como amplo. Não por acaso, Grão é o nome do novo livro da educadora e escritora Lilian Meneguci, lançado nesse sábado (25), por meio de uma live em sua página no Instagram: @lilianmenengucioficial.

"São 73 poemas que digo que são pequenos pelo tamanho mas como todo grão, recheado de uma multiplicidade de coisas dentro", conta a escritora. Temas como sonho, tempo, memória, alegrias, insatisfações, frustrações, certezas, chegadas e partidas, vida e morte. "Mas nunca numa perspectiva dual, e sempre entendendo como são coisas complementares", comenta a autora, que lança pela editora Maré seu sexto livro, sendo o segundo de poesias.

Metáfora

Sem sonho,

a vida vive

e morre acordada.

Lilian Meneguci

Todo grão é por natureza pedaço e inteiro. "Grão foi escrito do silêncio que fazia barulho em mim. O silêncio, muito mais que sinônimo da ausência de sons, é uma forma de olhar para dentro sem ficar ensimesmado. Ele dá trabalho para o pensamento e convida à produção de sentidos. Atenta à sua escuta, a escrita se deu", comenta. O Grão é simples, mas Lilian alerta parafraseando Clarice Lispector: "Só se consegue a simplicidade através de muito trabalho". Um trabalho artesanal e minucioso de letras, sentidos e sentimento.

E o livro veio mesmo de grão em grão, chegando devagar, verso a verso, "sem pressa, afobamento, ansiedade", pontua. Do ponto de vista cronológico, levou quase uma década desde sua concepção, mas foi germinar justamente no estranho ano de 2020.

"[...] por quantas vezes, argilosa, de consistência fina e impermeável, ela forjou o que sou. Noutras, granulosa como areia, fez-me acreditar que já não era. Em solo seco, tornei a abraçar o sol. Lançada em humosa superfície, decompus-me toda. Em cada tempo, aprendi sobre ser "Grão": inteira, em pedaços", escreve Lilian Meneguci.

Gi Pedrolo

Estava quase tudo pronto para o lançamento em 21 de março, Dia Mundial da Poesia. Mas então - com perdão pela rima - veio a pandemia. Os poucos meses de isolamento se tornaram muitos e o início do fim dele parece não trazer nenhuma "normalidade". Aparentemente afeita a datas comemorativas, a escritora por fim decidiu remarcar para este dia 25, Dia Nacional do(a) Escritor(a), dessa vez em edição virtual.

Participa da "live" de lançamento o designer gráfico Max de Souza, responsável pela capa da obra, que vai comentar sobre a obra junto a Lilian, que dialogará com o público sobre escrita criativa, o processo de produção do livro e outra questões, além de recitar alguns textos. A transmissão também terá alguns mimos, como o sorteio de um kit composto por Grão, um marcador de páginas e uma caneca alusivos à capa da obra e cada um dos livros publicados pela autora. Todos os presentes ganharão um bônus de desconto para aquisição do novo livro.

Além de Max, a produção de Grão conta com participação do editor Gustavo Binda, com Fernanda Bellumat na supervisão de arte, Maria Gabriela Verediano na revisão, fotografia de Tati Hauer, orelha assinada pelo jornalista Leonardo Vais, e prefácio da jornalista e escritora Ana Laura Nahas.

Foi a conjunção dessas pessoas que fez com que o livro por fim fosse publicado. Mas ninguém contava que a pandemia pudesse sacudir as estruturas da humanidade e fazer com que tivéssemos que refletir para dentro e para fora de cada um. O livro é o mesmo, mas hoje pode adquirir outros significados do que se fosse lido em março. A obra não mudou, mas espero que os leitores, sim. Exemplo é o verso abaixo: no mundo pandêmico, como não ressignificar o sentido de abraço?

Papel de presente

O abraço é um laço

que me embrulha e me decora.

Presente

de quem chega

e de quem vai embora.

Lilian Meneguci

"Umas das coisas que o isolamento físico e social tem ajudado é perceber que sem a arte ficaria impossível. Como disse Ferreira Gullar, 'a arte existe porque a vida não basta'", diz lembrando das músicas, filmes, livros que trazem a leveza necessária para seguir adiante em meio à maior crise sanitária do século. "A arte sempre foi colocada num lugar de não se reconhecer sua potência, de não se dar o valor que merece. Espero que passar por essa experiência faça com que se perceba que arte e cultura são direitos e questões essenciais".

Quem diz é uma escritora que desde criança encontrou a literatura como uma válvula para dar vazão aos sentimentos. A literatura precede a escrita. "Escrevia as histórias dentro da minha cabeça e do coração", relata Lilian, que cresceu tendo a família e a escola como mediadores de leitura.

Gi Pedrolo

E foi com dos amigos que reuniu as forças e incentivos para tirar os escritos da gaveta e publicá-los. Sua primeira obra de poesia foi Palavras de Borboletras. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Estado (Ufes), também lançou um livro acadêmico sobre o educação e arte. Porém, o que mais publicou foram livros infantis, três no total: Os Medos de Lili, Casa de Papel e A Criança Mágica. Lembra que uma das primeiras pessoas que leu, aprovou e incentivou sua produção para o público infantil foi seu conterrâneo de Cariacica Sérgio Blank, falecido nessa quinta-feira (23), autor do clássico Safira. "A aprovação dele foi fundamental".

Assim como Blank, sua sobrinha Lili também aprovou. "Quando a história estava pronta, apresentei para uma criança como primeira leitora e crítica da obra. Quando ela pediu para contar de novo, vi que ela gostou do que ouviu. A crítica da criança pequena é a mais assertiva que existe. Quando ele diz que gosta é porque gostou, se não gosta, vai dizer que não gostou".

E assim Lilian Meneguci segue na feitura trabalhosa e delicada de produzir o simples para adultos e crianças. Lembra que mesmo os livros infantis, para chegar às crianças passam primeiro pelas mão de adultos, sejam pais, parentes, professores ou pedagogo, sempre há um adulto fazendo a ponte.

Adultos e crianças em plena pandemia, se reinventam. Para a escritora, falar de seu livro e do momento atual lhe parece inevitável lembrar da canção Drão, de Gilberto Gil. "O amor da gente é como um grão / Uma semente de ilusão / Tem que morrer pra germinar / Plantar nalgum lugar / Ressuscitar no chão".

O livro Grão será vendido diretamente pela autora por meio de suas redes e também no site da Editora Maré.

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