Quarta, 29 Junho 2022

Atraso em editais da Secult prejudica festa tradicional quilombola

raiar_da_liberdade3_FotoLuanVolpato Luan Volpato

Bate Flecha, Folia de Reis, Charola de São Sebastião, Quadrilha, Capoeira, Caxambu e Jongo. Quem participa do Raiar da Liberdade na comunidade quilombola de Monte Alegre, em Cachoeiro do Itapemirim, sul do Estado, fica encantado com a diversidade de manifestações culturais. Entretanto, este ano será diferente. Sem recursos dos Editais 2021 da Secretaria Estadual de Cultura (Secult), a festa contará somente com o Caxambu Santa Cruz, da própria comunidade.

Luan Volpato

A festividade, realizada desde 1888 no dia 13 de maio, data da abolição da escravatura, tradicionalmente conta com a distribuição gratuita de feijoada para cerca de 1 mil pessoas, quantidade que, segundo o membro da Associação de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Cachoeirense, Genildo Coelho, este ano será reduzida para cerca de 80.

Os editais de 2021 da Secult foram abertos somente no final do ano, com inscrições até meados de janeiro de 2022, havendo, depois, prorrogação até dois de fevereiro. De acordo com os novos prazos, o resultado deveria ter sido divulgado em 22 de abril deste ano, o que não aconteceu. O atraso na publicação do edital bem como de seu cronograma impossibilitaram a obtenção do recurso para a festa do próximo 13 de maio.

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Genildo relata que, desde que os editais foram lançados, a festa é contemplada com recursos, mas defende que o evento não pode depender disso. "Não acho certo uma festa de mais de 130 anos ter que esperar edital. Deveria ter um recurso disponível anualmente, o Estado tem que reconhecer a festa como patrimônio imaterial e investir, assim como em outras festividades, a exemplo da Folia de Reis de Muqui (sul) e a Festa do Caboclo Bernardo, em Regência (norte). São festas muito tradicionais e que todo ano mendigam recursos", critica.

Ele afirma que o Raiar da Liberdade não é uma festa cara, sendo pleiteado anualmente o valor de R$ 20 mil, que, apesar de ser um valor pequeno para a grandiosidade da festa, gera renda para os moradores de Monte Alegre. O dinheiro é utilizado para pagar o transporte dos grupos folclóricos que se apresentam no evento, pagar as cozinheiras que fazem a feijoada e comprar os ingredientes, já que muitos deles são produzidos na própria comunidade. Além disso, pessoas de diversos lugares, que participam da festa, consomem o artesanato feito na região.

Cerca de 15 grupos folclóricos se apresentam anualmente no Raiar da Liberdade, em uma relação chamada de "compadrio", pois eles marcam presença na festa uns dos outros, se visitam. Os grupos não se restringem aos de Cachoeiro de Itapemirim, abarcando também outros municípios do sul capixaba, como Muqui, Itapemirim, Presidente Kennedy, Alegre, Jerônimo Monteiro e Atílio Vivácqua.

'Revolução que começou no chão da senzala'

Genildo, que é pesquisador da área do patrimônio imaterial, afirma que o Raiar da Liberdade é uma festa que lembra o processo de luta do povo negro. "A gente comemora a vitória de uma revolução que começou no chão da senzala, é uma festa que acontece em uma comunidade onde foi formado um quilombo, organizado por negros que fugiram de fazendas da região", conta.
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Ele narra que, em 13 de maio de 1888, a notícia da abolição foi recebida via telégrafo, comunicada pelos fazendeiros aos escravos, que no mesmo dia foram para a praça da cidade, onde começaram a fazer seus batuques em frente à Câmara Municipal. O presidente da Casa de Leis tentou se apropriar da comemoração, tirar o protagonismo dos negros, distribuindo comida e bebida. Dias depois, sem emprego, comida, moradia e outros direitos, os negros voltaram para as fazendas, permanecendo no regime de escravidão.

A festa, então, passou a ser comemorada anualmente nas comunidades da região, mas hoje acontece somente em Monte Alegre e Vargem Alegre, também em Cachoeiro. Nesta última será no sábado (7), com início às 16h30, com missa afro; seguida da abertura oficial e da apresentação de grupos de Caxambu, Capoeira, Bate Flechas e Folia de Reis. A de Monte Alegre no dia 13 de maio, a partir das 18h.

Em Monte Alegre, a comemoração é liderada por Maria Laurinda Adão, desde 1961, quando ela tinha 18 anos. Trata-se de um compromisso que passa de geração em geração. Seu trisavô, Negro Adão, que fundou a comunidade quilombola, foi quem deu prosseguimento à festa, ainda no Século XIX, passando depois para os bisavós, avós e pais de Maria Laurinda, que destaca-se nacionalmente e internacionalmente como defensora da cultura negra e quilombola.
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Além de ativista, Maria Laurinda é mestra de Caxambu, parteira, coveira e líder espiritual. Ela recebeu em 2008 o título de "Patrimônio Cultural do Brasil", do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Sua história também foi eternizada no documentário Todas as faces de Maria, em 2011.

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