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‘Postes que Falam’ transformam bairro em Guarapari com arte urbana

Intervenções ressignificam ruas da comunidade tradicional de Porto Grande

Arquivo Pessoal

O que antes eram postes apagados, estruturas utilitárias e silenciosas em Guarapari, tem se transformado em suportes de expressão coletiva e identidade no projeto “Postes que Falam”, idealizado pelos artistas Chris Barreto e Wally Almeida. A iniciativa se consolida como um movimento de fortalecimento da identidade cultural e de mobilização comunitária em Porto Grande, bairro marcado por raízes indígenas e por práticas tradicionais de vida, como destacam os artistas, ambos moradores da comunidade formada por pescadores artesanais às margens da Lagoa Mãe-Bá.

A proposta nasceu de forma orgânica, a partir de uma demanda da própria comunidade, onde a paisagem cotidiana começou a ser reescrita a partir da cor, da memória e do pertencimento. A ideia inicial era simples, descreve Chris: pintar bancos recém-instalados pela Associação Comunitária de Porto Grande (ACPG).

“A associação propôs e, primeiro, pensamos em pintar os bancos, mas ficamos tão entusiasmados com a estética e com a interferência no bairro, que isso rapidamente se expandiu”, relata. A partir de uma sugestão de Wally, os artistas decidiram avançar para os postes, ampliando o alcance da intervenção.

Mais de 25 postes e 10 bancos já foram transformados em elementos de arte urbana, distribuídos pelas ruas da comunidade. A escolha estética, marcada por padrões geométricos, cores vibrantes e composições livres, dialoga tanto com a trajetória dos artistas quanto com o território em que estão inseridos. Chris explica que a pesquisa partiu de referências da arte urbana geométrica, influenciada também por sua experiência como designer de moda e os grafismos indígenas.

Arquivo Pessoal

“Meu trabalho tem muito padrão geométrico, e o Wally também tem essa influência, um olhar de arquitetura. Começamos a partir dessa inspiração, mas depois fomos nos soltando, criando de forma livre, e percebemos que havia uma harmonia entre nós”, afirma.

Para Wally Almeida, artista autodidata que cresceu na região, o projeto também nasce de uma relação direta com o território. Foi ele quem iniciou o processo de pintura no bairro ainda em 2021, com um mural próximo à entrada de Porto Grande. “A comunidade estava arrecadando dinheiro para comprar os bancos, mas perceberam que faltava algo. Aí me convidaram para fazer a arte e eu chamei a Cris para participar junto comigo”, conta. A partir dessa parceria, a intervenção ganhou corpo e passou a ocupar novos espaços.

Wally explica que priorizou áreas de maior circulação na escolha dos locais, buscando ampliar o impacto visual e simbólico das pinturas. “Eu decidi pintar principalmente na ruas mais movimentadas. A intenção era trazer visibilidade e identificação para o bairro”.

Segundo ele, o uso das cores também dialoga com elementos do território. “Usamos cores que remetem à natureza, ao Estado, às coisas do nosso entorno. Sem perceber, acabamos acertando muito nessa identidade”, avalia.

Mais do que alterar a paisagem, o projeto tem provocado mudanças nas relações sociais dentro da comunidade, observa Chris, que reconhece na arte urbana uma força catalisadora de autoestima e pertencimento. “A arte cria uma dignidade. Muitas pessoas nunca tiveram contato com uma obra de arte, nunca foram a uma galeria. E, de repente, elas começam a ver, comentar, admirar. Isso transforma a vida delas”, exalta.

A artista relata um episódio em que, após a pintura de um poste próximo à sua casa, uma moradora decidiu reformar o próprio muro, que estava há anos inacabado. “Ela limpou tudo, falou que queria pintar o muro também, nós aceitamos, e ela então iniciou a preparação para receber a arte. Aquilo mudou completamente a autoestima dela”, conta.

Wally também percebe essa transformação no cotidiano. “A energia está muito mais positiva. As pessoas estão mais abertas, as crianças estão brincando mais na rua, coisa que a gente não via antes”, observa. Para ele, a presença da arte desperta novas possibilidades de relação com o espaço. “As pessoas começam a olhar diferente para o lugar onde vivem, a se sentir parte disso”, relata.

A participação das crianças tem sido um dos aspectos mais marcantes do projeto, destacam os artistas. Inicialmente espontânea, a aproximação revelou um potencial que agora deve ser estruturado em novas ações. “Elas chegavam querendo pintar, começaram a ajudar, e muitas já têm habilidade porque são filhos de pintores. Agora nós queremos organizar um projeto para que elas possam pintar um muro inteiro perto da escola”, explica Chris. A proposta prevê o uso de materiais adequados e acompanhamento dos artistas, para garantir segurança e inclusão.

A iniciativa dialoga diretamente com a trajetória anterior dos artistas na comunidade, especialmente com o projeto “Origens”, realizado em 2024 com recursos da Lei Paulo Gustavo. O mural coletivo, com mais de 200 metros quadrados, trouxe à tona memórias e saberes afroindígenas de Porto Grande. “O objetivo era o resgate da ancestralidade do bairro. Aqui tem uma tradição indígena muito forte, inclusive com a lenda da Mãe-Bá, que era uma curandeira e, segundo a tradição oral, teria se afogado na lagoa”, conta.

Essa dimensão identitária segue presente em “Postes que Falam”, ainda que de forma mais abstrata. Para os artistas, a geometria, as cores e os ritmos visuais também carregam referências culturais e afetivas. “É como se os postes fossem organismos vivos, como se a cidade fosse um corpo que pode ser pintado, sentido e reimaginado”, descreve Chris. A ideia de cidade como organismo aparece como um dos eixos conceituais do projeto, que reforça o papel da arte como ferramenta de transformação social.

Apesar dos avanços, os artistas também apontam desafios estruturais enfrentados pela comunidade. “Porto Grande é um bairro que enfrenta um abandono pela prefeitura. Tem problemas com lixo, mato, manutenção. Os moradores fazem muito trabalho voluntário, mas o bairro merece mais apoio”, afirma. Para ela, a visibilidade gerada pela arte pode contribuir para atrair atenção e investimentos. “Nós queremos que isso traga melhorias reais, não só estética”.

Nesse contexto, em um lugar onde quase todos se conhecem, as famílias compartilham histórias e a tradição ainda resiste, a arte surge como linguagem de continuidade e reinvenção, destacam. Como resume Wally, “é uma experiência de ajudar e cuidar do ambiente e da cultura do bairro”.

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