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Segunda, 21 Junho 2021

Documentário resgata história da maior luta contra a escravidão no Estado

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Fernanda Vieira
Um documentário capixaba quer recontar a Insurreição de Queimado, no município da Serra. Ocorrida em 1949, a revolta é um marco na luta dos negros escravizados no Espírito Santo. Queimado – A luta pela liberdade foi gravado no último dia 12 e é resultado da Lei Aldir Blanc, de incentivo ao setor cultural.

A obra é dirigida por Rogério Morais, professor e produtor cultural na Serra. "A Revolta do Queimado é um exemplo de luta, de perseverança, de mudança, de querer o melhor para o povo, a igualdade social", diz Rogério.


Atores capixabas, como Markus Konká, Bené Freire e Verônica Gomes, participaram da gravação de sete cenas para o documentário. Além das encenações, que ilustram o episódio histórico, a obra conta com depoimentos dos historiadores e pesquisadores Clério José Borges, André Malverdes, Irineu Cruzeiro e Teodorico Boa Morte.

As gravações foram realizadas nas ruínas da Igreja de Queimado, na Serra. As encenações contaram com o suporte técnico audiovisual terrestre, além imagens aéreas captadas por drones. 

Produzir um documentário com essa temática parte de uma insatisfação: crianças, adolescentes e até adultos capixabas não conhecem a história da maior insurreição de negros escravizados no Espírito Santo.

"Queimado é uma insurreição que fica escondida, como tema secundário, porque os heróis são feitos pelos vencedores, pela escrita oficial, que muitas vezes deixa de lado os acontecimentos que realmente significam algo na luta pela liberdade, pelo coletivo", pontua André Malverdes, um dos pesquisadores do documentário.

Com isso em mente, o professor Rogério Morais (foto abaixo) decidiu produzir um material que pudesse resgatar essa história. "Mais do que isso, construir um trabalho na área do audiovisual, um documentário que pudesse chegar até as escolas, que nós construíssemos um documentário de forma didática e lúdica, um trabalho que mostrasse toda a revolta, todo aquele fato que aconteceu em 1849", aponta.

Fernanda Vieira
Para André, resgatar essa história no atual contexto político e social brasileiro é fundamental para que as pessoas se sintam agentes transformadores, construtores da própria história, da própria cidade, e da história do próprio país.

"Mais do que nunca, em momentos de intolerância, fake new e inverdades, a proposta do professor Rogério, junto com a equipe de trabalho, é que o tema seja cada vez mais ser valorizado, trabalhado em sala de aula, discutido e levado às pessoas e às famílias. E essa transformação é contínua, porque a história é cíclica", ressalta.
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Promessa não cumprida

Clério José Borges, historiador e presidente da Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores, lembra que Revolta do Queimado é uma referência da resistência negra nos tempos da escravidão.

Ele conta que o movimento foi fruto de uma promessa enganosa feita pelo Frei Italiano Gregório José Maria de Bene, que motivava os negros a construir a Igreja de São José, em uma colina na Vila de Queimado. A troca pelos serviços era uma liberdade que a autoridade religiosa não podia conceder.

"O Frei alimentava nos negros o sonho da liberdade e em seus sermões criticava o sistema escravista, porque embora os padres possuíssem escravos, Frei Gregório era oriundo da Itália, onde todos eram livres e não havia escravidão. Como a promessa não foi cumprida, no dia de São José, 19 de março de 1849, às 15 horas, no momento em que celebrava a missa inaugural da Igreja Matriz, Frei Gregório foi interrompido pelos negros que exigiam a alforria, a liberdade que o padre havia prometido em troca da ajuda na construção da Igreja", relata.

A revolta que resultou em negros presos, mortos e condenados, também marcou a luta de escravizados que, indo em direção a fazendas próximas, exigiram libertação. "Resgatar a história de luta dos Negros da Revolta do Queimado é mostrar que o sonho da liberdade deve estar sempre presente na vida de cada um dos seres humanos. Ter a certeza de que a esperança de dias melhores deve estar sempre presente e que o julgo de opressores não deve jamais prevalecer", finaliza.

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