Sexta, 24 Junho 2022

Um passeio pela Capital da Diversidade Folclórica do Espírito Santo

casa_hermogenes_vitor_taveira Vitor Taveira

Em virtude do Pocar Festival de Cultura, realizado em Conceição da Barra, norte do Estado, a coluna CulturArte vem em edição especial, extratemporânea e ampliada, repercutindo alguns dos acontecimentos e seus desdobramentos num dos berços da riqueza cultural do Espírito Santo.

Exposição fotográfica registra relíquias culturais

Vitor Taveira

Depois da abertura com um cortejo de grupos de jongo e de música, aconteceu a inauguração da exposição fotográfica "Rogério Medeiros: um olhar sobre o Sapê do Norte", uma preciosidade montada especialmente para o evento na galeria da Casa da Barra, um espaço cultural independente. A curadoria usou como base um texto do grande pesquisador e folclorista barrense Hermógenes Lima da Fonseca sobre a obra do fotógrafo, no qual destaca diversas personalidades, sobretudo mestres da cultura popular da região. 

Foram buscadas no arquivo do fotógrafo imagens mencionadas no texto do pesquisador. São relíquias com registros de décadas atrás de muitos mestres que já não estão em vida e deixaram um imenso legado e poucas fotografias, registradas principalmente por Rogério. Entre eles Chico D`anta da Viola, Pedro de Aurora, Zoroasto Valeriano, Terto, Couxi, Ascendino, entre outros. O próprio retrato mais famoso de Hermógenes (ao lado), também figura na exposição, assim como registros dos últimos dias da antiga vila de Itaúnas antes de ser soterrada pelas dunas de areia.

 

Casa da Cultura interditada

O que sempre dá tristeza de ver é a Casa da Cultura Hermógenes da Fonseca, um belo casarão à margem da foz do Rio Cricaré, próxima ao trapiche, fechado. Podia ser um centro de irradiação da imensa riqueza de Conceição da Barra, que ganhou o título de Capital da Diversidade Folclórica, título que honra e se justifica pela presença de vários grupos de diferentes manifestações da cultura popular, como jongo, reis de bois, ticumbi, pastorinhas, alardo, capoeira, entre outros, que tiveram em Hermógenes um profundo conhecedor, atento pesquisador e apaixonado defensor. No ano passado, um decreto municipal oficializou a interdição do espaço, apontando as obras necessárias para sua recuperação. Esperamos que mais cedo do que tarde possam vir boas notícias sobre a restauração e reabertura do imóvel.

Vitor Taveira

Pocar comemora tombamento da praça 

Vitor Taveira

Por outro lado, a Praça da Matriz, está linda, embora a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição mereça uma nova pintura que dê nova vivacidade a esse patrimônio. O Pocar surgiu justamente da comemoração ao tombamento da praça, depois de um plano de transformá-la em estacionamento. O patrimônio foi defendido, mantido e revitalizado. Isso estimulou também o comércio a valorizar as construções e fachadas históricas, como as que abrigam a Tapiocaria Quilombola e a Galeria Cores & Sabores, que reúne duas casas integradas internamente com diversos empreendimentos: restaurante, cafeteria, cervejaria, sorveteria e também exposição de quadros e artes, em plano coração da cidade, em frente à lateral da igreja.

Graffiti segura muro e guarda história 

Vitor Taveira

Na mesma praça, outro aspecto interessante. A estação Conceição da Barra, empreendimento relativamente recente para abrigar um espaço gastronômico e de vivência, derrubou muros para criar um espaço aberto de convivência ao ar livre anexo à praça. Curiosamente, o projeto considerou manter uma pequena parte do muro de uma das esquinas de pé. Nele foram pintadas duas obras do projeto Cores de Reis. Uma delas, de Luhan Gaba, homenageia Zacimba Gaba, heroína da resistência quilombola do Sapê do Norte, e outra, de Thiago Balbino, ilustra o Ticumbi, manifestação folclórica única da região. Compôs bem o cenário.

Memórias à venda 

Vitor Taveira

Outro ponto alto foi a apresentação, na tradicional feira de sexta-feira, da peça Memórias à Venda, do Instituto Tambor de Raiz, estrelada por Didito Camillo e Fabíola Guimarães. A feira como local de troca de produtos e histórias é o ponto de partida do espetáculo, montado ali mesmo ao lado das barracas, contando um pouco da história dos comerciantes, dos produtos tradicionais e importantes como a farinha e as garrafadas, e de personagens históricos, especialmente os que constroem a cultura negra de resistência na região ao longo dos século.

O espetáculo, riquíssimo em referências, circulou por quilombos de Norte a Sul do Estado, foi apresentado em Vitória, mas nunca tinha sido encenado em seu local de concepção original, aquele mercado. Uma forte chuva impediu que sua estreia acontecesse naquele local tão especial em 2018. De lá pra cá veio uma pandemia, manteve-se vivo o mercado e as memórias, e a peça finalmente encontrou seu lugar de origem. Sorte de quem pôde assistir.

Único registro da passagem da espada

Um dos momentos mais emocionantes foi a parte em que os atores encenam a passagem de um dos secretário do Ticumbi de São Benedito, seu Ascendino. Depois de perder a visão, e em seu leito de morte, ele pediu ao amigo Rogério Medeiros, vassalo do festejo, para passar a sua espada usada na encenação para o filho, Quino. O vassalo cumpriu o pedido no velório, entregando a espada, que foi passada a Quino sobre o corpo do pai que era velado dentro da Igreja, com o compromisso de continuar a tradição do festejo.

Quino, que é feirante estava presente na apresentação da peça, vem cumprindo com louvor a função que foi do pai, e segue ativo na construção do Ticumbi. Filho de Rogério, o também fotógrafo Apoena Medeiros lembrou que a encenação da passagem feita na peça é o único registro daquele momento. Isso porque quem sempre registrou todos os enterros nas últimas décadas era o próprio Rogério, que, naquela ocasião, incumbido da passagem da espada, obviamente não pôde registrá-la.

Vitor Taveira

Ajuntamento e literatura a quilo

Vitor Taveira

Logo depois da peça, chamou a atenção a tradicional intervenção Literatura a Quilo, promovida desde a primeira edição do Pocar pela Editora Cousa. No meio da feira, uma banca de livros é armado e as obras são pesadas numa balança antiga e vendidos por quilo, a preços módicos e simbólicos, numa iniciativa de popularização e incentivo à leitura, especialmente de obras produzidas no Espírito Santo.

Em seguida ainda teve o tradicional ajuntamento de sanfona, viola e pandeiro que homenageia o falecido Mestre Mirtinho, que por anos foi quem comandou o festejo marcado pelo encontro e improviso entre artistas locais e convidados do festival. Quem esteve por lá e tocou pandeiro foi o mestre Berto Florentino, do Ticumbi de São Benedito, que neste ano não pôde comandar a apresentação do grupo por questões de saúde. Mostrou que está bem de ritmo. Melhoras ao mestre, que agora tem o desafio de seguir no comando do grupo sem a presença em vida do genial Tertolino Balbino, o Mestre Terto, que comandou o grupo por 64 anos.

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Puxão de orelha

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No sarau da Academia Barrense de Letras e Artes (ABLA), que ocorreu dentro da programação do Pocar, vários artistas locais e visitantes se apresentaram, entre músicas, poesia e performances. Membro do Ticumbi e filho de Terto, Jonas Balbino, também integrante da ABLA, recitou trechos de versos que fizeram parte de uma homenagem a seu pai, que faleceu em abril, com quase 89 anos. Nela, não deixou de dar um puxão de orelha nas autoridades locais:

"Eu quero falar também para o poder público municipal

Que homenagem tem que ser feita enquanto tivermos vida

Que mesmo Tertolino sendo embaixador da cultura deste município

Nem as suas bandeiras foram estendidas".

Terto mereceu e ainda merece muitas homenagens e também que seu grupo e os demais sejam valorizados e apoiados como guardiões que são da cultura popular, das tradições, identidade e memória do nosso Estado.

Artista pinta mestres da cultura popular

Vitor Taveira

Quem está residindo em Conceição da Barra desde fevereiro é Henrique Salva Manara, artista mineiro de várias linguagens como teatro, pintura e cinema. Além de ministrar aulas de teatro para jovens no Instituto Tambor de Raiz, ele iniciou uma série de pinturas de grandes mestres da cultura popular da região. A primeiro delas foi o falecido mestre Pedro de Aurora, jongueiro conhecido como um dos maiores tiradores de versos que já existiram no Sapê do Norte, junto à sua esposa Maria. A pintura foi feita a partir de uma foto de Rogério Medeiros, presente na exposição já mencionada, e foi dada de presente para o Instituto, fundado por netos do mestre.

Há alguns meses, o Tambor de Raiz está ocupando a casa da antiga Capitania dos Portos, compartilhada com a ABLA, que tem sede ali, cedida pela municipalidade. Com a parceria, o local vai ter oficinas de teatro, violino, jongo e capoeira, com foco nos jovens da região, especialmente os das comunidades quilombolas.

Em busca da rabeca capixaba 

Outro artista que está no Espírito Santo, mas apenas de passagem, é o rabequeiro cearense Jeferson Leite, que se apresentou com o violeiro paulista Rafael Gonzá. Ambos moram em São José dos Campos, interior de São Paulo, e Jeferson, presente já em várias edições do Pocar, está em busca de uma rabeca capixaba, mas não uma nova e sim uma que tenha histórias. Isso para compor sua coleção e uma futura exposição com os instrumentos de outros onze estados brasileiros.

Chegou a ir a Pedro Canário atrás de uma, mas não conseguiu encontrar. Depois de um passeio de caiaque pelo Cricaré em Conceição da Barra, se encantou por uma casaca indígena feita por Misael Pêgo, da aldeia de Irajá, em Aracruz. Vendo a emoção do músico, o generoso Seu Jarbinha, dono dos caiaques e da casaca, lhe perguntou: "e se eu te desse essa ela de presente?". Era aniversário de Jeferson. Imagina a emoção do artista. Com a casaca na mochila, a busca pela rabeca continua. Se alguém souber de uma, pode entrar em contato pelo Instagram do Jeferson Leite.

Vitor Taveira

Cultura popular barrense em Vitória na próxima semana

Seu Jarbinha, aliás, participa do Alardo de São Sebastião, manifestação única da região que encena um duelo entre cristãos e mouros. Ele é um dos integrantes que estará presente numa apresentação compacta do grupo no Festival Dança Vix, que acontece na próxima semana, de 26 a 29 de maio, com presença de diversos grupos de danças populares do Espírito Santo e do Brasil. O alardo se apresenta na quinta-feira, às 14h, na Tenda Cultural instalada ao lado do Teatro Universitário, na Ufes. Outro grupo de Conceição da Barra que se apresenta é o Jongo de Santa Ana. Vale conferir toda programação completa em http://festivaldedancavix.com.

Filme retrata Quilombo do Nego Rugério

O Pocar contou também contou com uma mostra de cinema, que trouxe em sua maioria filmes relacionados com a região do Sapê do Norte. Um deles, apresentado pela primeira vez ao público, é A resistência do quilombo do Negro Rugério, fruto da pesquisa e registros audiovisuais de Didito Camillo Elvis Rodrigues, que conta um pouco da história do principal berço da resistência quilombola no Espírito Santo, conhecido como local que produzia uma das melhores farinhas do país. Ele estará disponível junto com outros materiais fruto da longa pesquisa de Didito e outras pessoas ligadas ao Pocar, num aplicativo criado pelo festival.

Luiza Dutra prepara lançamento de canções autorais

Uma das estrelas no palco principal do Pocar foi a jovem cantora Luiza Dutra, capixaba que conquistou o Brasil com sua voz potente ao participar do The Voice, da TV Globo. Em seu show, soltou a voz ao rememorar ao público em Conceição da Barra algumas das músicas que apresentou no programa, e também apresentou algumas de suas canções autorais. Ela ainda voltou ao palco para participação como solista em apresentação da fantástica Orquestra Malê Big Band, comandada pelo maestro Eduardo Lucas. Em paralelo à agenda de shows, Luiza Dutra está preparando seu primeiro EP, cujo primeiro single deve ser lançado nos próximos meses. Para saber dos lançamentos que virão, acompanhe o Instagram da artista

Além de Luiza e da orquestra, passaram pelo palco musical Fabio Carvalho, São Trio, a mineira Silvia Gomes e os anfitriões do Fogumano.

Vitor Taveira

Pocando na estrada

Com show de André Prando, o Pocar termina na noite de domingo em Conceição da Barra, seu local de origem. Mas segue para uma etapa itinerante, passando por Colatina (Maria Ortiz), Baixo Guandu (Praça Getúlio Vargas) e Aracruz (Barra do Riacho), nos próximos dia 27, 28 e 29, respectivamente.

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