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Associação aponta subnotificação de mortes de trans e travestis no Estado

Falta de informações da Polícia Civil e de casos do interior são algumas dificuldades apontadas

A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) divulgou o “Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2025”, para marcar o dia Dia da Visibilidade Trans, nesta quinta-feira (29), e alertar para as graves violações a essa população. O documento aponta que, no Espírito Santo, foram duas mortes. Contudo, a coordenadora de projetos da Associação Grupo Orgulho Liberdade e Dignidade (Gold), Deborah Sabará, alerta para subnotificações recorrentes nesses casos.

A Gold é quem faz o mapeamento dos crimes e encaminha para a Antra. Entretanto, há dificuldade de identificar, principalmente, os casos ocorridos no interior. De acordo com ela, a identificação dos óbitos cometidos na Grande Vitória também é difícil, mas como a associação não tem condições financeiras para estender sua atuação com maior força no interior, os levantamentos nessas regiões ficam mais prejudicados.

Outro problema que contribui para a subnotificação, independente da região, é o fato de que nas ocorrências da Polícia Civil não consta se a vítima é travesti ou transexual. O ano passado começou com o assassinato de uma mulher trans agredida com golpes de facão por um cliente com quem tinha feito programa e não quis pagar. O crime ocorreu em Jardim Limoeiro, na Serra.

Em outubro, Nati, uma travesti em situação de rua, foi assassinada a tiros no bairro Santa Bárbara, em Cariacica. Quando o crime ocorreu, a Polícia Militar informou que “policiais foram acionados para atender uma ocorrência de homicídio por arma de fogo no bairro Santa Bárbara. No local, a equipe encontrou um indivíduo de 32 anos baleado e em óbito. A perícia foi acionada”.

Houve, ainda, tentativas de assassinato, como o caso de uma adolescente trans de Guarapari, que em outubro foi abordada por indivíduos que passaram a proferir ofensas transfóbicas. Em seguida, ela teria sido colocada à força em um veículo, levada a uma rua escura no bairro Village do Sol, onde foi violentamente espancada e teve fogo ateado contra o próprio corpo. Após o ataque, conseguiu pedir socorro.

Outro caso é o da cabeleireira Mel Rosário, conhecida por seu trabalho e ativismo no Centro de Vitória, que sobreviveu a uma tentativa de homicídio em outubro. O agressor, um homem que trabalhava próximo ao seu salão, invadiu o local armado com um martelo, gritando ofensas transfóbicas e ameaçando matá-la. “Ele entrou com o martelo gritando, mandando eu virar homem, dizendo que odiava gay. Eu fugi dele, me escondi atrás do varal do bazar, e ele veio atrás de mim. Quando uma mulher na rua começou a gritar, ele começou a bater com o martelo no portão e a gritar que iria me matar. Eu tive um livramento de Deus”, relatou, na ocasião, para Século Diário.

No cenário nacional, a Antra alerta que o Brasil é o País que mais assassina essas pessoas no mundo, com número três vezes maior que o segundo colocado no mundo, o México. O dossiê da entidade abarca o período de 2017 a 2025. O último ano foi o com menor número de casos. O de maior foi 2017, com sete. Deborah Sabará recorda que foi o ano da greve da Polícia Militar (PM) no Espírito Santo, com duração de 21 dias. Segundo ela, na ocasião, muitos trabalhadores, diante da crise na segurança pública, puderam trabalhar em casa, enquanto as trans e travestis, por normalmente trabalharem de forma informal, não puderam fazer o mesmo.

Em seguida, 2022 e 2018 empatam com seis cada. No ano de 2023, foram quatro casos. Por fim, 2024, 2021 e 2020 aparecem com três cada. Esses dois últimos anos foram os da pandemia da Covid-19. Deborah rememora que, assim como na greve da PM, as trans e travestis, pelos mesmos motivos, não puderam fazer o isolamento social. Ela acredita que, por causa disso, o número de mortes é maior. A necessidade de isolamento social durante mais de um ano, acredita, aumentou a subnotificação, impossibilitando uma melhor checagem dos números.

No que diz respeitos aos dados de todo o Brasil, entre 2017 e 2025, período em que a Antra começou a sistematizar os dados de forma contínua, foram mapeados 1,2 mil assassinatos de travestis, mulheres transexuais, homens trans, pessoas transmasculinas e não binárias no Brasil. Foram 181 em 2017; 163 em 2018; 124 em 2019; 175 em 2020; 140 em 2021,; 131 em 2022; 145 em 2023; 122 em 2024; e 80 em 2025, portanto, uma média de 140 por ano.

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