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Ato do 8 de março vai denunciar violências e cobrar fim da escala 6×1

Fórum das Mulheres lançou campanha de arrecadação para marcha anual

Leonardo Sá

Com o mote “Pela vida das mulheres! Contra o imperialismo, por democracia, soberania e pelo fim da escala 6×1!”, o Fórum de Mulheres do Espírito Santo (Fomes) convoca a sociedade capixaba para dois momentos de mobilização no Centro de Vitória para marcar o 8 de Março, Dia Internacional de Luta das Mulheres.

A programação inclui uma marcha na sexta-feira (6), com concentração às 14h, em frente ao Palácio da Fonte Grande. De lá, as manifestantes seguem até a Praça Costa Pereira e depois até a Praça Getúlio Vargas, onde será encerrado o ato. Já no domingo, 8 de março, será realizado um Ato Político-Cultural ao longo de todo o dia, em espaço público do Centro ainda em definição, com atividades culturais e apresentações artísticas que estão sendo confirmadas pela organização.

“A construção do 8 de Março é coletiva. Nós começamos chamando os movimentos de mulheres para construir conosco”, afirmou Maria Helena Cota Vasconcelos, representante do Fórum, que há mais de 30 anos mantém a tradição de ocupar as ruas na data.

Entre os temas centrais da marcha estão a defesa da soberania dos povos e da democracia; a posição contra o imperialismo e as guerras; a defesa dos recursos naturais e do Bem Viver; o combate ao racismo, à violência policial, à intolerância religiosa e às manifestações da extrema direita; o fim da escala 6×1 com redução da jornada de trabalho; a defesa da vida das mulheres, com enfrentamento ao feminicídio e à violência de gênero; a luta por justiça reprodutiva e pela legalização do aborto; e a pauta das mulheres de maternidade atípica, com a afirmação: “não somos máquinas, somos humanas!”.

O Fórum lançou uma campanha de arrecadação para viabilizar a estrutura dos atos. Com o chamado “Construa conosco essa luta!”, o movimento pede contribuições via Pix, pela chave [email protected], vinculada ao Banco do Brasil, em nome de Thamara Trancoso Gomes.

“O Fórum é um movimento classista. Nós não temos arrecadação própria. Todo ano a gente faz com base na solidariedade de classe”, explicou a representante da organização. Segundo ela, os recursos serão destinados à compra de água, alimentação, carro de som e demais itens necessários para garantir a infraestrutura dos atos.

Ela também destaca a necessidade de acolhimento. “Vêm mulheres indígenas e quilombolas, e precisamos ter suporte para todas”, diz. Em anos anteriores, o Fórum montou estrutura de apoio na Praça Costa Pereira para garantir condições mínimas de permanência. “Precisamos também acolher as crianças”, reforça.

Em nota pública recente, o Fórum criticou a forma como o governo estadual divulga dados sobre violência. “O Estado fala de mortes, mas silencia sobre as violências que produz e sobre quem morre”, afirma o documento. A nota sustenta que a divulgação isolada de números de feminicídio “serve para esconder responsabilidades, distorcer o debate público e proteger a omissão do próprio poder público”.

Os dados oficiais apontam crescimento nos registros de violência doméstica: 21.784 casos em 2023; 23.848 em 2024; e 26.151 em 2025. Também aumentaram os registros de descumprimento de medidas protetivas e as tentativas de feminicídio. “A violência não começa na morte. O feminicídio é o último ato de um ciclo prolongado de violências”, afirma a nota, que também aponta subnotificação e dificuldades no atendimento às vítimas.

Maria Helena destaca que a violência atinge principalmente mulheres negras, periféricas e pobres. “Toda opressão acaba atingindo mais os grupos vulnerabilizados. As estatísticas sempre chegam nesse recorte de raça, gênero e classe”, afirma. Ela também critica a atuação policial nas periferias. “Enquanto nos bairros de classe média e alta existe policiamento, na periferia existe confronto. O tratamento não é o mesmo.”

Outro tema que ganha destaque é a maternidade atípica. Segundo a representante do Fórum, mulheres responsáveis por filhos com deficiência ou necessidades específicas enfrentam sobrecarga e ausência de políticas públicas de suporte.

Leonardo Sá

O Fomes integra a Articulação Nacional do 8 de Março, responsável pelo manifesto unificado de 2026. O documento define o feminismo deste ano como “internacionalista e anti-imperialista” e convoca mulheres a se posicionarem contra a ofensiva dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe.

“Lutamos contra todas as formas de opressão contra as mulheres e meninas que culminam em feminicídios e transfeminicídios”, afirma o manifesto. Para Maria Helena, soberania, democracia e enfrentamento às violências são pautas inseparáveis. “Quando você pensa na defesa da vida, está tudo conectado.”

Um dos pontos centrais do documento também é o fim da escala 6×1. Segundo o manifesto nacional, esse modelo “rouba o tempo, adoece corpos e aprofunda desigualdades”. Maria Helena relaciona a pauta à realidade das mulheres. “Quando quase todo o tempo da sua vida é reservado para a reprodução do lucro, você tem menos tempo para viver. O trabalho doméstico sempre sustentou a economia capitalista, e foi colocado sobre as mulheres.”

Ela defende a redução da jornada sem redução salarial e a redistribuição do trabalho de cuidado. “A luta pelo fim da escala 6 por 1 atinge o coração do capital, porque só o trabalho humano produz valor.” No Espírito Santo, o Fórum reforça que a resposta às violências e aos retrocessos passa pela organização coletiva.

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