Domingo, 26 Junho 2022

Celebração marca memória de Padre Gabriel Maire nos 32 anos de seu assassinato

Padre_Gabriel_Maire_ecosdegaby Ecos de Gaby

O dia 23 de dezembro de 1989 foi marcado pelo assassinato de uma grande liderança popular do Espírito Santo: o padre francês Gabriel Maire, o Gaby, como também era conhecido. Desde então, a cada antevéspera de Natal, sua memória é celebrada em Cobi de Cima, Vila Velha, onde seu corpo foi encontrado. Este ano, não vai ser diferente. Às 19h começará, nesse mesmo lugar, a celebração "Silêncio, Memória, Luzes", realizada pelo grupo Ecos de Gaby, que busca preservar a memória do sacerdote.

Ecos de Gaby

Rogério Vago, um dos integrantes do Ecos de Gaby, explica que será feito um momento de silêncio pela situação do país, marcada pelo desemprego, pela má gestão federal na condução da pandemia da Covid-19, pela fome e outros problemas sociais. "Também vamos denunciar o silêncio das igrejas, da sociedade civil organizada, que muitas vezes não se pronunciam como deveriam, os silêncios que causam violências, morte, dor", ressalta.

A memória, afirma Rogério, é em virtude da recordação não somente dos 32 anos de assassinato do padre Gabriel, mas também de outras pessoas "que deram a vida por causa da vida". No local onde anualmente é feita a celebração há, inclusive, um painel feito pelo artista plástico Luiz Quintanilha, que além do rosto do sacerdote, conta ainda com os do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, do ambientalista Paulo Vinha, da Irmã Cleusa e da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco.
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As luzes remetem aos "gritos que ecoam a partir desses silêncios". "Quais a luzes que nos dão esperança de continuar? Quais os gritos que ecoam em nossa sociedade?", questiona Rogério, que destaca a importância de manter viva a memória de padre Gabriel. "A gente acha importante manter viva a memória de quem deu a vida pelas vidas. Gabriel deixou seu país, sua vida na França, veio para Cariacica, um município pobre, e dedicou sua vida aos pobres para que tivessem dignidade", recorda.

Padre Gabriel chegou ao Brasil em 1980. Sua atuação no Espírito Santo, principalmente no município de Cariacica, foi marcada pela intensa participação nas Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) da Igreja Católica, parte dela durante a gestão do bispo progressista Dom João Batista da Motta e Albuquerque, que entrou para a história do Estado por ter colocado em prática as diretrizes do Concílio Vaticano II, como o incentivo ao protagonismo dos leigos e a realização de missas em português, não mais em latim.

Gabriel incentivava a organização popular como forma de mobilização para garantia de direitos, dignidade e qualidade de vida. Incentivou a criação de movimentos de mulheres, culminando na atual Associação de Mulheres de Cariacica Buscando Libertação (Amucabuli). Foi essencial nos movimentos de moradia e em meio aos grupos de juventude, como a Juventude Operária Católica (JOC).

Ainda sobre a classe trabalhadora, atuou na Pastoral Operária, onde coordenou um jornal chamado Ferramenta, feito por operários para operários, que buscava informar os trabalhadores sobre questões como as lutas populares no Espírito Santo, no Brasil e, em menor escala, no mundo, além de ter como outro objetivo a educação para a cidadania.

Bem sucedido projeto de comunicação popular, o Ferramenta era lido em grupos organizados nas comunidades, distribuído nas empresas, e foi essencial para impulsionar a mobilização da classe trabalhadora em um contexto de grande precarização da mão de obra e de aumento da formação das periferias na Grande Vitória, que recebiam grande número de migrantes devido aos empreendimentos industrias. Gabriel era ainda um leitor assíduo de jornais e incentivador da leitura crítica da mídia. 
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Como consequência de seu ativismo, recebeu várias ameaças de morte, sendo assassinado em 23 de dezembro de 1989. O crime prescreveu em 2017, sem que os mandantes fossem identificados e punidos. Chegou a ser ventilada a tese de latrocínio. Os defensores dela alegavam que, ao passar na avenida Carlos Lindemberg, em Vila Velha, o carro de padre Gabriel foi atingido por uma pedra jogada pelos criminosos, o que o fez parar, sendo abordado por eles e assassinado.

Entretanto, nada foi levado. O próprio presidente do Tribunal de Justiça (TJES) na época, desembargador Pedro Valls Feu Rosa, na carta que divulgou para informar a sociedade capixaba sobre a prescrição, questionou a tese de latrocínio. "Como pode, meu Deus, ter sido um reles assalto? A propósito, como morre gente assaltada em processos relacionados ao crime organizado! Como explicar-se, insisto, a repetição de procedimentos e nomes? A eliminação de testemunhas? Aliás, que assalto foi esse no qual os ladrões não levaram do relógio ao carro da vítima, o tão popular – e de fácil comercialização – fusca? Que assalto foi esse no qual os ladrões sequer reviraram os bolsos da vítima?", indagou.

Rogério Vago explica que existe uma tese, que é a defendida pelo grupo e relatada por testemunhas, de que padre Gabriel foi interceptado em Castelo Branco, em Cariacica, levado para o areal de Vale Encantado, em Vila Velha, onde foi morto, sendo o corpo levado para a Carlos Lindemberg para simular o latrocínio.

O Ecos de Gaby já lançou dois livros para resgate da memória do sacerdote. O primeiro, Prefiro Morrer Pela Vida a Viver Pela Morte, mostra relatos de pessoas que conviveram com padre Gabriel. O outro, Ecos de Vitória, cartas escritas por ele para familiares e amigos na França, nas quais faz uma análise das conjunturas política, econômica, social e eclesial de Cariacica, do Espírito Santo e do Brasil.

Entre as homenagens feitas a ele também está a música Profeta Gabriel, composta pelo deputado federal Helder Salomão (PT) e interpretada pela cantora capixaba Raquel Passos, no seu segundo CD, Seguir Sempre.

Seu nome também batizou ruas, escolas, equipamentos de saúde e outros espaços no município onde morou durante nove anos. No edital de 2021 da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Cariacica João Bananeira, a produtora cultural Thays Ferreira teve um projeto aprovado que busca criar um memorial, por meio de intervenção urbana com grafitti, sobre padre Gabriel, com o objetivo de resgatar a história do sacerdote, a ser iniciado em 2022. 

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Comentários: 2

Emmanuel em Segunda, 20 Dezembro 2021 17:07

Não o conheci, mas ouvi muito das suas historias de lutas!!! Mais um que deu a vida para ver pelo povo explorado!

Não o conheci, mas ouvi muito das suas historias de lutas!!! Mais um que deu a vida para ver pelo povo explorado!
Nelson firmino barbosa em Terça, 21 Dezembro 2021 05:33

Fiz primeira comunhão com o padre foi muito triste

Fiz primeira comunhão com o padre foi muito triste
Visitante
Domingo, 26 Junho 2022

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