Domingo, 26 Junho 2022

Escola Geração: do luto à luta

Escola Geração: do luto à luta

O comunicado oficial foi enviado no último dia 11, uma sexta-feira. Impossível conter as lágrimas. Aquele temor que acompanhava por anos a diretora da Sociedade de Ensino Geração, Marisa Amaral, e sua família chegava, pela primeira vez, aos pais e responsáveis pelos alunos da escola. Sim, porque no longo período de ameaça judicial, apesar da angústia constante, Marisa sempre fez questão de preservar o assunto, de conhecimento somente de poucas pessoas, das relações mais antigas e íntimas. Talvez pela esperança. Ou, mais provável, pelo cuidado que sempre dedicou aos seus. 


Até mesmo na hora de uma notícia tão avassaladora, não foi diferente. A carta enviada naquele dia 11, assim como todos os textos elaborados pela direção da Escola Geração no decorrer dos anos sobre as atividades pedagógicas, conseguiu transmitir, em meio a muita dor, uma mensagem de amor, união, respeito e motivação. Exatamente os valores que tornaram essa escola tão especial e única em Vitória durante seus 50 anos de atuação. 


Primeiro como ABC do Lobinho, fundada em 1968 pela mãe de Marisa, Yolanda Amaral, depois como Geração, já a partir de 1992, sempre com a proposta de agregar crianças com necessidades especiais e de famílias carentes às turmas regulares do ensino infantil e fundamental 1. A nobre iniciativa, aliada a um modelo de ensino baseado no afeto, na tolerância e na valorização da infância, não sem razão, consolidou a Geração como uma referência em educação inclusiva e humanitária no Espírito Santo. 


Como ingredientes dessa fórmula que soma resultados positivos, o incentivo às individualidades de cada aluno, a promoção da importante convivência com as diferenças, o contato diário com a natureza (o local preserva árvores centenárias em contraponto à urbanização da Capital) e a intensa vivência da cultura e da arte. 


A educação, neste caso, não é explorada como um negócio lucrativo, e sim como uma vocação e responsabilidade em contribuir com uma sociedade justa e igualitária. Mas, logo o que a escola nunca buscou em seus anos de existência, em que cresceu na simplicidade e na firmeza de princípios, com o tempo se tornou seu principal pesadelo.


Todo esse trabalho, tão importante para a sociedade capixaba, teve seu fim decretado pela Justiça Estadual, com data marcada: dia 20 de dezembro deste ano. A Geração, portanto, não pôde abrir as matrículas de 2019. Um imbróglio que envolve o amplo terreno, na Constante Sodré, em Santa Lúcia, cobiçado pela exploração imobiliária, determinou a desocupação, após incansável luta da família para permanecer no local e, assim, prosseguir com seu trabalho, dando oportunidades a cada vez mais crianças. 


A ação foi movida pelo Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) contra a empresa falida Café Glória e os seus herdeiros desde os anos 90, e, por deficiência na transferência de propriedade feita na década de 50, não só o terreno da escola como a casa da família, onde estão guardadas também suas memórias afetivas, foram envolvidos no processo. Ao tomar conhecimento, a escola conseguiu pagar 85% da dívida contraída à sua revelia. Mas não houve negociação possível em relação ao restante.  


A falta de sensibilidade no caso poderá custar o fim de um projeto que deveria servir, na verdade, de exemplo para o próprio governo do Estado em garantir e promover a inclusão. No entanto, o que parece predominar, para todos os efeitos, é o que representa o valor do terreno: R$ 7 milhões, segundo o próprio Bandes, com várias propostas de compra de grupos capixabas poderosos. 


Mas, ao contrário do poder público, que não se comoveu diante de tamanha perda, os pais e responsáveis de alunos (grupo do qual me incluo), conscientes também de sua responsabilidade por uma educação que tanto contribui para o desenvolvimento de seus filhos e deles próprios no reconhecimento de valores humanos, resolveu transformar o luto em luta. 


A mobilização, que agrega ainda ex-alunos e a própria comunidade, se consolida como uma forte corrente para ecoar bem alto ao governo e à Justiça: a Escola Geração não pode, sob hipótese alguma, acabar! 


Ainda há tempo.

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