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Quarta, 25 Novembro 2020

‘Já perdemos quase tudo, só falta perder o medo’, aponta Sindicato dos Aquaviários

Eric_Barcelos_-Arquivo_pessoal2 Arquivo pessoal

"Não é só apuração [das causas do naufrágio do rebocador no início do mês, em Guarapari]. Temos que tomar providências imediatas porque podem acontecer outros naufrágios a qualquer momento. Essas jornadas com número insuficiente de tripulantes são um barril de pólvora!". 

A posição é demarcada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Aquaviário do Espírito Santo (Aquasind-ES), nas palavras do presidente, Antenor José da Silva Filho, ao anunciar a manifestação que a entidade realizou nesta sexta-feira (20), tomando todos os critérios de segurança para prevenir a transmissão do novo coronavírus (SARS-CoV-2).

Saindo às 8h de frente da Capitania dos Portos, os manifestantes seguiram até a frente da Assembleia Legislativa, na Enseada do Suá. em Vitória. O lema do protesto é "Já perdemos quase tudo, só falta perder o medo". Medo, explica Antenor, de "dizer não". "Quando diante do perigo e do desgaste, quando não dá pra fazer, dizer não!. Esse medo é que temos que perder e sermos profissionais. Se não tivermos condições, não vamos sair", orienta, reconhecendo, no entanto, que o desemprego tem levado os trabalhadores a ignorarem todos os avisos. 

"O aquaviário sacrifica a vida dele por causa do emprego. Com essa redução do tamanho das tripulações, o campo de trabalho reduziu mais ainda", diz, referindo-se a uma prática em curso no setor os últimos anos, de reduzir o tamanho das tripulações a menos da metade do que é estabelecido pela legislação, o que leva os tripulantes a um cansaço extremo e perigoso.

Na opinião de Antenor e da entidade que representa, essa foi a causa do naufrágio em que desapareceu o chefe de máquinas Eric Barcelos, no último dia primeiro de novembro, na altura da Ilha Escalvada, em Guarapari. Eric e a embarcação continuam desaparecidos e apenas os outros dois colegas conseguiram, até o momento, ser resgatados, ambos com vida.

"Acreditamos que ele esteja dentro da embarcação, pode ter ficado preso lá. A Marinha parou com as buscas, mas os aquaviários e os amigos dele continuamos. Estamos alugando barcos, já fizemos o quadrante de busca e no início da próxima semana o pessoal estará dando outra varredura na área, nas proximidades onde houve o fato", descreve.

Em paralelo, a Capitania dos Portos segue com o inquérito para descobrir o motivo principal do naufrágio. "Na minha opinião é o desgaste dos trabalhadores, o número reduzido de tripulantes, que sai pra navegar 15 a 16 horas sem ter com quem revezar", afirma Antenor, reiterando posicionamento feito à época da tragédia, ratificando, por sua vez, denúncias levantadas pelo Sindicato há três anos, desde que a redução das tripulações passou a ser praticada pelas empresas de navegação.

"Estamos numa escravidão branca. O aquaviário não está sendo chicoteado, mas está perdendo a saúde no dia a dia. Antes de se aposentar, já está entregue ao INSS. Muitos aquaviários estão entregues ao departamento médico, aposentados por invalidez ou esforço repetitivo", relata.

O Sindicato planeja fazer outras manifestações, possivelmente ainda este mês. "As autoridades ainda não se posicionaram e nós estamos aguardando isso", diz, não descartando uma "paralisação de alerta, pra que sintam que o aquaviário é importante, como o caminhoneiro é".

"Quando sentirem o tamanho da nossa importância, vão tomar providências. O aquaviário não é um turista bem remunerado, como disse o ex-presidente Collor. É um trabalhador escravizado", diz.

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