Domingo, 26 Junho 2022

Matriarca da cultura Bantu no Espírito Santo é homenageada

Matriarca da cultura Bantu no Espírito Santo é homenageada

No mês da Consciência Negra, a matriarca da cultura Bantu no Espírito Santo, Laura Felizardo, aos 90 anos, é mais uma vez agraciada com homenagens que enaltecem a herança histórica e cultura preservada por ela e sua família.



Laura é neta de Colodino Felizardo, que trouxe os ritmos do congo da África – Congo e Angola – para o Espírito Santo, implantando a cultura inicialmente em João Neiva, em um sítio na comunidade Morro do Feijão, onde a família ainda reside.



A primeira homenagem da série este ano aconteceu na última quarta-feira (14), com uma palestra de Paulo Fernandes, filho de Laura, no evento Desafios atuais do Brasil, na Universidade de Vila Velha (UVV).



Nesta segunda-feira (19), será a vez a Prefeitura Municipal de João Neiva, que prestará sua homenagem à matriarca, numa programação em honra também a outros mestres capixabas.



E na terça-feira (20), Dia da Consciência Negra, a Faesa de Cariacica abrirá suas portas para outra palestra de Paulo, dentro da programação do Diálogos Transversais, realizado em conjunto com o Sesc Glória.



A abordagem que dá em suas apresentações, conta Paulo, é sobre a narrativa histórica de Laura “e esse voto de louvor em homenagem à contribuição da matriarca da cultura Bantu no Estado, reconhecido como patrimônio material e imaterial em 2014 pelo Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Geográfico Nacional] e Secult [Secretaria de Estado da Cultura]”, diz.



Bailarino, coreógrafo e pesquisador de matrizes africanas com foco na cultura Bantu, Paulo tem acompanhado sua mãe em diversas outras homenagens prestadas, nos últimos anos, em câmaras de vereadores, Assembleia Legislativa e cinema.



“O reconhecimento dela dá visibilidade histórica e cultural neste Estado, onde 80% dos afrodescendentes não se reconhecem negros. Precisamos de ícones para esse reconhecimento”, pondera.



Autorreconhecimento



Paulo conta que essa referência à família Felizardo como responsável pela gênese do congo capixaba foi feita pioneiramente pelo escritor, professor e folclorista Guilherme Santos Neves, no seu livro Coletânea e Registros de Estudos do Folclore Capixaba.



“No Espírito Santo o congo é endêmico”, ressalta. Mas existem mais dez manifestações culturais sem esse reconhecimento como patrimônio material e imaterial: Jongo, Alardo, Marujada, Bate-flecha, Boi-pintadinho, Folia de Reis, Caxambu, Ticumbi, Reis de Boi e Bumba-meu-boi. E o congo, observa, “deveria ter um reconhecimento nacional”.



“É um complexo mosaico cultural”, classifica. “Falta investigação. Não há estudos nas instituições de ensino”, lamenta. E são pesquisas, estudos e investigações, ressalta Paulo, fundamentais para a identidade afro-capixaba e a (falta de) implementação de políticas públicas, especialmente a Lei 10.639/2003, que determina o ensino da cultura e história africana nas escolas.



“É importantíssimo! Somos herdeiros de um dos maiores patrimônios do mundo e não temos dimensão disso”, afirma, citando a Arquitetura, a Matemática, as tecnologias agrárias, a metalurgia, os utensílios domésticos, a música, a gastronomia, como um dos exemplos poucos associados à presença africana no Brasil e no Espírito Santo.Lembrando ainda, complementa o pesquisador em Bantu, que existem duas Áfricas: a mediterrânea e a subsaariana. “São 2.092 línguas, fora as dizimadas e os dialetos. A maioria dos materiais está na Europa, com utensílios, esculturas e objetos sagrados”, diz.



E dentro da África subsaariana, destaca, as três áreas de onde mais vieram escravos africanos para o Espírito Santo são Angola, Congo e Moçambique, com uma cultura bem diferente das áreas que enviaram africanos a Bahia e o Nordeste, como o Sudão e outras regiões mais interioranas. 



Consciência política



Homenagens como estas feitas a Laura Felizardo, esclarece Paulo, “são importantes porque proporcionam acesso ao conhecimento, que é um direito ligado à cidadania e nos faz restituir valores pra aumentar a nossa consciência e autoestima”.



“Isso é consciência negra!”, afirma. “É ter elementos pra saber de que lugar você fala, que eu chamo de id-entidades e que são representações culturais que a gente perdeu, que ficaram inconscientes. São instrumento de uma consciência política”, assevera.


 

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