Terça, 16 Agosto 2022

No Julho das Pretas, praça é tomada por arte, denúncia e desejo de transformação

ato_julho_das_pretas_fotoLeonardoSa Leonardo Sá

"Nunca foi fácil para as mulheres negras", disse a historiadora e integrante do Núcleo Estadual de Mulheres Negras, Renata Beatriz, na saudação à Tereza de Benguela, feita por ela no Ato pela Vida das Mulheres Negras, neste sábado (30), na Praça Costa Pereira, Centro de Vitória. Não foi fácil nem para dar início ao Ato, já programado, amplamente divulgado, mas que encontrou resistência de grupos religiosos que não queriam desligar a caixa de som e o microfone para garantir o direito de livre manifestação. Contudo, as mulheres negras fizeram valer a frase que diz que "a praça é do povo" e ecoaram suas vozes.

Leonardo Sá

O ato encerra a programação referente ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, celebrado nessa segunda-feira (25), e que contou com diversas atividades ao longo da semana. Nesta manhã, a praça foi tomada por arte, denúncia e desejo de "transformação verdadeira e profunda neste Estado, neste país". "Ocupamos a praça com nossa dor, com nossa luta. E nossa luta passa por mobilizar nosso afeto e nossa arte", diz a coordenadora do Círculo Palmarino e integrante do Núcleo Estadual de Mulheres Negras, Ana Paula Rocha.

Em um determinado momento da saudação a Tereza de Benguela, Renata recordou as griôs de Goiabeiras, ao repetir a fala de uma delas, que diz que para "as administrações de Vitória, o mangue sempre foi a parte de trás de Vitória, mas o mangue é nossa frente, nossa vitrine". Renata prosseguiu dizendo que as mulheres negras "subvertem a ilha de Vitória e tomam de assalto, com nossa presença, nossa voz, a frente dessa cidade para contar tantas histórias dessa ilha, dos quilombos do Sapê do Norte, sobre as negras do sul desse Estado que tem nome de fé, mas nos nega a paz tão pregada pela espiritualidade", diz.
Leonardo Sá

A praça também serviu de palco para apresentações artísticas. Na voz de Cíntia Caetano e Let's, Feijoada Completa, de Chico Buarque, virou Malagueta. Em vez da ordem expressa do compositor à mulher para "botar água no feijão", a resposta de quem não se submete e diz que "não vou chegar nem perto do fogão". No lugar da frase do homem que quer curtir a vida com os amigos e manda saltar "cerveja estupidamente gelada prum batalhão", a pulsão de vida de uma mulher que não abre mão de seus afetos, de suas amizades, e diz "vou tomar cerveja estupidamente gelada com o meu pelotão".

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O ato também foi momento de divulgação de um manifesto que denuncia o racismo e deixa claro o que as mulheres negras querem para o seu "bem viver". Conforme consta no manifesto, entre os estados do Sudeste, o Espírito Santo é o de maior expansão populacional. Dos 3,5 milhões de habitantes, 1,78 milhões são mulheres. Em meio aos capixabas, de acordo com o Núcleo, com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a quantidade de pessoas que se declaram negras é de 56,94%, sendo 48,62% pardos e 8,32% pretos.

O Núcleo denuncia "a falta de suporte de serviços presenciais, a taxa de desemprego nas alturas, a falta de auxílios socioassistenciais e a fome", que "são elementos que atingem principalmente as mulheres e, mais ainda, as mulheres negras".

O documento prossegue destacando que "a pandemia tornou muitas cativas de seus lares, da vida doméstica e de seus agressores. O racismo não está só na estrutura do estado. Temos o racismo institucional nas políticas públicas, mais particularmente, na ausência delas para a população negra e em especial, para as mulheres negras".

O Núcleo reivindica trabalho digno e "respeito à nossa humanidade; às práticas religiosas de matriz afro, que contam a história do negro e da negra nesse país". Também luta para que "todas as mulheres e meninas pretas neurodiversas, com algum tipo de deficiência, tenham acesso digno à escola, à saúde e ao acompanhamento em serviços públicos de modo adequado e orientado"; e pela "construção de uma agenda que combata o feminicídio sem considerar os agressores apenas em sua perspectiva individual, mas sim reconhecendo o machismo como pilar estruturante desta sociedade em que vivemos".

Por meio do documento, as mulheres negras defendem ainda o direito a "territórios quilombolas reconhecidos e titulados, para que nossas companheiras negras possam viver e criar como legítimas cidadãs brasileiras"; e que o município de Vitória, "que criou uma das leis mais antigas de captação de recursos do Brasil: a Lei Rubem Braga, volte a respeitar os trabalhadores da cultura e pare de perseguir as manifestações culturais negras desta cidade".

No que diz respeito a essa reivindicação, a coordenadora estadual do Círculo Palmarino, Ana Paula Rocha, destaca que existe uma "criminalização da cultura preta e periférica", com atitudes como policiamento da Ronda Ostensiva Municipal (Romu), "com armas de cano longo e abordagem violenta à juventude negra"; a apreensão do som do Bar da Zilda na terça-feira de carnaval; e a multa aplicada ao bloco AfroKizomba em abril de 2022, na descida da Rua Sete, no Centro de Vitória. "O bloco fez todo o trâmite necessário para ir às ruas, mas a prefeitura negou, porém, a gente manteve, pois a rua é do povo", ressalta.

O documento finaliza a parte das reivindicações destacando a necessidade da "presença do estado nas comunidades periféricas, não essa que tem ceifado a vida dos nossos filhos e nossa sanidade mental"; "um país que caiba em nossos sonhos de igualdade, sabedoria e respeito"; "a inclusão dos acervos de metodologia afrocentrada e periférica nas escolas e universidades e uma maior representatividade no corpo docente"; "a ampliação da democracia, ocupar espaços de poder e o fim da violência política de gênero".

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