Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) anuncia pressão sobre parlamentares

O movimento Vida Além do Trabalho (VAT) inicia este ano com a missão de intensificar as ações de rua e ampliar a pressão popular pelo fim da escala de trabalho 6×1, em um contexto de forte contradição entre as demandas da classe trabalhadora e decisões recentes do Congresso Nacional, como avalia a coordenadora estadual Júlia Alves, que iniciou a organização no Espírito Santo. Enquanto propostas que reduzem a jornada para trabalhadores seguem travadas ou avançam lentamente, servidores do Senado e da Câmara foram beneficiados por aprovação dos deputados, em ritmo acelerado, de reajustes salariais, novas gratificações e regras mais flexíveis de jornada, incluindo a adoção da escala 3×1.
O pacote de projetos foi aprovado na semana passada e vai permitir que servidores ganhem acima do teto constitucional, além de prever a criação de uma licença vinculada à jornada, em que os servidores terão direito a um dia de folga a cada três dias trabalhados, com limite de até dez dias por mês. Essa folga, inclusive, poderá ser indenizada, permitindo o pagamento do benefício em dinheiro.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou ainda, na imprensa nacional, que pretende aumentar a verba de gabinete dos parlamentares. Atualmente, cada um dos 513 deputados federais tem direito a R$ 133 mil mensais para custear até 25 secretários. Esse valor deve subir para R$ 165 mil. Motta afirmou que o aumento seria necessário para cobrir os reajustes dos servidores, sob risco de demissões nos gabinetes. A medida será formalizada por ato da Mesa Diretora, sem necessidade de votação em plenário.
Para o VAT, a aprovação dessas medidas explicita a oposição de interesses entre o Congresso e a realidade da maioria da população, “enquanto questões muito mais importantes para o povo ficam engavetadas”, critica Júlia. Ela avalia que a sequência de decisões antipopulares tomadas pelo Parlamento tende a fortalecer a mobilização social em favor da escala 6×1. “É uma notícia pior do que a outra. Isso acaba unindo mais pessoas para ir às ruas contra esses absurdos”.
A coordenadora do VAT no Estado afirma que, mesmo sem uma data definida para um ato nacional unificado, a perspectiva é de intensificação das ações ao longo do ano, com possibilidade de novas mobilizações ainda nos próximos meses, em especial do feriado do Dia do Trabalhador, em 1º de maio, a exemplo do que ocorreu no último ano.
Entre as medidas que tratam da luta dos trabalhadores do País, está a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2015, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), que propõe a redução gradual da jornada semanal de 44 para 36 horas, com escala 5×2, aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado na primeira quinzena de dezembro de 2025. Para Júlia Alves, o avanço só ocorreu por pressão direta do movimento. “A redução da jornada é debatida há muitos anos, mas nada foi feito. Só agora começou a andar, porque o VAT fez uma pressão enorme”, reitera.
Apesar de reconhecer avanços, ela critica o caráter gradual da proposta. “Esperar ano após ano é esperar tempo demais. A classe trabalhadora está adoecida e não pode esperar”, aponta. A defesa do movimento segue sendo uma escala 4×3, com no máximo 36 horas semanais, considerada mais compatível com “uma vida que vá além do trabalho”.

A principal proposta alinhada às reivindicações do movimento é a PEC 8/2025, apresentada pela deputada federal Erika Hilton (Psol-SP), que prevê jornada de quatro dias por semana e limite de 36 horas semanais. No entanto, o relator da proposta, deputado Luiz Gastão (PSD-CE), apresentou um parecer que descaracteriza o texto original ao propor apenas a redução gradual da jornada para 40 horas semanais, o que mantém, na prática, a lógica da escala atual. A falta de consenso tem adiado votações e ampliado a insatisfação dos movimentos sociais.
A coordenadora do VAT defende que o governo federal trate a pauta como prioridade e use seu peso político para disputar a narrativa pública, além de pressionar deputados e senadores pela aprovação da redução da jornada. Júlia enfatiza que é preciso combater o discurso empresarial de que o fim da escala 6×1 “quebraria a economia” e debater como a redução da jornada pode, ao contrário, estimular o crescimento econômico e reduzir o adoecimento da classe trabalhadora.
No Espírito Santo, ela destaca mudanças perceptíveis na recepção popular desde o início das ações de rua, há dois anos. “As pessoas passaram a ter mais consciência do valor do próprio trabalho. Não aceitam mais qualquer coisa”, afirmou Júlia. Esse processo de politização, acrescenta, ajuda a explicar, inclusive, o discurso empresarial sobre suposta falta de mão de obra.
O debate sobre a jornada também tem impacto direto na saúde dos trabalhadores. Dados apresentados pelo VAT em audiência pública na Assembleia Legislativa mostram que 65,8% dos trabalhadores formais do país estão na escala 6×1, sendo que 65% recebem até dois salários mínimos. Em 2024, mais de 440 mil brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais, o maior número da última década, com crescimento de 67% em relação a 2023.
Transtornos de ansiedade, episódios depressivos e burnout lideram os afastamentos, evidenciando, segundo o VAT, que a discussão sobre a jornada não é apenas econômica, mas também social e de saúde pública. “O movimento quer tirar os trabalhadores do modo sobrevivência. Vida Além do Trabalho não é só um nome, é um projeto de sociedade”, concluiu Júlia.
Diante desse cenário, o VAT avalia que 2026 será um ano decisivo. Com o Congresso ampliando privilégios internos e a pauta do fim da escala 6×1 ainda sob disputa, o movimento aposta na mobilização permanente como principal instrumento para forçar avanços e manter a pressão sobre parlamentares e o governo federal.

