Ativista Layza Lima, da Serra, destaca saúde integral e escuta como demandas centrais

As dificuldades de acesso à saúde integral, a falta de políticas públicas que considerem as especificidades das pessoas trans e não binárias e os obstáculos para inserção no mercado de trabalho seguem entre as principais demandas da população trans em municípios do Estado – conforme apontam ativistas do movimento LGBTQIA+. Em alusão ao mês da visibilidade trans, celebrado em janeiro, coletivos e fóruns realizam atividades que abordam esses temas na Serra e em Vitória, na região metropolitana; e em Anchieta, no litoral sul do Estado.
O Fórum LGBTQIA+ da Serra realizará, no próximo dia 30 de janeiro, a atividade “Café Travessias do Ser – Encontro de Vivências Trans e Não Binárias”. A programação acontecerá das 8h às 12h, na Unidade Regional de Saúde (URS) de Boa Vista, espaço onde funciona o Ambulatório Municipal de Pessoas Trans. A ação é aberta à comunidade trans, travesti e não binária, além de familiares e público em geral.
Segundo o movimento social, apesar dos avanços, um dos pontos centrais da reivindicação é o fortalecimento do Ambulatório Municipal de Pessoas Trans, que funciona na Atenção Primária à Saúde. A conselheira municipal de saúde da Serra, Kael Lopes, afirma que ainda há lacunas no atendimento, especialmente no que diz respeito à ampliação da equipe multiprofissional, à qualificação permanente dos servidores e à superação de práticas discriminatórias que afastam usuários do serviço público.
Para ela, um dos problemas estruturais enfrentados pela população trans no Sistema Único de Saúde (SUS) é o funcionamento baseado em um modelo binário de gênero. Essa lógica, explica, acaba restringindo o acesso a especialidades médicas e procedimentos essenciais. Mulheres trans, por exemplo, enfrentam dificuldades para serem atendidas em serviços de ginecologia, enquanto homens trans encontram barreiras semelhantes para acessar esse tipo de cuidado. Já pessoas não binárias, em muitos casos, sequer conseguem ser incluídas nos fluxos de atendimento existentes.
Kael também chama atenção para falhas no planejamento das políticas públicas, como metas de saúde que consideram apenas mulheres cis em ações voltadas à gestação, ao câncer de mama ou a outros acompanhamentos preventivos. Para ela, esse cenário reforça a necessidade de revisão dos planos municipais de saúde e de escuta ativa das pessoas diretamente impactadas. “A política pública não pode ser pensada apenas a partir do que o gestor acredita que é necessário, mas do que as pessoas vivem e precisam”, avalia.
Layza Lima, vice-presidenta do Fórum LGBTQIA+ da Serra, explica que o encontro tem como objetivo criar um espaço de acolhimento, troca de experiências e construção coletiva de demandas, em que a saúde da população trangênero é defendida a partir de uma perspectiva integral, que considera também o enfrentamento aos processos de exclusão e acessos a políticas que promovam bem estar. Para ela, a iniciativa vai além do atendimento técnico em saúde. “Nós falamos muito do serviço, do procedimento, mas esquecemos de pensar nas vivências, nos afetos e em como as pessoas se enxergam dentro dessas políticas”, afirma.
Layza destaca que o ambulatório já funciona há cerca de um ano e atende aproximadamente 148 pessoas, incluindo famílias que buscam acolhimento. Segundo ela, o café da manhã coletivo foi pensado como um momento simbólico de encontro e escuta, capaz de aproximar a população do serviço e estimular o diálogo sobre expectativas de futuro, vivências sociais e análises políticas das pessoas trans e não binárias. “A política pública precisa ser construída a partir das pessoas. Esse encontro é para entender como elas veem as políticas acontecendo e o que ainda precisa mudar”, reforça Layza. A atividade conta com apoio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e da Secretaria Municipal de Saúde da Serra.
Anchieta e Vitória
As demandas por saúde integral, educação e empregabilidade também orientam a programação “Corpos e Vozes”, que acontecerá no próximo dia 28 de janeiro, a partir das 8h30, no Centro Cultural de Anchieta. O evento é organizado pelo Coletivo de Diversidade Sexual e de Gênero de Anchieta (Coletodes), em parceria com o poder público municipal, e propõe um dia inteiro de atividades voltadas ao fortalecimento do protagonismo trans e travesti.
De acordo com Marcos Nascimento, integrante do Coletodes, a programação inclui mesas de debate sobre educação e mercado de trabalho, além de uma mesa dedicada ao tema da saúde integral e dass políticas públicas. Também estão previstas apresentações culturais, rodas de diálogo e uma roda de cuidados conduzida por educadores populares.
Segundo Marcos, a empregabilidade aparece como a principal demanda da população trans no município, seguida pelo acesso a serviços de saúde especializados. Ele avalia que, apesar da lentidão característica do poder público, Anchieta tem registrado alguns avanços importantes, como a inclusão de eventos LGBTQIA+ no calendário municipal, melhorias no atendimento em unidades de saúde e a previsão de implantação de um ambulatório trans no município ainda este ano.
Outro ponto destacado é a ampliação das ações de prevenção em saúde sexual. Atualmente, o município oferece PEP (profilaxia pós-exposição ao HIV) e deve iniciar a oferta da PrEP (profilaxia pré-exposição) nos próximos meses. Para o movimento social, essas medidas representam passos importantes, mas ainda insuficientes diante das múltiplas vulnerabilidades enfrentadas pela população trans.
Em Vitória, o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades do Espírito Santo (Ibrat-ES) promoverá um piquenique no próximo dia 1º de fevereiro, às 14h, no Parque Pedra da Cebola, em Jardim da Penha. O objetivo é aproximar a comunidade trans e construir um espaço de troca de experiências e afirmação do orgulho transgênero, fortalecendo processos de resistência às opressões estruturais enfrentadas pela população transgênero.

