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Trabalhadores vão intensificar mobilização contra escala 6×1 no Estado

Movimentos reagem à pressão empresarial e de políticos para barrar mudanças

Leonardo Sá

Trabalhadores de todo o Brasil têm sido convocados a fortalecer as atividade de mobilização pelo fim da escala 6×1 (seis horas trabalhadas por um dia de descanso) e pela redução da jornada de trabalho sem redução de salários. No Espírito Santo, o movimento Vida Além do Trabalho (VAT) vai intensificar as atividades de rua para dialogar com a população nas próximas semanas. A estratégia é oferecer escuta e fortalecer a união em defesa da aprovação da Proposta de Emenda Constituição (PEC) que prevê a revisão da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).

Nacionalmente, um ato unificado foi convocado para este sábado (20), mas a organização estadual se organiza para as manifestações do próximo mês. As mobilizações em todo o País ocorrem em meio a um cenário de articulações políticas e econômicas contrárias à proposta de mudança na jornada de trabalho, como destaca um dos coordenadores do núcleo capixaba, Vinícius Machado.

“A direita, setores empresariais e a grande mídia têm se organizado para barrar o fim da escala 6×1. A gente precisa ficar atento a essas movimentações em Brasília, cobrar os parlamentares, mas, acima de tudo, se mobilizar para garantir que essa mudança aconteça ainda neste primeiro semestre”, afirma.

O movimento avalia que há uma ofensiva articulada, incluindo a atuação de parlamentares ligados ao setor empresarial e a repercussão de posicionamentos contrários em veículos de comunicação. No Espírito Santo, entidades empresariais também têm se posicionado publicamente sobre o tema, com o discurso de impactos econômicos da redução da jornada. Como exemplo, o VAT cita manifestações da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), que aponta “aumento de custos” e “riscos à competitividade”.

A representação empresarial cita dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o Observatório Nacional da Indústria, para argumentar que a medida vai elevar os gastos com empregados formais na economia e tende a reduzir a produtividade das empresas, que teriam custo adicional de R$ 4,4 bilhões ao ano. Afirma, ainda, que o Estado possui 636,9 mil vínculos empregatícios formais com carga horária entre 41 e 44 horas semanais.

“Esse número representa 57,9% de todos os empregos formais do Estado. Com isso, a média de carga horária capixaba está em 40,34 horas semanais. Com a redução da jornada, as empresas precisariam compensar essas horas de duas formas: pagando horas extras para os colaboradores ou contratando mais pessoas” aponta a Findes em nota publicada no site oficial.

Para o VAT, esse tipo de argumento ignora a realidade vivida pela classe trabalhadora. “Quando se fala em acabar com a escala 6×1, o trabalhador fala de cansaço. As entidades empresariais falam de custo. Em nenhum momento aparece o risco de seguir adoecendo quem sustenta tudo isso. Não existe economia saudável baseada na exaustão”, critica, classificando a atuação do setor empresarial como “terrorismo econômico”.

Vitor Taveira

Na Assembleia Legislativa, a deputada estadual Camila Valadão (Psol) levou o tema ao plenário novamente nas últimas semanas e defendeu o fim da escala 6×1 como medida de proteção à saúde dos trabalhadores. “Não é a economia que quebra com o descanso. O que quebra é a saúde do trabalhador com o esgotamento”, afirmou. A parlamentar também apresentou o Projeto de Lei 635/2024, que propõe proibir a adoção da escala 6×1 em contratos e concessões no âmbito do Estado.

Segundo o VAT, a pauta tem enfrentado resistência também no cenário nacional, com manifestações públicas de lideranças políticas alinhadas a setores empresariais. O movimento cita articulações como as do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e dos governadores Ratinho Júnior (PSD-PR), Eduardo Leite (PSD-RS) e Ronaldo Caiado (PSD-GO).

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), também é apontado como responsável por travar a tramitação na Casa. No último mês de dezembro, ele declarou à imprensa que o projeto seria votado no início do retorno dos trabalhos legislativos, em fevereiro, porém a comissão ainda aguarda a votação na Comissão de Constituição e Justiça, presidida por Paulo Azi (União-BA).

Apesar de o governo Lula (PT) dizer que a pauta se tornou prioridade em seu governo, ainda há dúvidas sobre qual será o teor da proposta a ser deliberada, e é possível que a redução da jornada não contemple o que defendem os movimentos sociais no Espírito Santo e no Brasil.

Para os organizadores do ato unificado nacional, a mobilização é fundamental para pressionar o Congresso e garantir avanços na pauta ainda em 2026. “A luta por melhores condições de trabalho, mais tempo de vida e dignidade precisa da participação de todos e todas. É hora de fortalecer a mobilização e pressionar o Congresso”, reforça Vinícius.

Além do ato nacional, o VAT afirma que seguirá promovendo ações de base nas próximas semanas, ampliando o diálogo com trabalhadores em diferentes territórios. A palavra de ordem, segundo o movimento, é “reduzir a jornada, preservar salários e garantir mais tempo de vida para quem trabalha”.

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