Após Justiça barrar greve, categoria reafirma críticas à gestão de Enivaldo dos Anjos
Na manhã desta quarta-feira (15), feriado escolar do Dia dos Professores o magistério de Barra de São Francisco, no noroeste do Estado, se uniu em passeata pelas avenidas principais da cidade para
reivindicar valorização profissional, respeito e salário digno. A categoria tem denunciado o descumprimento do pagamento do piso nacional e chegou a deflagrar uma greve no último mês de agosto, mas o movimento foi suspenso por decisão judicial antes mesmo de começar.
Com faixas, cartazes e palavras de ordem, os trabalhadores denunciaram as condições salariais e estruturais da rede pública municipal. Entre as principais pautas do protesto estão as distorções salariais que persistem no município, onde os vencimentos básicos ainda não refletem o valor estabelecido pela lei federal que fixou o valor de mínimo de remuneração em R$ 3.042,36 para jornadas de 25 horas semanais. O salário básico do magistério em Barra de São Francisco é de apenas R$ 1.314,78. Para professores com graduação, R$ 1.765,40.

O diretor regional norte/noroeste do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes), Rodrigo Agapito, explica que apesar da gestão de Enivaldo dos Anjos (PSB) afirmar que não está em desacordo com a lei, o valor mínimo só é alcançado a partir de complementações, o que prejudica a carreira dos professores. Segundo o Sindiupes, a defasagem acumulada já ultrapassa 130%, porém o prefeito alega que a defasagem é responsabilidade dos seus antecessores.
O sindicato cobra da prefeitura a adequação imediata da tabela de vencimentos, bem como a implementação de uma política de progressão funcional transparente e contínua. “Defendemos que haja progressão de carreira clara, com critérios garantidos para o aumento do salário conforme o tempo de serviço e a formação acadêmica — que respeite a nossa graduação, a nossa pós-graduação, o nosso mestrado, o nosso doutorado, tudo aquilo que o professor estuda ao longo da sua carreira inteira”, destacou.
Durante a passeata, faixas com frases como “Educação se faz com respeito” e “Sem valorização não há futuro” expressaram o vínculo entre a valorização docente, o direito à qualidade da educação pública e a própria defesa da democracia. Os profissionais carregaram flores e livros simbolizando o compromisso com o conhecimento e a esperança, enquanto outros entoavam cânticos e coros que relembravam lutas históricas da categoria, como a conquista do piso nacional e o fim do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), denunciado por fraudes.
Educadores vindos de cidades vizinhas, como Água Doce do Norte, Mantenópolis e Ecoporanga, também participaram da mobilização, reforçando o caráter regional da luta diária dos docentes, que denunciam ainda salas superlotadas, baixos salários e falta de estrutura adequada para o ensino.
Até o final da manifestação, a Prefeitura de Barra de São Francisco não havia se manifestado sobre as reivindicações apresentadas nem respondido aos pedidos de reunião feitos pelo sindicato, que classificou o silêncio do executivo municipal como “desrespeito e descaso com a categoria”. Novas ações públicas devem ocorrer nas próximas semanas, caso as demandas continuem sendo ignoradas.
O ato desta quarta-feira é a continuidade de uma série de mobilizações que os professores da rede municipal têm realizado, mesmo diante das restrições impostas ao movimento paredista, afirmou o representante do Sindiupes. Rodrigo destaca que os educadores mantiveram a organização, realizando assembleias, atos públicos e caminhadas em diferentes bairros e espaços institucionais para chamar a atenção da população para o pleito da categoria.
No último mês de setembro, profissionais ocuparam a Câmara Municipal para cobrar do Executivo e do Legislativo o compromisso com o cumprimento do piso e a abertura de diálogo sobre a carreira. Desde então, o sindicato tem reiterado pedidos de audiência e encaminhado documentos com as demandas da base, sem retorno satisfatório da prefeitura.
O sindicalista sustenta que não se trata apenas de recompor perdas salariais, mas de construir uma política de valorização efetiva, que estimule a permanência e o crescimento profissional dentro da rede pública. “A carreira docente precisa ser um projeto de vida digno, e não um sacrifício”, completou.
O Sindiupes ressalta que a luta se conecta com o cenário de subvalorização estrutural da profissão docente em todo o Estado. Apenas 26 dos 78 municípios capixabas cumprem integralmente o piso nacional do magistério. “Nós, educadores, somos formadores de todas as outras profissões. Se não houver investimento na educação pública e na valorização do magistério, todo o conjunto da sociedade perde”, acrescenta Rodrigo Agapito.

