Sindiupes reconhece avanços no MEC, mas aponta valor insuficiente e achatamento da carreira

O ministro da Educação, Camilo Santana, vai entregar as primeiras unidades da Carteira Nacional Docente do Brasil (CNDB) e dos vales-computador do programa Mais Professores para o Brasil em Vitória, nesta terça-feira (10), no campus de Goiabeiras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). O benefício, no valor de R$ 3 mil para aquisição de notebooks, tablets ou computadores, tem como objetivo auxiliar professores na compra de equipamentos tecnológicos e ampliar as condições de trabalho da categoria.
O Ministério da Educação (MEC) defende que a carteira docente representa um reconhecimento formal da profissão e possibilita o acesso a uma série de benefícios, como convênios com hotéis, instituições bancárias e oportunidades de formação continuada.
O documento é destinado a professores da educação básica, do ensino superior e também da rede privada. O vale-computador integra o programa Reconhecimento Mais Professores, iniciado em 2025, e tem como critérios o exercício da docência desde 2024, a atuação em escolas com bom desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e o vínculo à CNDB.
O dirigente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes), Gean Carlos Nunes, afirma que a iniciativa foi bem recebida pela categoria, embora o valor anunciado seja considerado insuficiente para a compra de equipamentos de melhor qualidade.
“A categoria se sentiu um pouco mais valorizada. A carteira nacional docente é um reconhecimento da profissão. Médicos e advogados sempre tiveram uma carteira, e os professores não. O vale foi um alento, mas um computador realmente bom custa bem mais que R$ 3 mil. A expectativa é de que, numa próxima edição, o governo consiga melhorar esse valor e ampliar o alcance do programa”, avalia.

A agenda institucional do ministro marca o início do ano letivo de 2026 e divulga as principais políticas educacionais implementadas pelo MEC últimos três anos. Além da entrega dos benefícios tecnológicos aos professores, a visita inclui vistorias em obras de instituições federais e a posse da nova reitora do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).
No período da tarde, às 14h, Camilo Santana segue para o Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam/Ufes), onde visita as obras do Centro de Pesquisas Clínicas e a ampliação do Pronto-Socorro e da Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Durante a agenda, o ministro participa do descerramento da placa de inauguração do equipamento de Raio-X Telecomandado e assina a Ordem de Serviço para a reforma do espaço que irá abrigar o Banco de Leite Humano da unidade. As intervenções fazem parte do pacote de investimentos federais em hospitais universitários.
A agenda oficial termina no campus Vitória do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), com uma visita ao Laboratório de Fabricação Digital e Prototipagem (IF Maker). Na sequência, o ministro dá posse à nova reitora da instituição.
A passagem de Camilo Santana pelo Espírito Santo ocorre em um contexto de divulgação dos resultados da gestão do MEC desde 2023. Em pronunciamento nacional realizado nesse último domingo (8), o ministro destacou avanços como a ampliação da conectividade nas escolas públicas, que saltou de 45% em 2023 para cerca de 70% em 2026. Segundo ele, aproximadamente 96 mil escolas já contam com internet adequada para uso pedagógico.
O ministro também ressaltou a retomada de mais de seis mil obras educacionais paralisadas em todo o país e a entrega de mais de 2.250 unidades escolares, entre escolas, creches e quadras esportivas. Outro destaque foi a expansão da educação integral, que passou de iniciativas em 17% dos municípios, em 2023, para 91% das cidades brasileiras em 2026.
Apesar do balanço positivo apresentado pelo governo federal, a avaliação da categoria docente é mais cautelosa. Gean Carlos Nunes chama atenção para o que classifica como “achatamento da carreira”, especialmente no que diz respeito à política de reajuste salarial. Segundo ele, embora o MEC esteja elaborando uma proposta de reajuste do piso do magistério em torno de 5,4% para 2026, a aplicação do índice não atinge todos os profissionais.
“A luta agora é para que o Estado aplique esse reajuste para todo mundo, o que historicamente não faz”, afirma o dirigente. De acordo com ele, professores que recebem acima do piso nacional acabam ficando fora das correções anuais. “Quem tem mestrado, doutorado ou mais de dez anos de carreira costuma ser excluído. O piso hoje gira em torno de R$ 3.200, e quem ganha acima disso não recebe reajuste”, explica.
O sindicalista destacou que professores da rede estadual com mestrado, por exemplo, recebem cerca de R$ 4.600 e não são contemplados pelo reajuste percentual, o que, segundo ele, desestimula a formação continuada e aprofunda a desvalorização profissional. “A valorização de fato, o salário, ainda deixa muito a desejar”, resume.
Para o Sindiupes, iniciativas como a Carteira Nacional Docente e o vale-computador representam avanços pontuais em um contexto de desvalorização histórica e achatamento da carreira, mas não substituem a necessidade de uma política estruturante de valorização salarial. “O Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer na valorização do docente”, reitera Gean Carlos Nunes.

