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Sexta, 23 Outubro 2020

‘Estado precisa financiar equipamentos, internet e formação de professores e alunos’

liu_katrini_divulgacao Divulgação

Qual é o investimento estatal necessário para viabilizar um ensino remoto que desafogue as famílias da tarefa de educar as crianças e adolescentes durante a pandemia? 

Quantos notebooks, planos de internet e formações em tecnologias educacionais precisam ser financiadas para que os professores possam lecionar sem ter que adoecer pela sobrecarga de trabalho e frustração pelo não aprendizado de seus alunos, nem ter que pagar do próprio bolso por aplicativos e equipamentos indispensáveis ao ensino remoto?

Quantos tablets, pacotes de dados, formações e serviços sociais precisam ser oferecidos aos estudantes e suas famílias, para que os mesmos possam desenvolver os estudos diários a partir de suas casas, em salas de aula virtuais que garantam a autonomia do estudante, resguardando à família o papel de apoiar e acompanhar o desempenho ao invés de ministrar as aulas ou, pior, assistir, impotentes, à exclusão dos seus no processo de aprendizado durante o necessário distanciamento social? 

Essas são perguntas essenciais, que deveriam ter sido feitas pelo governo do Estado no início do ano, antes da pandemia se instalar oficialmente no Espírito Santo, a exemplo do planejamento que foi feito para a Saúde, que estabeleceu um plano de expansão da rede hospitalar que evitou o colapso da rede de saúde. 

"Tivemos uma verba pra Covid e ela não foi destinada pra educação. E deveria ter sido destinada. Educação não é prioridade neste governo", avalia a professora da rede estadual Liu Katrini, integrante do Coletivo Sindiupes pela Base – uma dissidência do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Espírito Santo (Sindiupes).

Apesar da municipalização em massa do ensino fundamental ocorrida no Espírito Santo nos últimos anos, o Estado ainda tem responsabilidade sobre o setor, segundo o regime de colaboração estabelecido na Constituição federal e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), explica a educadora.

Além disso, a arrecadação estadual é muito maior que a da maioria dos municípios, que precisam de subsídios do Estado pra financiar a educação remota. "Os municípios não fazem essa cobrança, foi muito ruim essa municipalização no Espírito Santo", diz.

Em decorrência da falta de planejamento estadual, as redes municipais também ficaram à deriva. "A maioria das redes não pensaram em políticas para o período da pandemia, foram e continuam fazendo ações paliativas, reativas", observa, citando por exemplo as trocas seguidas de plataformas feitas em poucos meses, como Vitória, que já está experimentando a terceira plataforma.

Meios tecnológicos, internet e formação. A partir desses três pilares garantidos aos professores, poderia ser feita uma busca ativa entre os estudantes para identificar quem não possui internet e equipamentos e efetuar uma compra em grande quantidade, com menores custos, a exemplo da internet mensal para alunos, que sai para o governo ao custo de R$ 9,00/mês/aluno. "Políticas intersetoriais. Assistência social, Vara da Infância e CRAS [Centro de Referência em Assistência Social]", indica.

Órgãos públicos e dinheiro para esse planejamento e execução existem, afirma a educadora. "Temos visto várias rubricas pra construção de escolas, pavimentação e muitas outras obras porque é ano eleitoral e os vereadores e prefeitos querem se promover. Deveria haver uma transferência de rubrica pra educação", sugere. "É muito dinheiro destinado pra coisas que não vão ter efetividade", repudia. 

Assembleia popular

Enquanto o Estado não cumpre seu dever constitucional, conta Liu Katrini, "nós professores vamos dando um jeitinho". "Pegando aparelho emprestando, comprando cartão de memória, lousa digital, pacote de edição de vídeo, aplicativos pra fazer aula", enumera. "Os próprios professores estão financiando o ensino remoto do Estado", expõe. E a população, por sua vez, não conhece seus direitos, e acaba também se virando como pode.

A necessidade de financiamento das condições necessárias para um ensino remoto minimamente funcional, até que seja possível retornar com as aulas presenciais com segurança, a partir da popularização da vacina contra a Covid-19, promete ser um dos temas em debate durante a Assembleia Popular Educação em Tempos de Pandemia: Realidades e Desafios, que acontece desde a última terça-feira (11), com participação de nomes como o do líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) João Pedro Stédile. A plenária final será neste sábado (15), de 15h às 17h. 

Iniciativa da Frente Popular em Defesa do Direito à Educação, a Assembleia deve produzir, durante a plenária final, um documento com encaminhamentos feitos pelos participantes e sugestões para o processo de educação durante a crise do coronavírus. 

"Várias entidades que compõem a assembleia popular compõem também o Fórum Estadual de Educação e poderão levar esses encaminhamentos pra lá", diz Liu.

Diálogo horizontal

Para o professor Demian Cunha, membro do Coletivo Luta Unificada dos Trabalhadores da Educação do Espírito Santo (Lute-ES), o ponto central da Assembleia é o retorno presencial. "Vários estados e países estão tendo que fechar de novo as escolas", contextualiza, destacando Israel e o Amazonas.

Há também a necessidade de garantir um "processo dialógico horizontal" de tratativas com a Sedu do secretário Vitor de Angelo. "Muito do que chega aos professores é publicizado primeiro pelos grandes jornais. "A escola é a última a saber", testemunha.

O resultado do acúmulo de tantos erros e omissões e da total ausência de prioridade e planejamento da educação é a constatação de que "não está ocorrendo ensino nem aprendizado", afirma Liu. "A gente entrou nessa insanidade de transferir a responsabilidade do ensino pra família", dispara.

"A maior parte dos estudantes não faz as atividades", concorda Demian. "Me reúno com meus estudantes uma vez por semana durante uma hora. São em média 25 alunos por turma, em sete turmas. Desses 175, aparecem dez a doze apenas. Alguns eu sei que estão trabalhando pra ajudar em casa, porque os pais perderam o emprego", relata.

Para Liu Katrini, a decisão de unificar os anos letivos de 2020 e 2021 é acertada, mas da forma como foi feita, considerando o que tem sido feito até agora como ano letivo, é um grande erro. "O prejuízo já está acontecendo, porque vai haver aprovação sem aprendizagem", repudia. "Isso é desconsiderar o direito à educação", denuncia.

"O que a gente precisaria pra esse momento? Melhorar o que está acontecendo, sem considerar como ano letivo. E pra melhorar precisa de subsídios do governo", reafirma. "Subsidiar os meios tecnológicos da comunidade escolar nesse momento é investimento. No pós-Covid vai ficar uma educação de mais qualidade. Eu tenho certeza que se o professor aprender a edição de um vídeo, a fazer uma atividade e tiver as condições, futuramente ele vai fazer as aulas ficarem muito mais prazerosas", afirma.

O investimento no aluno também é permanente, acentua. "A gente tinha a ilusão de que os adolescentes e jovens já acessam as tecnologias, mas a gente descobriu na pandemia que o que eles sabem usar é rede social, não tecnologia educacional. Há muitas dificuldades de acesso às plataformas. Tinha alunos que não sabiam utilizar word. Foi um choque de realidade pra todos nós", conta.

Muitos professores também estão tendo seus primeiros contatos com a tecnologia da informação e da educação. "Às vezes eu fico o dia inteiro ajudando colegas, passando tutorial. As pessoas não conseguem mesmo. São excelentes professores, mas nunca precisaram da tecnologia, então não sabem. O professor tem carga horaria muito pesado, às vezes são 10 ou 12 horas fora de casa. Nenhum estado ou município investiu em formação. Quando é formação que não é em horário de trabalho, a maioria não faz, porque já traz trabalho pra casa, pautas, provas. Se não for formação em serviço, muitos não fazem", descreve a líder sindical.

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