Coordenador do DCE, Pedro Lucas, entregou carta a Camilo Santana em agenda na Ufes
O movimento estudantil entregou uma carta com uma série de reivindicações durante a visita do ministro da Educação, Camilo Santana, a Vitória, nessa terça-feira (10). O documento, assinado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), apresenta sete demandas consideradas urgentes pela comunidade acadêmica: contratação imediata de professores; ampliação da moradia estudantil; reajuste de bolsas acadêmicas; criação de creches universitárias; apoio à criação de uma Universidade Estadual do Espírito Santo (UEES), regulamentação da contratação de intérpretes de Libras; e revogação de normas que restringem esses cargos.
O diretório afirma se dirigir ao ministro “em nome dos mais de 20 mil estudantes” da Ufes, destacando que as demandas apresentadas “refletem as reivindicações coletivas da comunidade acadêmica capixaba”. Um dos principais pontos levantados é o déficit de docentes na instituição, especialmente nos cursos criados no âmbito do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni).
Segundo o documento, a Ufes enfrenta um “grave déficit de docentes”, situação que teria se agravado nos cursos implantados durante a expansão universitária, a exemplo do de Terapia Ocupacional, no campus de Maruípe, que atualmente conta com apenas 13 professores efetivos.

De acordo com a carta, a insuficiência de docentes gera “prejuízo à formação” e impacta não apenas estudantes com matrícula ativa, mas também futuros ingressantes. O texto aponta que, no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) de 2026, o curso não esteve disponível para inscrição. Diante desse cenário, os estudantes exigem “a imediata convocação de concursos públicos e nomeação de aprovados, com dotação orçamentária emergencial via MEC”.
Outro ponto central da carta é a defesa da ampliação das políticas de permanência acadêmica, entre elas ampliação da moradia estudantil em todos os campi da universidade, que totalizam quatro espaços. A medida é apontada como essencial para assegurar o direito à permanência e à conclusão do curso, argumenta o DCE. Atualmente, segundo o documento, apenas os campi de Alegre (sul) e São Mateus (norte) possuem residências estudantis, “ainda assim em número insuficiente para atender à demanda existente”. Já os campi de Goiabeiras e Maruípe não contam com qualquer estrutura de moradia.
Para os estudantes, a ausência de residências em Goiabeiras – o maior campus da Ufes – agrava desigualdades, sobretudo para alunos vindos de outros municípios. O diretório classifica como “urgente a implantação e ampliação de residências estudantis em todos os campi”, argumentando que a medida é essencial para assegurar o direito à permanência e à conclusão do curso.
Em relação à criação de uma Universidade Estadual do Espírito Santo, a carta aponta que, embora reconheça o papel estratégico da Ufes, apenas uma universidade pública no Estado “é insuficiente para atender, sozinha, à demanda”, limita as possibilidades de acesso ao ensino superior e concentra oportunidades em poucos territórios”. A criação da universidade é considerada uma estratégia de ampliação e interiorização do ensino superior público. O movimento solicita o respaldo do MEC para articulação com o governo estadual, visando viabilizar a implantação da nova instituição.
O documento também aborda a inclusão de estudantes surdos e com deficiência auditiva. O DCE critica normas editadas em gestões anteriores do governo federal que teriam restringido contratações de intérpretes de Libras. Segundo o documento, decretos publicados durante os governos Temer e Bolsonaro “extinguiram cargos e restringiram contratações”, o que, na avaliação dos estudantes, viola a legislação que assegura direitos às pessoas com deficiência. Diante disso, o movimento demanda “a revogação imediata dessas normas e a edição de regulamentação que garanta contratações permanentes e ampliadas” de intérpretes nas universidades federais.
A permanência de estudantes com filhos também é tratada como prioridade. O DCE afirma que a ausência de creches universitárias e redes de cirandas infantis provoca “evasão forçada” de alunos responsáveis por crianças pequenas. Atualmente, segundo a carta, apenas a CAP-Criarte escola experimental localizada no campus de Goiabeiras, atende parte da demanda. Para enfrentar o problema, os estudantes exigem recursos federais para a construção e ampliação de creches em todos os campi, além da criação de editais para fomentar cirandas autogestionadas.
No campo acadêmico, o DCE pede reajuste das bolsas dos Programas de Educação Tutorial (PET), que permanecem em R$ 400 mensais desde 2013. A defasagem, segundo o documento, compromete a permanência de bolsistas e a qualidade dos projetos. Os estudantes defendem a ampliação de vagas e a valorização do programa como “estratégia nacional de excelência acadêmica”.
Reivindicação semelhante é feita em relação às bolsas de extensão, como as vinculadas ao Programa Institucional de Iniciação em Ciência e Tecnologia (PIICT) e ao Programa de Apoio à Extensão e Produção Cultural (Paepe). Com valores congelados em R$ 700 mensais, os programas enfrentam, segundo o DCE, “desistências em massa”. O documento exige reajuste adequado e aumento de cotas por campus.
As lideranças afirmam que as reivindicações “não são isoladas, mas partem de uma agenda nacional pela educação como direito de todos e em todas as etapas”, e reforçam que contam com “ações concretas e céleres” por parte do MEC.
‘Eixo da mobilização’
O coordenador-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Pedro Lucas Fontoura, afirma que a luta pela permanência estudantil vai ser o eixo central das mobilizações estudantis deste ano. A medida é considerada pelo movimento como um direito estruturante da universidade pública, garantido a partir de políticas para que estudantes não apenas ingressem, mas tenham acesso a recursos para concluir a formação. A pauta inclui a defesa de auxílios financeiros integrais, fortalecimento do Restaurante Universitário (RU), ampliação de cotas trans e condições de acessibilidade para pessoas com deficiência (PCDs).
“Nós tomamos conhecimento da visita do ministro por meio de um convite da Reitoria para estarmos presentes acompanhando as visitas às obras e aos espaços que o ministro também iria. A partir disso, elaboramos, enquanto gestão, quais seriam as principais reivindicações dos estudantes na Ufes, que a competência para resolver o problema fosse do Ministério e não somente da Reitoria”, reforça. Ele afirma que a organização tem “boas expectativas para que essas reivindicações sejam atendidas, ainda mais num cenário de continuidade do governo Lula”.
“Agora que entregamos o documento, esperamos que a equipe do MEC se desdobre em nossas pautas e consiga encaminhar as nossas reivindicações. Sabemos que existem pedidos que podem ser resolvidos de maneira mais rápida, como a questão de processo seletivo para a contratação de professores para a Terapia Ocupacional, que o reitor [Eustáquio de Freitas] anunciou na última sessão do Cepe [Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão]. Outras devem levar um pouco mais de tempo, como a construção de moradia estudantil e de creche nos quatro campi”, pondera.

